Sobre o Racismo

Lamentavelmente, tivemos o conhecimento de mais um caso recente de xingamento racista no esporte brasileiro. Desta vez, a central Fabiana Claudino, da equipe de vôlei do SESI-SP e da seleção brasileira, acusou um torcedor de racismo na partida disputada contra a equipe do Minas, pela Superliga Feminina, na última terça-feira (27/01/2015). Segundo Fabiana, o homem a chamou de “macaca” e perguntou se ela “queria banana”.

O caso aconteceu no ginásio do Minas, em Belo Horizonte, onde, não faz muito tempo, o jogador Wallace, do Cruzeiro e da seleção brasileira, também foi atacado com ofensas racistas, num jogo da Superliga Masculina de vôlei, contra o time da casa.

Embora o torcedor em questão tenha sido retirado do ginásio pela direção do Minas Tênis Clube, que se apressou em repudiar esse tipo de comportamento e o encaminhou à delegacia mais próxima, Fabiana não prestou queixa e, com isso, o caso não vai à frente. Em seu desabafo nas redes sociais, a atleta comentou:

(…) Eu não preciso ser respeitada por ser bicampeã olímpica ou por títulos que conquistei, isso é besteira! Eu exijo respeito por ser Fabiana Marcelino Claudino, cidadã, um ser humano. A realidade me mostra que não fui a primeira nem serei a última a sofrer atos racistas, mas jamais poderia me omitir. Não cabe mais tolerarmos preconceitos em pleno século XXI. (UOL, uol.com.br 28/01/2015)

É interessante observar que na mesma terça-feira a presidenta Dilma Rousseff publicou uma nota oficial em referência ao Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, na qual fez os seguintes destaques:

Relembrar os horrores do Holocausto é necessário para que eles jamais sejam esquecidos, para que jamais se repitam. Para que se fortaleça sempre e em todas as sociedades a condenação a todas as formas de intolerância, discriminação, perseguição e violência contra pessoas ou comunidades por sua origem étnica ou crença religiosa. (Blog do Planalto, blog.planalto.gov.br 27/01/2015)

Talvez falte isso em relação à escravidão. Precisamos nos horrorizar com os sofrimentos bárbaros e prolongados que foram impostos aos africanos escravizados e seus descendentes. Precisamos nos envergonhar da escravização de homens e mulheres, e de seus filhos, privados dos direitos humanos essenciais por tantos séculos. Precisamos nos conscientizar desse passado trágico para impedir que ele nos assombre dessa forma torpe que o racismo representa tão bem.

Alguns aspectos de nossa história são fundamentais para isso. Em primeiro lugar, há o reconhecimento de que os escravos foram privados não apenas de sua liberdade, mas de sua voz. Não conhecemos a sua versão dos fatos, a não ser de modo esparso e fragmentado. Não temos uma história da escravidão contada pelos negros, embora tenhamos obras acadêmicas de grande profundidade e significado sobre o tema. Isso faz muita diferença. Porque a vivência histórica de tantos séculos de opressão e dor nós só sabemos por meio de conjecturas e suposições. Os testemunhos, as declarações, as memórias, na maior parte das vezes, ficaram perdidos para sempre.

Em segundo lugar, esse apagamento histórico sofreu ainda o impacto de diversas outras condições que se sobrepõem no tempo e no espaço para obscurecer ainda mais o significado da escravização dos negros entre nós. Uma das mais controvertidas foi a “destruição” dos documentos sobre a escravidão por ordem de Rui Barbosa, em 1891, então ministro da Fazenda. Durante muito tempo tratada como uma verdadeira aberração, responsável pela perda de boa parte da “nossa memória do escravismo”, a questão passou a ser tratada de maneira diversa nas pesquisas mais recentes. Em vez de ter sido destinada a “apagar essa mancha vergonhosa de nossa história”, a queima desses documentos ordenada por Rui Barbosa vem sendo explicada como uma manobra política cujo objetivo maior era privar os antigos proprietários de escravos das provas materiais necessárias para respaldar os pedidos de indenização motivados pela abolição.

