A volta do homem cordial

Nos últimos dias, muito se tem comentado o fato de que a maior empresa de comunicação do Brasil fez a entrega de um prêmio às “personalidades que mais se destacaram em 2014”. O ar meio apatetado, meio deslumbrado dos agraciados nas fotografias comprova que poucos, muito poucos, são imunes à bajulação. Gente de todas as áreas de atividade, de todas as idades, se exibiu no evento com aquele misto de orgulho mal disfarçado e de bazófia incontida, característico dos que aceitam e acreditam na sinceridade das condecorações, mesmo que elas sejam distribuídas por um grupo empresarial para lá de comprometido com os próprios interesses comerciais.

De todos os premiados, um tem chamado especial atenção: o juiz encarregado das investigações da Operação Lava-Jato, que pretende desnudar aquele que vem sendo aclamado pela mídia em geral como “o maior escândalo de corrupção da história do país” e que envolve a Petrobras, uma das maiores petroleiras do mundo. Ora, dizem alguns, não sem razão, um juiz não deve receber ou aceitar esse tipo de láurea, sob pena de comprometer a sua isenção nos julgamentos. E se perguntam: como este juiz irá agir se lhe cair nas mãos qualquer processo que envolva, direta ou indiretamente, aqueles que o condecoraram com tamanha pompa?

Para a empresa de comunicação que entregou os prêmios, o juiz em questão foi, sem dúvida, o principal destaque daquela noite de gala, pois, no dia seguinte, o jornal do grupo estampou em página inteira uma matéria laudatória a respeito, com uma bela foto do agraciado. Anos antes, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, que estava no comando do julgamento de um dos casos mais rumorosos da história da República, a AP 470 (vulgo “mensalão”), também mereceu dessa mesma empresa de comunicação um laurel de idêntico significado. Diante disso, há quem acredite piamente que se trata de gestos desinteressados e benevolentes.

Outros preferem se lembrar do “homem cordial”, como síntese das virtudes civilizatórias brasileiras. Como bem assinalou Sérgio Buarque de Holanda, o termo foi cunhado pelo escritor Ribeiro Couto, para simbolizar a principal contribuição do Brasil à civilização! Todavia, existem poucas ideias tão polêmicas quanto esta da cordialidade brasileira. Muitos a confundem com gentileza, simpatia, boa vontade, quando, de fato, ela quer dizer muito mais do que isso. Longe de mim me arrogar o direito de dar a interpretação definitiva a esse conceito. Faço apenas algumas observações, no intuito de participar do debate. E entendo o homem cordial como avesso aos conflitos, aos embates francos e duros, aos enfrentamentos diretos entre opostos que disputam posições; e o vejo como alguém que busca transcender o tempo inteiro essa arena pública em que os sujeitos se defrontam apenas com suas qualidades e competências, sem qualquer laço protetor do tipo familiar e sem qualquer aliança de cunho pessoal.

O “horror às distâncias”, como bem demonstrou Sérgio Buarque de Holanda, é o traço mais específico do espírito brasileiro. Todos querem desfrutar da intimidade dos outros, fazê-los amigos, compadres, cúmplices. Não há estranhos, nem a possibilidade de estranhamentos. No plano linguístico, isso fica ressaltado pela propensão marcante que se observa entre nós a empregar os diminutivos. Os tratamentos ficam assim carregados de afetividade, de proximidade, de brandura. Com esse tipo de abordagem, desarmam-se as resistências e instaura-se a cordialidade; a probabilidade da conciliação é muito maior do que a do conflito.

O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade. (p.140)

É claro que essas manifestações do “espírito brasileiro” tendem a se abrandar com os processos mais acelerados de urbanização capitalista, que subvertem a lógica fundada na predominância das formas mais arcaicas de organização social, como se tem visto nos últimos cinquenta ou sessenta anos. O rompimento relativo com as estruturas tradicionais da família patriarcal e das oligarquias regionais tem servido para atenuar a influência autoritária e definidora desses vínculos familiares estreitos e opressivos, impondo uma presença maior do público sobre o privado, isto é, definindo a arena pública e institucional como o espaço adequado à solução dos problemas. Em termos, os laços baseados na cordialidade vão sendo suplantados pelas relações mais impessoais de uma composição social menos determinada pela “afetividade” e pela “emoção”, e mais permeada pelos valores libertários e igualitários.

Mesmo assim, o homem cordial vai e volta! Nesses episódios em que se manifestam as características mais emotivas das relações sociais brasileiras, fica evidente que a adaptação dos indivíduos aos mecanismos impessoais de regulação social ainda está em curso. Muitas vezes, essa adaptação se frustra e não se realiza; outras vezes, ela se passa de forma bastante lenta e traumática. A condecoração de um juiz que está à frente de um rumoroso caso de corrupção, pela maior empresa de comunicação do país, se enquadra nessa dimensão de indistinção entre o ético e o conveniente. Não cabe a nenhuma empresa atribuir juízo de valor à atuação de um juiz. Nem deveria caber ao mesmo juiz a aceitação de comendas e láureas, durante o pleno exercício de suas altas atribuições. A compreensão de que existe uma distinção muito clara entre os domínios do público e do privado é fundamental para que os detentores de posições e funções públicas de autoridade cumpram os seus papéis de modo responsável.

Referência:

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. 4ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1963.