Que pena, Stédile!

João Pedro Stédile foi o entrevistado de ontem (10/03/2015) do programa Espaço Público, da TV Brasil. Antes de qualquer coisa, cumpre ressaltar o nível excelente dos jornalistas Paulo Moreira Leite, que comanda as entrevistas, e Florestan Fernandes Júnior, debatedor permanente. Os demais entrevistadores costumam ser representantes convidados de outros órgãos de mídia. A de ontem era uma jornalista do Valor Econômico que, se não acrescentou grande contribuição à discussão, também não prejudicou o andamento da entrevista.

É inegável que João Pedro Stédile tem uma força extraordinária com o uso das palavras. Qual um tribuno das melhores cepas, expõe ideias e críticas com uma clareza e um vigor inquestionáveis. Moldado em décadas de luta nos movimentos sociais, dirige-se ao público com total desenvoltura e tem respostas para tudo. Eu o vi pessoalmente uma única vez, no ano 2000, quando foi dar uma palestra na faculdade em que eu lecionava. Fiquei completamente arrebatada pela força das suas convicções (mas devo confessar que já era simpatizante antiga das causas do MST). O olhar duro e penetrante de quem acredita piamente no que faz foi uma das coisas mais impressionantes que vi na vida. Selei ali uma admiração que se revelou bastante duradoura.

Ontem, porém, minhas melhores impressões se dissiparam. Ao ouvi-lo referir-se à presidenta como “tia Dilma” (fez isso várias vezes), dizer que ela “não entende nada do assunto” (agricultura) e, portanto, fica refém dos “puxa-sacos” que vêm buzinar uma série de bobagens em seus ouvidos, fiquei perplexa. O ápice desse comportamento inconsequente (e, por que não, infantil?!) se deu no momento em que ele afirmou que o discurso dela no domingo passado (Dia Internacional da Mulher) foi um verdadeiro “apanhado de besteiras”. Embora tenha admitido que estivesse viajando e não viu o pronunciamento, mas soube dele por terceiros, Stédile ainda acrescentou que a fala da presidenta foi no mais puro “economês” e que o povão, portanto, não entendeu nada. Ou seja, Dilma não sabe falar com a população e não tem sensibilidade política!

Ouvindo essas coisas a gente se dá conta da penetração que esse discurso do Stédile tem nos segmentos mais expressivos da chamada esquerda brasileira. Tais ideias e pensamentos vêm se propagando com imensa velocidade nas redes sociais, por exemplo. Ao que parece, o mau humor que se espalha contra a presidenta nos chamados “círculos progressistas” bebe justamente nessa fonte.

O ataque a Kátia Abreu não poderia faltar na entrevista de Stédile. Entre outras coisas, ele disse que “ela nunca trabalhou”, apenas ficou com o dinheiro! Quando alguém argumentou que ela agora estava trabalhando como ministra da Agricultura, ele então alegou que ela finalmente teria um salário! Não conheço a biografia de Kátia Abreu e nem pretendo defendê-la (não tenho nenhuma razão para tanto), mas achei tudo isso um exagero. Se não me engano, ela foi senadora da República por muitos anos, depois de ter sido deputada federal por dois ou três mandatos. O que me chamou a atenção mesmo nessas críticas, porém, é que elas logo descambam para o lado pessoal e se revestem do mais cristalino machismo.

Vejamos: “tia Dilma” não entende nada de agricultura e precisa ser tutelada (por quem entende, é claro); “tia Dilma” não sabe falar e não compreende o jogo político, logo, é preciso que alguém faça isso por ela; “tia Dilma” é refém de um bando de bajuladores que a manipulam e confundem. Ou seja, segundo esse discurso, a presidenta não tem competência nenhuma e só comete erros. Para a oposição, que deseja loucamente desmoralizá-la e tirá-la do poder é musica para os ouvidos…

Uma coisa é discordar das políticas e dos enfoques, outra coisa bem diferente é desqualificar dessa forma brutal o seu oponente. E, neste caso, afirmo aqui com todas as letras, é puro machismo. Na hora de confrontar a presidenta, precisa chamá-la de “tia”, de “despreparada”, de “ignorante”. Não pode simplesmente divergir no plano teórico e de princípios; tem de ofendê-la e diminuí-la porque é uma mulher. E pior: uma mulher que tem poder, e que está no poder!

Lá pelas tantas, na entrevista, Paulo Moreira Leite tocou na questão do machismo (achei de uma sagacidade ímpar!) e perguntou como era isso dentro do MST. Stédile até fez uma explanação interessante sobre a emancipação das mulheres no plano econômico — quando elas começaram a “sair da cozinha” e passaram a ter os seus próprios ganhos, no meio rural, usufruindo de maior autonomia e buscando a paridade de direitos. Chegou a citar alguns casos de casais de mulheres que pertencem ao movimento e tocam as suas propriedades com plenos direitos, como um avanço dentro do MST. Sem dúvida, isso é muito bom. (Mas acho também que ele se esqueceu de dizer o quanto a presidenta Dilma tem se empenhado em assegurar maiores conquistas às mulheres!)

Todavia, o machismo não é somente a opressão econômica das mulheres, embora comece justamente aí. O machismo também é essa perseguição moral que persiste, mesmo quando elas estão emancipadas no plano material, da qual a entrevista de ontem foi mais um exemplo triste, infelizmente. Que pena, Stédile, mas você perdeu uma grande admiradora!

Rio de Janeiro, 11 de março de 2015.