“Apesar de ser mulher”

Na última semana, passamos pelo dissabor de testemunhar mais uma agressão machista com grande repercussão na opinião pública nacional: a deputada Jandira Feghali teve o seu braço puxado e torcido por um colega, em plena sessão da Câmara dos Deputados, em Brasília. Além do fato grave de ter sido tocada com força por outro deputado, em plenário, ainda teve de ouvir de outros representantes ali presentes que “mulher que fala como homem tem que apanhar como homem”. É inacreditável…

Houve um grande rififi em torno do episódio, sobretudo, nas redes sociais. Apesar da indignação que muitos demonstraram diante do ocorrido, algo em si mesmo lamentável e deprimente, não faltaram manifestações de apoio aos valentões que bradaram os seus cânticos machistas. Esse anacronismo que insiste em não se deixar sepultar, aqui no Brasil, me fez lembrar de um livro muito interessante, escrito há bastante tempo, por uma das primeiras mulheres a exercer o cargo de Ministra de Estado, ainda nos anos 1980. Trata-se de Dorothea Werneck e de seu …Apesar de ser mulher, um dos raros testemunhos registrados por uma profissional que, ao ocupar um alto posto na administração pública, vivenciou experiências e situações significativamente ilustrativas dessa cultura machista opressiva que resiste com tenacidade, entre nós, aos avanços e às conquistas das mulheres.

O próprio título do livro é referência a uma das várias pérolas que Dorothea desfia em seu texto, ao recordar alguns dos momentos mais marcantes de sua passagem pelo cargo de Ministra do Trabalho. Vamos deixá-la explicar:

As negociações em torno do Pacto Social me levaram a manter diversos contatos com lideranças empresariais. Um desses empresários foi Mário Amato, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Logo após a minha posse no Ministério do Trabalho ele resolveu me elogiar. Disse que eu era “muito inteligente apesar de ser mulher”. (p.11)

Embora a gafe tenha sido mesmo estrondosa, Dorothea não se deixou intimidar. Levou o caso com bom humor e prosseguiu na batalha. Muitas outras circunstâncias difíceis a aguardavam pela frente, e ela nutria fortes expectativas diante do futuro. Vinte e cinco anos depois da publicação desse relato sensível e esclarecedor, no entanto, as esperanças de que a presença das mulheres em postos de comando e de autoridade parasse de provocar estranhamento e hostilidade nos homens, infelizmente, ainda pairam como promessas descumpridas em um meio social fortemente dominado pela arrogância machista:

Como primeira mulher à frente do Ministério do Trabalho na história do País, acredito que meu testemunho possa contribuir um pouco para que um dia o relacionamento profissional entre homem e mulher seja tão natural que não haja mais comentários infelizes como o de Mário Amato e nem necessidade de depoimentos como este. (p.12)

Dorothea não apenas nutria suas esperanças em relação ao machismo arraigado, como apostava fortemente na negociação como principal forma de aprimoramento das relações trabalhistas no Brasil. É provável que ambas as coisas andassem juntas naquele quadro de mudanças que se seguiu ao fim do regime militar. Distensão era a palavra. Mas nem sempre foi fácil. Não só o machismo não abrandou como se esperava, como ainda prevaleceram algumas condutas empresariais altamente reprováveis.

Em decorrência de uma ampliação de direitos promovida pela Constituição de 1988, e da maior capacidade de organização e de luta que se seguiu ao fim da ditadura, diversas categorias profissionais mostravam-se bastante aguerridas e irredutíveis em suas reivindicações, exigindo mediação permanente do Ministério do Trabalho. Dois desses momentos são tremendamente ilustrativos:

*Os mineiros [de carvão, de Santa Catarina] guardavam uma imensa raiva dos patrões. Entre outras razões, um deles narrou que no passado tinham negociado o fornecimento de água potável. Eu já ficara muitas vezes escandalizada com pedidos fora do normal, mas nunca vira operário exigir água, simplesmente porque não era um pedido fora do comum, mas uma obrigação básica de qualquer empresa. Os mineradores colocaram filtros para os mineiros, mas a água era servida em latas enferrujadas. Ao reclamarem, ouviram uma resposta cínica:

— Ora, vocês pediram água mas não informaram se era encanada. (p.55)

*Certa ocasião, negociei também com lideranças de diversas categorias do serviço público de diferentes regiões do País. De repente, um sujeito baixinho pede a palavra e se identifica como representante dos empregados da Sucam. Relatou que há alguns meses tinham recebido uniformes novos lá no Nordeste, mas todos de tamanho grande, “confeccionados talvez para o pessoal grande do sul do País”. Até a bota, segundo ele, era descomunal: o servidor revelou que um colega seu, que calçava 38, recebeu um par de número 44. Quando foi reclamar, o encarregado lhe disse, irônico:

— Coloque um tijolo na ponta. (p.56-57)

Falta de respeito, truculência, desconsideração aos direitos mais elementares de qualquer cidadão: características que marcaram a postura de diversos segmentos empresariais diante dos seus trabalhadores. Talvez como resquícios do regime militar recentemente encerrado, talvez como padrão normativo da conduta empresarial. E é o olhar comprometido de uma mulher que assumiu a responsabilidade de negociar acordos e direitos trabalhistas, num momento especialmente tenso e dramático da história brasileira, que permite desvendar alguns dos aspectos mais sombrios desse passado recente. É fundamental não esquecê-los.

Para as mulheres, a jornada é dobrada. À luta por direitos essenciais junta-se ainda a busca pela emancipação total de qualquer forma de tutela e de dependência. Dorothea incorporou essa duplicidade em sua passagem pelo Ministério do Trabalho. Num de seus muitos embates, voltou a confrontar os empresários em questões relacionadas ao registro dos sindicatos. Pela firmeza que demonstrou na defesa de seu ponto de vista, mereceu do mesmo Mário Amato uma nova provocação. Desta feita, a investida foi ainda mais desabonadora:

(…) Semanas depois encontro Mário Amato, e ele tentou um novo “elogio”:

— Você, Dorothea, é indomável. Se eu fosse vinte anos mais moço, tentaria domá-la! (p.66)

Referência:

Dorothea Werneck. …Apesar de ser mulher. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.