A polêmica é interessante, mas não acrescenta tanto ao debate quanto a observação de que os ex-escravos teriam sido relegados a um segundo plano nos arranjos políticos e socioeconômicos que se seguiram ao fim da escravidão. Cabe observar que o período histórico subsequente à abolição da escravatura no Brasil também foi marcado por determinadas iniciativas voltadas para a solução da “falta de braços” no país, uma alusão metafórica à eliminação do trabalho forçado realizado pelos negros. Uma dessas iniciativas, que já vinha sendo tentada desde meados do século XIX (com a proibição definitiva do tráfico negreiro, em 1850), foi o incentivo à imigração, que tendeu a se intensificar após 1890.

Tanto no campo quanto nas cidades, muitos empregadores optaram pela contratação de trabalhadores de origem europeia, dotados de alguma qualificação (ou não) e empenhados em “fazer a América” — a presença maciça dos imigrantes italianos em Estados como São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, por exemplo, é uma das características mais marcantes desse processo. Embora os estrangeiros viessem se integrar a uma estrutura socioeconômica em que predominavam trabalhadores negros e mestiços, sua forte presença foi ainda mais realçada pela adesão incondicional da elite republicana à ideia da superioridade inquestionável do branco europeu (uma ideologia cantada em prosa e verso pela moda da época). A discriminação dos trabalhadores locais, vistos em geral como “vadios”, “desordeiros”, “vagabundos”, contribuiu para colocá-los numa situação de desvantagem ainda maior em relação aos estrangeiros.

A cidade do Rio de Janeiro oferece um bom exemplo desse processo histórico, com a entrada maciça de imigrantes portugueses, a partir de 1890. Chegou-se a dizer que o Rio era a segunda cidade com maior população portuguesa no mundo, só perdendo para Lisboa! Embora oriundos das áreas rurais de Portugal, esses imigrantes, que eram predominantemente jovens solteiros do sexo masculino, tendiam a se concentrar nas principais áreas urbanas do Brasil, com amplo destaque para o Rio de Janeiro. Isso se explica pela prevalência de empresários portugueses nas atividades urbanas mais florescentes naquela época — comércio, manufaturas, serviços.

A chegada desses jovens trabalhadores era quase sempre precedida de uma ampla divulgação das “vantagens” oferecidas pelo mercado de trabalho brasileiro, por meio de uma rede de informações tecida com cartas e relatos pessoais daqueles que haviam sido bem-sucedidos no Brasil. Embora as chances de prosperar em território brasileiro fossem maiores do que em sua terra natal, um grande número dos jovens que imigraram sonhando com a fortuna e o sucesso permaneceu à margem desse imenso devaneio. Mesmo aqueles que conseguiram escapar da violência e do crime, para os quais outros foram arrastados, tiveram que contentar-se com uma vida modesta proporcionada pelo emprego simples e o módico salário. Com um pouco mais de sorte, e de preparo, alguns se firmaram como artesãos (carpinteiros, marceneiros, alfaiates, sapateiros) e lograram uma independência maior.

O fato, no entanto, é que, sendo brancos de origem europeia, puderam usufruir de algumas vantagens, ainda que dentro de um mesmo contexto de pobreza. Por mais dolorosas e sacrificadas que tenham sido as suas experiências de vida, elas foram, indiscutivelmente, menos atribuladas pela discriminação e pelo preconceito. Num quadro de desigualdades extraordinárias, como se viu e se vê no Brasil, isso já se constituiu e se constitui num diferencial de grande significado. Os ex-escravos, por sua vez, foram duplamente privados de alguns direitos essenciais — por sua condição social e por sua origem étnica. E deixaram esse legado aos seus descendentes.

Referências:

Boris Fausto (organizador). Fazer a América. A imigração em massa para a América Latina. São Paulo: Edusp, 2000.

Carlos Lessa (organizador). Os Lusíadas na aventura do Rio moderno. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2002.