Duas leis que nos governam

Sempre costumava dizer aos meus alunos que nós, humanos, somos governados por duas leis fundamentais: a lei da gravidade e a lei do menor esforço.

A primeira dispensa apresentações. Não fosse pela força gravitacional, não poderíamos sequer caminhar, pular ou dançar! Além de muitas outras coisas ainda mais importantes para o nosso processo civilizatório e histórico. A segunda, porém, embora pareça uma espécie de brincadeira, merece alguns comentários, por sua força extraordinária, por sua imensa capacidade de condicionar o comportamento das pessoas.

Devo esclarecer que, por décadas, fui professora de história econômica na UFRJ. Ao tentar debater os principais temas da disciplina por meio do confronto de ideias, propondo a leitura de autores muitas vezes controversos e antagônicos, esbarrei sempre na manifestação de uma agonia profunda e sincera de vários alunos diante da dúvida sobre qual deles escolher. A simples possibilidade de ficar diante de duas ou mais interpretações distintas sobre o mesmo fenômeno ou processo histórico levava-os quase ao desespero! Era preciso escolher logo uma delas, era urgente definir qual delas afinal venceria a disputa!

Não tenho dados estatísticos sobre isso, mas, pela experiência de décadas em sala de aula, posso intuir que há um número verdadeiramente significativo de pessoas que não suporta a ideia do próprio esforço para tirar conclusões e/ou para definir posições sobre as coisas da vida. Essas pessoas, que acredito sejam muitas, preferem que lhes sejam dadas opiniões já prontas, conclusões já tiradas, posições já definidas sobre tudo e sobre qualquer coisa. Dói-lhes mais a dúvida do que a certeza, embora eu sempre clamasse que a dúvida é muito mais criadora e florescente do que a certeza!

Pois bem, ao ler e ver tantas manifestações odiosas nos últimos dias, diante da vitória nas urnas da presidenta Dilma Rousseff, eu me lembrei dessa experiência. E pude constatar, mais uma vez, e com enorme tristeza, que a lei do menor esforço continua fazendo seus estragos em nossos corações e mentes. Muitas pessoas que expeliram o seu ódio incontrolável nestes dias pertencem a esse imenso e árido contingente de “preguiçosos” que não se dão sequer ao trabalho de ler e/ou ouvir o “outro lado”. Compraram a versão envenenada pela mídia (televisão, rádio, jornal e revista) e se puseram a repeti-la sem nenhum filtro, sem nenhuma interrogação.

Pelo menor esforço, terceirizaram suas consciências. O que está escrito e dito nos meios de comunicação da grande mídia empresarial é tomado como a única forma possível de apreensão da realidade. Não há alternativas. Agarram-se a essas versões como se fossem tábuas de salvação no mar da agonia da dúvida. E não querem ouvir mais nada. Recusam os questionamentos, receiam as incertezas.

Não sou ingênua de supor que essas pessoas (em grande número) não estão a defender seus próprios privilégios e prerrogativas. Estão sim. Mas fazem isso também porque se acostumaram a repetir sem nenhuma hesitação tudo que ouvem e leem nos órgãos de comunicação. Não têm coragem de duvidar, de questionar, de divergir, de contrapor. E, pelo menor esforço, chancelam até as mentiras, as calúnias e as boçalidades.

 

Rio de Janeiro, 30 de outubro de 2014.