Pobre Dona Leopoldina!

Terminei de ler as cartas de Dona Leopoldina (1797-1826), a princesa austríaca da dinastia Habsburgo que se casou com Dom Pedro I e virou imperatriz do Brasil. As cartas foram selecionadas previamente pela equipe encarregada da edição e constituem apenas uma amostra da intensa correspondência que ela manteve, sobretudo, com os seus familiares durante o (curto) período em que viveu no Brasil (1817-1826). O pai Francisco (imperador da Áustria) e a irmã Maria Luísa, a mais velha e a mais querida por Leopoldina, foram os principais destinatários das notícias e dos apelos da imperatriz, que sempre reclamava da imensa saudade que sentia da família e da pátria agora tão distantes.

Em diversas passagens, Leopoldina chegou mesmo a dizer que pressentia, de modo quase desesperado, que nunca mais haveria de regressar à Europa. As circunstâncias políticas que marcaram as relações entre Brasil e Portugal naquele momento histórico de tensões e dramaticidade dificultaram enormemente o regresso de Dom Pedro à corte portuguesa. Essa dor aguda que carregava dentro do peito era a fonte constante da profunda melancolia que dizia sentir. A estada no Brasil, na condição de imperatriz, era como um exílio que a fazia lamentar com tristeza e amargura a perda do convívio familiar e das comodidades de uma vida aristocrática na Europa. Aos poucos, no entanto, uma evidente resignação foi tomando o seu lugar no coração de Leopoldina.

Confesso que nunca tinha prestado maior atenção nessa personagem da história brasileira, até visitar uma exposição organizada em sua homenagem, no Museu Histórico Nacional, aqui no Rio de Janeiro, no mês de janeiro passado. O forte apelo emocional provocado por suas cartas, cujos trechos foram exibidos na mostra, acabou despertando minha curiosidade, e fui a elas.

Ao contrário do que se possa pensar, essas cartas não contribuem para um melhor entendimento da história brasileira daquele período politicamente tão conturbado, do processo de Independência e dos movimentos e insurreições que o caracterizaram. Não são relatos ou documentos históricos, são os registros momentâneos e afetuosos de uma aristocrata que conhecia muito bem o peso das atribuições que lhe competiam. Isso fica evidente em diversas passagens nas quais Leopoldina menciona claramente que busca a própria felicidade no estrito cumprimento do dever como esposa e mãe, “seguindo todos os ensinamentos da Casa da Áustria, como seu digno membro”. Foi justamente por ter isso em mente que, numa carta que escreveu a Maria Luísa, revelou suas preocupações com a pequena Maria, sua primogênita, que viria a ser rainha de Portugal: “(…) estou sempre muito ocupada com ela, só me parece ser de temperamento um tanto impaciente e indomável, que quero extirpar logo, pois para nós mulheres são precisos paciência e sacrifício da própria vontade” (08 nov 1819).

Leopoldina acompanhou ativamente toda a movimentação que cercou o processo de Independência do Brasil, dando total apoio ao marido, que foi o seu principal protagonista. Em várias cartas endereçadas ao pai e à irmã Maria Luísa, implora para que apoiem o novo país e consigam adesões ao seu reconhecimento internacional. Ao mesmo tempo, no curso desses acontecimentos, percebe que o Brasil independente seria a sua morada definitiva, fato que a manteria afastada, de modo irremediável, da família e da terra natal que tanto amava. Mesmo assim, foi firme em relação aos episódios que se sucederam, dos quais participou intensamente, valorizando as decisões tomadas em relação ao futuro político do país que adotara como seu.

Suas impressões sobre o Brasil ressaltavam um encantamento deslumbrado com as belezas naturais, entre as quais sempre destacou a flora e a fauna. Com frequência, enviava aos amigos e familiares na Europa diversos exemplares de animais e plantas nativos, que pareciam despertar curiosidade e admiração. Mas seu verdadeiro interesse era na mineralogia, que jamais deixou de estudar e sobre a qual organizou uma coleção variada e sempre atualizada, à qual dedicava boa parte do tempo livre. A beleza e a riqueza natural do Brasil só eram empanadas pelo calor insuportável e pelos mosquitos, considerados um “verdadeiro tormento”: “(…) aqui temos de aproveitar as primeiras horas da manhã porque o grande calor que já começa às 9 horas nos obriga a ficar dentro de casa, aliás, onde ele se torna também insuportável” (22 out 1818).

Toda a grandiosidade dessa riqueza natural do Brasil, entretanto, não a deixava esquecer a pobreza cultural da qual se ressentia bastante. Em praticamente todas as cartas solicitava o envio de livros e outros materiais (como jogos infantis para seus filhos, por exemplo), normalmente escassos por aqui. Algumas vezes, fez isso num tom bem amargurado, quase revoltado: “(…) pois aqui nesta verdadeira selva, que ainda está no tempo antes da destruição da Babilônia (e pode ser chamada, com justiça, de uma nova Babilônia e de Torre de Babel!!) estamos privados dos mais simples recursos” (30 set 1824). Para uma legítima representante da dinastia Habsburgo, o acanhamento da vida cultural e artística de um país novo como o Brasil podia parecer verdadeiramente assombroso. Teatros, óperas, livrarias e bibliotecas, museus e demais centros de cultura e de diversão existentes numa grande capital europeia como Viena, jamais seriam vistos nessa época, em território americano.

Mas o que mais salta aos olhos nessa amostragem de cartas de Dona Leopoldina é a mais completa ausência de qualquer menção à escravidão. Ela se refere ao próprio isolamento no palácio, à raridade com que saía para qualquer eventualidade, à falta de uma vida social com distrações e atividades à moda europeia. Talvez isso possa servir de explicação para o seu desconhecimento da realidade da escravidão, mesmo se tratando do Rio de Janeiro, um dos maiores redutos de escravos do país, onde eles andavam por toda parte. Fica a dúvida, no entanto. Seria tal isolamento suficiente para que um habitante da corte imperial desconhecesse a presença maciça de negros escravizados na região? Ou não tivesse qualquer contato com a existência do tráfico negreiro, uma das atividades mercantis (“o vil comércio”) mais lucrativas da época? E quanto aos serviçais do palácio? As cartas, lamentavelmente, não permitem entrever nenhuma suposição ou resposta a essas questões.

Dona Leopoldina teve sete filhos com Pedro I, sendo o caçula, futuro Dom Pedro II, único varão que resultou vivo dessa união (os outros dois, Miguel e João Carlos, morreram ainda bebês). Em consequência dos efeitos colaterais de um aborto espontâneo que sofreu em 1826, Leopoldina morreu pouco antes de completar 30 anos e deixou órfãos os seus cinco filhos pequenos. Dizem que sofreu muito com as peripécias de Dom Pedro I e seu caso amoroso (e rumoroso) com a famosa Marquesa de Santos. Seja como for, não consigo deixar de achar muito triste esse desfecho…

Referência:

  1. Leopoldina: Cartas de uma Imperatriz. Seleção e transcrição das cartas: Bettina Kann e Patrícia Sousa Lima. Artigos: Andréa Slemian, André Roberto de A. Machado, Bettina Kann, István Jancsó e Maria Rita Kehl. Tradução: Guilherme João de Freitas Teixeira e Tereza Maria Souza de Castro. Coordenação editorial: Angel Bojadsen. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.