“Um país de vigaristas?”

Corriam os anos 1990, e eu tinha um dentista que sempre repetia esta frase, com profunda amargura: “O Brasil é um país de vigaristas!”

O Dr. Augusto era um homem rico, tinha vários imóveis na Zona Sul do Rio de Janeiro. Filho único de um homem muito abastado herdou toda a fortuna do pai. Apesar disso, gostava de trabalhar. Sua jornada diária, de segunda a sexta, chegava a quase 12 horas. Antes das 8h da manhã, ele já estava no consultório para atender os primeiros pacientes. E era um profissional tremendamente honesto. Um verdadeiro exemplo.

A outra grande paixão do Dr. Augusto eram os congressos de odontologia dos Estados Unidos. Como homem rico, podia ir a tantos quantos quisesse. E voltava sempre maravilhado, contando as novidades que tinha aprendido e as novas tecnologias desenvolvidas para expandir os tratamentos dentários. Mas não perdia a oportunidade de nos acusar de termos construído “um país de vigaristas”, onde os inúmeros e mais variados tipos de golpe estavam sempre nos espreitando. Normalmente com a boca aberta, eu mais ouvia do que falava. Não dava nem para tentar argumentar!

Eu me lembro de pelo menos duas situações que o Dr. Augusto suportou com profunda indignação, e depois me contou. A primeira foi quando atendeu um cliente em seu consultório para fazer um tratamento caríssimo, que envolvia, inclusive, alguns implantes. O homem tinha sido muito bem recomendado, e era rico (ou tido como tal); por isso, ele não se importou de deixar para receber o pagamento só no final. Confiou na lisura do cliente. Pois bem, o longo e caro tratamento terminou, e o Dr. Augusto jamais viu a cor do seu dinheiro! Com a boca totalmente renovada, o camarada simplesmente desapareceu sem dar qualquer satisfação! Um belo dia, quando vinha caminhando em direção ao consultório, depois do almoço, o meu dentista avistou o tal sujeito descendo de um Mercedes-Benz conduzido por motorista e entrando numa famosa joalheria. Das duas uma: não foi por falta de dinheiro, certamente, que deixou de pagar seu tratamento ou estava prestes a praticar outro golpe!

A segunda rasteira que o Dr. Augusto levou no consultório e depois me contou foi quando recebeu a conta de telefone de um determinado mês e viu uma ligação para Paris, com duração excessivamente longa, que ficara em torno de uns 200 reais. Ele conversou com a sua assistente, conferiu a agenda dos clientes daquele dia e acabou concluindo que uma das pacientes agendadas tinha chegado mais cedo para a consulta só para dar aquele telefonema! Pediu para usar o telefone e é claro que a secretária permitiu, como sempre fazia com todos, sem imaginar que dali sairia mais um golpe contra o bolso do Dr. Augusto! Daquele dia em diante, porém, o uso do telefone passou a ser controlado pela secretária, que digitava, ela mesma, os números solicitados pelos pacientes. A tal fulana, que usara indevidamente o telefone do consultório, nunca mais deu as caras! Mas ajudou a aumentar a já imensa amargura do Dr. Augusto.

Quando li a notícia de um gerente da Petrobras, que desviou cerca de 100 milhões de reais da estatal para o próprio bolso, confessando que não roubava para partidos ou políticos, mas para si mesmo, lembrei imediatamente do Dr. Augusto. Tenho certeza de que, se soubesse disso, ele mais uma vez iria proferir a sua célebre frase carregada de amargor: “O Brasil é um país de vigaristas!”

Diante de tanta desonestidade, é quase inevitável que se pense dessa maneira, tendendo a generalizar. Afinal de contas, os casos de assalto ao dinheiro público são antológicos no Brasil. Agora, quando eles estão se tornando mais e mais conhecidos de todos, temos a impressão de que aumentaram e se espalharam. Mas é só impressão. Esse pendor para a desonestidade é muito antigo entre nós e precisa ser combatido com rigor. Tanto na esfera pública quanto na esfera privada, da qual o Dr. Augusto, de saudosa memória, tinha exemplos tão vergonhosos e desanimadores.

Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2014.