De inovações e de progressos técnicos

Uma das coisas mais difíceis de explicar é que o progresso técnico não é neutro. Nós nos acostumamos a uma imagem bastante idealizada da ciência, na qual pesquisadores abnegados e desinteressados dedicam as suas vidas à busca de meios para satisfazer as necessidades humanas, sendo esses meios cada vez mais aprimorados e complexos. Isso pode ser verdadeiro, em parte. Mas não é a explicação mais convincente para a torrente de inovações tecnológicas que invade o mundo capitalista, desde o advento da Revolução Industrial. O que se vê de fato não é um conjunto de novidades que atendem às necessidades mais elementares de uma vida em sociedade, apenas. Estamos cercados de objetos e serviços que nos criam novas necessidades, das quais nos tornamos todos irremediavelmente dependentes e sem as quais não concebemos mais uma vida possível.

É preciso diferenciar também ciência e tecnologia. Muito já se escreveu sobre as enormes e árduas dificuldades que existem para transformar uma descoberta científica qualquer, de maior ou menor grau de complexidade, em um novo método ou uma nova técnica de produção, ou em um novo produto ou serviço. A relação entre ciência e tecnologia não é óbvia nem direta. Os caminhos a percorrer entre uma e outra são cheios de obstáculos e percalços, alguns deles praticamente intransponíveis. Além disso, há que se pensar ainda nos custos elevados que se impõem à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico, cada vez mais complicados e exigentes. Entre outras, essa é uma das razões que determinam a dianteira dos países mais ricos na corrida da inovação: sua capacidade de investir pesadamente em ciência e tecnologia, com todos os riscos implicados no processo, inclusive o risco de não obter os resultados esperados.

As principais inovações tecnológicas do homem ocorrem por meio de dois procedimentos correlatos: a) produzir as mesmas coisas de maneiras novas; b) produzir coisas novas. Numa perspectiva histórica, portanto, a aceleração do progresso tecnológico que passou a ocorrer desde o advento da sociedade industrial moderna (final do século XVIII, Inglaterra) se desdobrou em dois aspectos principais: produzir em escala industrial os bens já produzidos artesanalmente (roupas, alimentos, bebidas, utensílios domésticos, ferramentas agrícolas, livros, canetas, cosméticos, móveis, tapetes); e produzir novos bens, cujos processos de fabricação também precisam ser inventados (a estrada de ferro é o exemplo mais emblemático do século XIX e o automóvel, o do século XX).

Um dos desafios mais agudos da história econômica tem sido o de determinar os contextos e os impulsos nos quais as inovações são desencadeadas. Eric Hobsbawm deu contribuições inestimáveis com seus estudos sobre a Revolução Industrial inglesa. Uma de suas observações mais instigadoras é aquela que dialoga com a suposição bastante comum de que “uma economia de iniciativa privada tende automaticamente para a inovação”, algo que se difunde com relativa frequência na literatura especializada e nos textos de divulgação e propaganda. O que os estudos de história econômica permitem indagar, ao contrário disso, é que as inovações tecnológicas são por demais complexas e custosas, para que resultem assim espontaneamente da simples “vocação” natural dos empreendedores. Hobsbawm sugere uma resposta firme para essa questão:

“O enigma está na relação entre a obtenção de lucro e a inovação tecnológica. Supõe-se com frequência que uma economia de iniciativa privada tende automaticamente para a inovação, mas isto é uma inverdade. Ela só tende para o lucro. Ela só revolucionará as atividades econômicas no caso de esperar maiores lucros com a revolução do que sem ela.”

No caso da Revolução Industrial inglesa, a primeira da história humana, salta aos olhos o fato de que a atividade produtiva que inaugurou o sistema fabril tenha sido a de tecidos de algodão, quando a manufatura da lã era de longe a atividade artesanal mais tradicional entre os ingleses, e uma das fontes de renda mais importantes de todo o reino, com forte peso nas exportações. Por mais contraditório que isso possa parecer, à primeira vista, a questão é que, por ser menos importante do ponto de vista político, a produção algodoeira estava livre da pesada tutela que sobrecarregava as demais manufaturas, como a da lã, que viviam sob rígido controle das normas governamentais. Por isso mesmo, desde o princípio, a produção algodoeira inglesa teve mais liberdade para experimentar as inovações e desencadear assim o processo fabril que revolucionou as artes manufatureiras no final do século XVIII. Essa liberdade interna de organização e criação foi um dos fundamentos dos progressos técnicos e das inovações introduzidas na indústria do algodão, que lhe garantiram a supremacia inicial nos mercados internos e externos. Só algum tempo depois a produção lanífera adotou os mesmos processos inovadores do sistema fabril.

Por que os produtores de tecidos de algodão se viram impelidos a adotar as inovações técnicas que resultaram na expansão do sistema fabril? Segundo Hobsbawm, porque tinham diante dos olhos um mercado crescente, tanto interna quanto externamente, ávido por consumir os tecidos de algodão que conquistavam cada vez mais a preferência popular. Nesse primeiro momento, em que a produção em escala industrial dava os seus primeiros passos, isso só podia acontecer numa atividade já corriqueira e num mercado já existente previamente. A capacidade de criar novos mercados e novos produtos e serviços só viria a se desenvolver posteriormente, sobretudo, nas décadas finais do século XIX, quando a economia industrial já estivesse madura o suficiente para instituir os seus próprios mecanismos autossustentáveis de expansão contínua e acelerada.

Assim, é preciso sempre ponderar a natureza da relação entre progresso industrial e pesquisa científica e tecnológica. Exemplos como os da Alemanha e do Japão nos mostram que, em muitos casos, os avanços resultaram de políticas deliberadas de incentivo, muitas vezes motivadas por ambições e projetos que tinham pouco ou nada a ver com decisões econômicas ou empresariais puras, baseadas na livre iniciativa dos empreendedores. Mesmo nos Estados Unidos, há estudos que apontam a relevância da política federal antitruste implantada em finais do século XIX como uma das principais motivações para o investimento em pesquisa industrial: o crescimento das empresas (e de seu poder competitivo) passou a depender cada vez mais da descoberta de novos mercados e de novos negócios. Para isso, as inovações se tornaram fundamentais. Caso a legislação antitruste não tivesse sido aprovada, a formação de grandes monopólios nos diversos setores da economia, se não chegasse a impedir de modo radical os avanços tecnológicos rápidos e contínuos, talvez tivesse servido para atrasá-los e reduzi-los de modo significativo. Esta é mais uma evidência de que não existe uma “tendência inerente e natural” para a inovação nas economias capitalistas, e de que estas podem ser mais bem compreendidas quando colocadas em sua dimensão histórica.

Referências:

Eric J. Hobsbawm. Da Revolução Industrial inglesa ao imperialismo. Tradução: Donaldson Magalhães Garschagen. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1978, p.39.

David C. Mowery & Nathan Rosenberg. Trajetórias da inovação. A mudança tecnológica nos Estados Unidos da América no século XX. Tradução: Marcelo Knobel. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2005.