Energia

Ontem, dia 20/01, assisti à entrevista coletiva do ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga. Acompanhado de dois secretários de seu ministério, ele se dispôs a apresentar as explicações preliminares para a falta de energia que ocorreu na segunda-feira, 19/01, em algumas regiões do país, e a responder às perguntas dos jornalistas presentes. Admirei sua calma e seu sotaque (ele é amazonense).

Da parte dos jornalistas brasileiros, pude ouvir indagações insistentes acerca da pretensa “fragilidade” do nosso atual sistema elétrico. O ministro respondeu a tudo, tanto com as explanações técnicas cabíveis quanto com as informações concernentes ao panorama energético nacional. Fiquei sabendo, por exemplo, que o Brasil triplicou sua capacidade de produção de energia, de 2001 a 2014. E, além disso, que o país diversificou de forma significativa as suas fontes de energia, com uma considerável ampliação da capacidade eólica e de biomassa. O ministro descartou ainda a previsão de racionamento, buscando mostrar que uma coisa é a disponibilidade de energia para atender às necessidades da população, que está adequada no momento presente; outra coisa é a ocorrência de problemas técnicos eventuais que possam provocar a interrupção momentânea de energia, como vem acontecendo vez por outra nos últimos anos.

Essas explicações não me pareceram difíceis de entender, até porque elas coincidem com a experiência prática de todos os dias, em que o corte no fornecimento de energia elétrica tem sido eventual e esporádico. Não temos vivenciado episódios constantes nem prolongados de falta de eletricidade (o de anteontem durou aproximadamente 50 minutos). Portanto, a fala do ministro me pareceu convincente e tranquilizadora.

Mas não para os jornalistas que fizeram as perguntas. Como pareciam já ter as respostas prontas, e as matérias também, eles insistiam em apontar a “fragilidade” do nosso sistema elétrico, fazendo de tudo para que o ministro a admitisse. Ele não fez isso. Tornou a apresentar seus dados e seus argumentos, com toda a calma possível. Repetiu ponto por ponto, sem demonstrar irritação nem impaciência. Pareceu ter plena noção das responsabilidades do seu cargo.

A última pergunta foi feita por uma “gringa” com forte sotaque, o que me dificultou a identificação da mídia que representava, quando se apresentou. Ela foi logo dizendo que as ações das companhias elétricas haviam caído na bolsa e que os investidores externos estavam profundamente desconfiados da capacidade energética brasileira (leia-se: do governo brasileiro). Daí, perguntou ao ministro se ele tinha alguma coisa a dizer sobre isso. Eu, particularmente, fiquei indignada! Quanto ao ministro, não sei dizer como ele se sentiu, porque tornou a repetir suas principais explicações com a mesma calma. No final da resposta, disse que tinha estado recentemente em Nova York, onde as péssimas condições climáticas provocaram um corte no fornecimento de energia elétrica que durou mais de quatro horas. Segundo ele informou, os “investidores” não reclamaram disso! É bom lembrar que a nossa interrupção da véspera durou menos de uma hora.

É lamentável que numa circunstância como essa nos vejamos confrontados com uma pergunta que privilegia as “preocupações” dos investidores externos, e não a qualidade de vida da nossa população. Antes de qualquer coisa, o fornecimento regular de energia é fundamental para o bem-estar da coletividade. Isso é o mais importante! Esse domínio de uma visão globalista que coloca os interesses dos mercados financeiros acima de tudo e de todos, no entanto, sempre merece a nossa reflexão. Porque expressa um arranjo institucional internacional cujo objetivo é justamente o de colocar todos os povos e todas as sociedades sob a influência direta do projeto global dos Estados Unidos, potência hegemônica atual. Portanto, toda vez que a oportunidade se apresentar, ele será trazido à baila e referendado como o “modelo correto” de funcionamento da ordem mundial. Tanto faz ser em Davos como em uma coletiva de imprensa do ministro das Minas e Energia do Brasil. Os seus arautos estarão sempre a postos para bradar o seu cântico. Em razão disso, não custa recordar a sua verdadeira natureza:

“(…) Durante as décadas do pós-guerra, o ambiente interno de muitos países era determinado pela ameaça do comunismo e de outros movimentos de esquerda, enquanto seu ambiente externo era determinado pela disputa americano-soviética. Esses dois contextos encorajaram os grupos sociais dominantes em tais países a aceitar a ‘liderança’ americana. Mas o declínio e o colapso, tanto do comunismo quanto da União Soviética, levaram a uma busca por novas maneiras de reunir os países sob a liderança americana e de firmar a ascendência econômica americana.

O projeto global americano pós-Guerra Fria, posto em prática pela administração Clinton, envolvia duas novas formas de alterar os ambientes interno e externo dos países de modo a os induzir a continuar a aceitar o domínio político e econômico dos Estados Unidos. A transformação dos ambientes internos dos países assume o nome de neoliberalismo: envolve uma mudança nas relações sociais internas em favor dos interesses do credor e do investidor, com a subordinação dos setores produtivos aos setores financeiros, e com uma tendência a afastar da riqueza, do poder e da segurança a maior parte da população trabalhadora.

A transformação do ambiente externo dos Estados toma o nome de globalização: envolve a abertura da economia política de um país à entrada de produtos, empresas, fluxos e operadores financeiros dos países centrais, tornando a política governamental dependente dos acontecimentos e decisões tomadas em Washington, Nova York e outros importantes centros capitalistas.”

Referência:

Peter GOWAN. A Roleta Global. Uma aposta faustiana de Washington para a dominação do mundo. Tradução: Regina Bhering. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2003, pp. 9-10.