Uma homenagem aos Cury

Peço desculpas aos que me leem por falar num tom assim tão pessoal. Aprendi ainda pequena que falar de si mesma ou promover o autoelogio é uma tremenda falta de educação. Por isso, me desculpo antecipadamente. É que o tema de hoje remete aos antepassados, e não tinha como não ser pessoal.

Andei viajando pelo sul do Brasil. Visitei lugares realmente extraordinários. Cidades industrializadas pujantes, interiores produtivos com suas fazendas e vinícolas bonitas e bem cuidadas. Um progresso material impressionante. Pessoas gentis e hospitaleiras, prontas a nos encantar com suas narrativas épicas e comoventes sobre um passado de lutas e dificuldades para chegar até ali, a todo aquele desenvolvimento espetacular do qual se orgulham imensamente. E com razão.

Uma região de colonização alemã e italiana, que guarda forte presença dessa imigração que, ao longo do século XIX e no começo do século XX, permitiu a ocupação de vastas áreas do território até então bravio. Uma gente pobre, desgarrada de suas origens, que venceu todo tipo de tormento para erguer naquelas terras o seu eldorado particular, o seu futuro cheio de esperanças e de abundância. E que conservou um apego profundo ao próprio passado, evocado a todo instante pelos seus descendentes. Todos, todos mesmo, sem exceção, demonstram um orgulho impressionante de suas origens europeias. Pode ser um taxista, um pequeno agricultor, um empresário bem-sucedido: antes de qualquer outra coisa, ele fala de seus avós ou bisavós italianos ou alemães, de sua ligação com a Europa e com a cultura europeia (e dá ênfase à cor da pele, dos cabelos e dos olhos).

Seu lugar, como tantas vezes me foi dito, “é um pedacinho da Europa dentro do Brasil”. A bem da verdade, foram muito raras as vezes em que ouvi as palavras Brasil e brasileiro. Em compensação, Europa, europeus, italianos e alemães eu ouvi centenas de vezes. Um pequeno agricultor cuja fazenda visitei chegou a me contar que foi à escola dos filhos bater boca com as professoras, porque elas não ensinavam italiano às crianças — a língua de seus avós — e queriam que elas aprendessem inglês e espanhol! Ele estava sinceramente indignado. E achava que devia consideração à nonna e ao nonno, que aquele descaso era mesmo imperdoável.

As coisas que comem e bebem, a maneira com que cozinham seus alimentos, o estilo das casas e das fazendas, os hábitos sociais, tudo, mas tudo mesmo faz referência aos antepassados europeus. Isso é cultivado com esmero, e passado de uma geração à outra com afinco. Não há descuidos, e as festas que celebram a colonização europeia dessa região são longas e famosas. Duram dias e são reverenciadas pelos habitantes de modo quase religioso. Todos se vangloriam das músicas, das danças, dos comes e bebes. As roupas típicas, que evocam o folclore dos países europeus, são amplamente exibidas por homens e mulheres de todas as idades.

Tudo isso me fez lembrar os meus antepassados, porque também sou descendente de imigrantes. Meus avós maternos e paternos vieram do Líbano (e da Síria) para o Brasil, no comecinho do século XX. Muito pobres, fugiram da miséria em direção à esperança de uma vida melhor. Encontraram aqui a oportunidade de construir suas famílias, suas carreiras profissionais, seus futuros. E assim fizeram. Um era carpinteiro, outro era mascate, uma era costureira, outra era dona de casa (mas ajudava no pequeno comércio do marido). Houve um bafafá certa vez, quando ficamos sabendo que minha avó costurava para as putas da cidadezinha onde se instalou, assim que chegou ao Brasil, no interior de Minas Gerais! Alguns parentes ficaram indignados, alegando que era mentira. Outros acharam o fato pitoresco, algo digno de entrar para o folclore da família. Eu senti orgulho de ter uma avó assim tão pouco preconceituosa. Infelizmente, não a conheci, mas acho que a teria adorado.

Eles se abrasileiraram completamente. Falavam um português todo atravessado, mas só falavam português conosco. Do árabe, só aprendi a falar os palavrões mais cabeludos, algo que encantava sobremaneira a criançada, que achava muita graça naquelas transgressões. Lembro com imenso carinho do vovô Espir, que chamava o cachorro Piloto de “bilôta” e de “sbinafra” o espinafre que a gente se recusava a comer! Nós o achávamos muito, muito engraçado. E adorávamos imitar o seu jeito arrevesado de falar a nossa língua, trocando os pês pelos bês e fazendo a maior confusão de gênero! Ele às vezes era ela, e ela muitas vezes virava ele. Divertido! As evocações do Líbano eram feitas na forma de histórias cômicas ou tristes sobre a cidade onde nasceram e sobre as pessoas que conheceram e deixaram para trás.

Não havia nenhum tipo de apego ao passado. Eles não tinham ressentimento pela condição de imigrantes, aderiram completamente ao Brasil e aos brasileiros. Guardaram apenas os hábitos alimentares, fazendo da comida árabe uma tradição na família. Todas as festas importantes (aniversários, Natal, batizados) eram comemoradas com aqueles banquetes deliciosos que regalavam aos grandes e pequenos. Mas havia também o arroz com feijão de todo dia, o encantamento diante da fartura de frutas, legumes e verduras tão tipicamente brasileira, a adoção irrestrita do cardápio local. Comíamos de tudo, mas principalmente a comida do Brasil. Nem mesmo a religião eles nos impuseram, e olha que somos descendentes de padres ortodoxos. Cada um escolheu o seu rumo, e fim de papo. E eu lhes sou grata por isso.

Alguém poderia dizer que não é possível comparar o Líbano à Europa, que a influência da cultura europeia no mundo é infinitamente superior à da libanesa. Sou obrigada a concordar com isso. Mas não quero entrar nesse mérito. Uma discussão desse tipo ultrapassa em muito os objetivos deste breve comentário. Acredito que qualquer um pode se manter apegado ao passado, seja ele qual for. E não é a importância cultural maior ou menor de um ou de outro que vai explicar, unilateralmente, porque um determinado grupo se sente mais ou menos integrado ao Brasil. Existe aí uma combinação de elementos suficientemente complexa e contraditória que me impede de ir muito além nesse debate.

Seja como for, quero prestar aqui uma singela homenagem aos Cury, meus antepassados de pai e mãe, pela generosidade que tiveram ao se abrasileirar por completo quando cá chegaram. Meu pai, que recebeu o nome de Américo por ter sido o primeiro filho a nascer aqui, foi um dos mais ardorosos defensores do nosso país. Conheci poucas pessoas que amaram tanto o Brasil quanto ele. Américo e Julieta, meus pais, filhos de imigrantes libaneses, me ensinaram a ser brasileira. Agradeço ainda aos meus avós Espir e Nazaré, Fued e Maria, por adotarem o Brasil como pátria, por inteiro, de corpo e alma. E também aos meus queridos tios: Elias, Fádua, Habib, Abdalla, Lula, Salma, Angelina, Mário, Nicolau, Maura, Laila, Tufy, Afif, Azize, Latife, pelas boas lembranças que me deixaram.