A retórica reacionária

Nos dias que correm, não é raro ouvir a pregação reacionária contra toda e qualquer tentativa de mudança. Contra a liberalização dos costumes, contra a ampliação dos direitos das minorias, contra a tolerância religiosa e/ou política, levantam-se as vozes da reação que bradam seus credos em tom elevado e dissonante. Não querem mudanças nem diferenças! Longe de argumentar de modo apropriado em benefício do que defendem, pregam o não às aspirações transformadoras atribuindo-se-lhes toda sorte de degeneração dos “valores sagrados” que cultuam.

Albert O. Hirschman denominou essa pregação de “retórica reacionária” (ou “retórica da intransigência”, na opção do editor brasileiro) e examinou os seus principais argumentos num pequeno livro precioso. Tendo como marco histórico a Revolução Francesa, talvez a iniciativa mais ousada do Ocidente, no sentido da mudança, o autor busca dissecar os pressupostos mais importantes do pensamento conservador, em sua batalha incansável contra toda e qualquer tentativa de transformação da realidade (ou do status quo, por assim dizer). Ao longo da história, Hirschman identificou algumas ondas reacionárias recorrentes que se levantam sempre que os esforços transformadores ditos progressistas prometem obter algum êxito.

Com base numa tríade explicativa apresentada pelo sociólogo inglês T. H. Marshall, em 1949, a ciência social moderna consagrou uma linha evolutiva de expansão dos direitos humanos que pode ser esboçada nos seguintes termos: no século XVIII, expandiu-se a cidadania civil (liberdades de expressão, pensamento, religião; igualdade perante a lei); no século XIX, estendeu-se a cidadania política (participação popular no exercício do poder político, sobretudo, com o direito de voto — o sufrágio universal); e, no século XX, ampliou-se a cidadania socioeconômica com a conquista dos direitos essenciais a educação, saúde, bem-estar econômico e segurança.

Uma visão otimista perpassou grande parte dos estudos sobre o tema, consolidando a percepção de que esses ganhos são cumulativos e perenes, caracterizando uma “evolução progressista” das sociedades ocidentais. O que Hirschman procura mostrar em seu pequeno livro precioso, contudo, é que nenhuma dessas conquistas de fato ocorreu sem a contrapartida de uma argumentação oposta que, muitas vezes, resultou em movimentos políticos que visaram e conseguiram limitar ou eliminar o seu alcance efetivo. As experiências fascistas são exemplos bem eloquentes neste sentido.

Ao sistematizar a abordagem sobre os principais argumentos esgrimidos pelos reacionários, Hirschman os organiza em três teses essenciais: a da perversidade, a da futilidade e a da ameaça. Embora sejam distintos em alguns aspectos da sua formulação, os argumentos arrolados nessas três teses essenciais apontam para uma mesma direção: toda tentativa de mudança é inútil, “todos os tiros saem pela culatra”. Um dos elementos mais amplamente explorados como “comprovação” dessa assertiva foi a etapa de “tirania e terror” implantada por uma revolução (a de 1789) que dizia buscar a liberdade, pretendendo-se mostrar com isso “a disparidade existente entre as intenções e os resultados efetivos”. As ações humanas, pregava o discurso reacionário, estão fadadas ao fracasso quando desejam se sobrepor à Providência Divina, o elemento definidor por excelência da ação do homem!

Em sociedades altamente hierarquizadas, como as do Ocidente, as camadas inferiores eram vistas com o mais profundo desprezo pelos ricos e pela classe média. Quando essas mesmas camadas começaram a assumir algum protagonismo na luta por direitos e intensificaram as explosões sociais, ao longo do século XIX, a esse profundo desprezo veio se juntar o temor (daí o epíteto de “classes perigosas” que lhes foi atribuído). A participação das massas na política era vista como uma verdadeira aberração e o sufrágio universal como o ápice da estupidez humana, promovendo-se ataques sistemáticos à maioria e ao governo da maioria. Um dos expoentes da crítica ferrenha à política democrática foi Nietzsche, que cunhou a expressão “instinto de manada” para se referir ao comportamento irracional frequentemente associado às multidões. Dar a elas o poder de decisão por meio do voto era nada menos do que uma temeridade!

Mas é na economia, mais do que em qualquer outra atividade humana, que a doutrina do efeito perverso se revela mais contundente ainda: a ideia de um mercado que se autorregula rejeita, por principio, qualquer tipo de interferência. “(…) qualquer política pública que tenha por meta mudar resultados do mercado, tais como preços e salários, torna-se automaticamente uma interferência nociva em processos benéficos de equilíbrio” (p.30).

Na questão da assistência social aos pobres, então, a tese da perversidade se amplia mais ainda e alcança o seu verdadeiro paroxismo, ao pretender demonstrar os efeitos adversos do assistencialismo sobre as condições da pobreza: dele decorreria “o incentivo à preguiça e à depravação, induzindo-se a uma pobreza ainda maior”. Portanto, a assistência pública aos pobres estaria condenada ao fracasso, pois, em vez de procurar trabalho e qualificação melhores, “os indivíduos se alistam na assistência social e se acomodam na preguiça e na pobreza”. Por mais que os estudos e pesquisas na área tenham bons exemplos de êxito desse tipo de política pública, em todo o mundo, os argumentos reacionários prosseguem difundindo a tese da perversidade a respeito de qualquer iniciativa dessa espécie.

Agarrando-se a premissas e princípios consagrados, os principais argumentos da retórica reacionária insistem na ideia da futilidade de qualquer tentativa de mudança. Para desmerecer e ridicularizar os esforços e sacrifícios daqueles que lutam pelas transformações positivas da realidade (aquelas que buscam ampliar os direitos da maioria), pregam o pressuposto de que as “estruturas profundas” da sociedade permanecerão sempre intactas e toda mudança será meramente aparente, apenas de fachada. A frase mais célebre a esse respeito foi cunhada pelo jornalista francês Alphonse Karr, em 1849: “plus ça change, plus c’est la même chose” (quanto mais muda, mais permanece igual).

Por outro lado, numa linha argumentativa semelhante, invoca-se a suposição de que não há nada de novo — “tudo já estava lá”. Todas as realizações apregoadas pelos autores das mudanças são esvaziadas por meio da ênfase nas continuidades, em detrimento das rupturas. “Vocês não fizeram nada de novo, apenas continuaram o que estava sendo feito, o que já existia.” É o outro lado da moeda de que nada muda de fato, tudo continua sendo como sempre foi. Essa descrença na possibilidade de mudança é a pedra de toque do pensamento reacionário, a sua grande fonte inspiradora.

Fútil, perversa, ameaçadora, a mudança é um mal em si mesmo no pensamento conservador. O risco maior, contudo, como bem demonstra Hirschman, reside no fato de que o pensamento progressista, ao tentar se contrapor às ondas reacionárias recorrentes, termine por se cristalizar em formas antitéticas tão fechadas e intransigentes quanto essas que pretende contrastar.

Referência:

Albert O. Hirschman. A retórica da intransigência: perversidade, futilidade, ameaça. Tradução: Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.