Repressão e racismo

Foi difícil escolher um título para este comentário. O racismo é de tal forma opressivo que a repressão é uma consequência natural de sua mera existência. Toda vítima de racismo é oprimida. Em decorrência disso, as manifestações racistas são também altamente repressoras, pois visam impedir, pela ameaça ou pelo constrangimento, a livre expressão dos oprimidos. No caso específico deste comentário, contudo, a repressão se refere ao conjunto de ações desencadeadas pelo regime militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985, com o objetivo de calar todos aqueles que se insurgissem contra ele. Essa repressão, cujo impacto foi mesmo incisivo sobre o conjunto da sociedade, também teve o seu componente de racismo.

Para ilustrar essa afirmação, vamos lançar mão de dois exemplos colhidos na leitura da biografia de Elis Regina, publicada recentemente. É do conhecimento geral que os compositores brasileiros foram alvos preferenciais da censura imposta à criação artística pela ditadura militar. Todas as letras das canções tinham de passar pelo crivo dos censores antes de serem divulgadas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com João Bosco e Aldir Blanc, no caso de um de seus maiores sucessos: originalmente intitulado “Almirante Negro” acabou sendo batizado como “Mestre-Sala dos Mares” por exigência dos militares encarregados dos serviços de censura do regime. O relato dessa experiência merece ser transcrito:

“Aldir Blanc foi chamado para olhar o diabo nos olhos no Palácio do Catete, no Rio. (…) um oficial se aproximou a ponto de deixar o coldre da arma encostar em seu nariz para dizer que ele e João Bosco estavam errados em fazer uma música exaltando a raça negra.” (p. 218)

Tratava-se de João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, reconhecido herói da Revolta da Chibata (1910), que tentou por um fim às práticas escravocratas violentas e degradantes impostas pelos oficiais da Marinha brasileira aos seus marinheiros, inclusive as temidas chibatadas. Surpreendentemente, mais do que um mero desconhecimento da história do Brasil (o que, em si, já seria muito desabonador), os censores revelaram o seu profundo racismo:

“(…) Depois de Aldir dar uma rápida aula de História e explicar quem era o Almirante Negro, o interrogador aceitou a gravação mas avisou com ameaça: ‘De negro não se fala nem bem nem mal. Simplesmente, não se fala.’ Assim como Cândido Felisberto, o oficial também era negro.” (p. 219)

O silêncio imposto pela censura aos negros nas manifestações culturais brasileiras é bastante emblemático. Embora não houvesse em curso nenhum tipo de movimento ou resistência de conotação explicitamente racial, ele estava sempre implícito. O que isso quer dizer é que, por sua própria trajetória histórica, os negros eram de fato, aos olhos do regime, potencialmente revolucionários. Submetidos a séculos de opressão e maus tratos, explorados e renegados, constituíam per se uma ameaça permanente. Por isso, a necessidade de manter sob controle qualquer fagulha que desencadeasse a sua revolta e/ou despertasse o seu orgulho. A exaltação de seus heróis era uma delas. Em especial, pelo caráter pedagógico de um exemplo de luta que frutificou.

Um outro exemplo marcante que revelou o racismo presente no regime militar se deu com o cantor Toni Tornado, que ficou famoso ao interpretar a canção “BR-3” num Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Sua figura em si já era uma exaltação: alto, forte, vibrante, e com os cabelos em estilo “Black Power”, um sinal claro de afirmação da própria negritude. Com toda a sua exuberância e com o talento reconhecido como intérprete, começou a ser imitado pelos jovens e ganhou expressão popular. Quanto mais crescia o seu prestígio, mais atenção despertava nos círculos de censura e repressão do regime. Toni Tornado começou a causar preocupação:

“(…) Ainda que não tivesse a poesia perigosa e bem informada de um Chico Buarque, sua afirmação racial, confirmada orgulhosamente todas as vezes em que subia a um palco, incomodava e o classificava, na caneta da censura, como uma ameaça ao bem-estar da família brasileira.” (p. 222)

Ao erguer o braço para o alto, com o punho fechado, toda vez que subia ao palco, Tornado despertou as preocupações do regime. Esse era o gesto característico dos Panteras Negras, um partido político fundado nos Estados Unidos, na década de 1960, que propunha o enfrentamento radical do racismo institucionalizado e da brutalidade da polícia contra os negros, em claro antagonismo às ações pacíficas (e pacifistas) realizadas pelos grupos liderados por Martin Luther King e Malcom X. Embora Tornado não estivesse ligado a nenhuma facção revolucionária, foi duramente ameaçado para abandonar o gestual que remetia aos rebeldes. A mera simbologia de seu punho cerrado para o alto era suficiente para desencadear a repressão.

Era isso mesmo que a censura fazia: destruir os símbolos que representavam a ânsia de liberdade e a luta por direitos. Entre tantos, os negros, de um modo geral, tinham muito a reclamar e, ao menos potencialmente, representavam um perigo efetivo ao expressar suas reivindicações por mais direitos. Silenciá-los era, assim, uma medida extrema que pretendia assegurar a continuidade do regime.

Referência:

Julio Maria. Elis Regina. Nada será como antes. São Paulo: Editora Master Books, 2015.