Papéis, papelarias

No último sábado (16 de maio), passei por uma papelaria que há muito não visitava. Aqui no Rio de Janeiro, ela foi pioneira na comercialização de produtos sofisticados e exclusivos, com padronagens, desenhos e estampas originais, de fabricação própria. São papéis de carta, cartões, envelopes, pastas, cadernos, cadernetas, caixas e caixinhas, papéis de presente, fitas coloridas; além de lápis, canetas e outros adereços afins. A toda essa sofisticação correspondem preços condizentes, isto é, bem salgados. É claro.

Enquanto eu bisbilhotava as prateleiras, por mera curiosidade, um senhor estava no balcão finalizando sua compra. A gerente se queixava para ele: a “crise” estava atrapalhando os negócios; a loja andava vazia, os clientes andavam escassos. Ele concordava educadamente, entregando o cartão de crédito para a cobrança. Saí dali pensando nisso: uma papelaria chique mergulhada na “crise”, enquanto outras atividades, no mesmo shopping center, se expandiam a olhos vistos.

Na segunda-feira seguinte (18 de maio), precisei comprar umas coisinhas na papelaria que fica aqui na minha rua. É uma loja tradicional no bairro, que já existe há décadas. Faz algum tempo, passou por uma pequena reforma: mudou de nome, modernizou seu sistema com computadores, botou vitrine nova e ampliou a oferta de mercadorias, incluindo diversos artigos para presentes (quase todos Made in China). O auge do seu negócio é no começo do ano, quando os pais se preparam para comprar o material escolar dos filhos. Essa papelaria atende a algumas escolas particulares do bairro e fornece a lista dos livros e demais itens escolhidos pelas escolas. Naquelas semanas, é impossível entrar ali para comprar uma mísera caneta ou tirar uma cópia Xerox. Tudo fica voltado para o material escolar da garotada.

Nessa última segunda-feira, no entanto, a loja estava às moscas. Entrei, comprei minhas coisinhas e saí, deixando o espaço vazio e os funcionários entediados. E me lembrei da outra papelaria chique, o que me obrigou a fazer uma pequena reflexão. Parece que esse negócio de papelaria está fadado a desaparecer, com o tempo. Talvez, esteja se tornando muito difícil manter uma loja exclusivamente voltada para esse tipo de produto, porque os ganhos tenderão a ficar cada vez mais aquém das necessidades e despesas de um empreendimento com tal perfil. É provável que a papelaria venha a ser tão somente uma seção das grandes lojas de departamentos, dos supermercados ou das mega livrarias, como já acontece em muitos lugares do mundo. Manter um pequeno negócio baseado exclusivamente em artigos de papelaria, e mais ainda se forem artigos de luxo, parece que está ficando inviável. E não tem a ver apenas com o que chamam por aí de “crise”.

O fato é que não se usa mais papel, como se usava há algum tempo. Raramente, se imprimem textos ou se arquivam papéis em pastas. Quem escreve cartas, ou envia cartões (de boas festas, aniversários, casamentos, batizados)? Praticamente tudo é virtual. E, com o uso cada vez mais frequente de telefones celulares conectados à Internet, vai se tornar cada vez mais anacrônico o emprego de qualquer outra forma de comunicação e de registro. Quem vai presentear os outros com caixinhas, cadernos, cadernetas? Nem mesmo as cobiçadas agendas de antigamente agradam mais aos jovens. Tudo fica guardado no celular!

Com exceção dos escritórios profissionais e/ou comerciais, o uso de papel e seus congêneres e afins vai ficando cada vez mais restrito. Aqueles que se preocupam com a preservação do meio ambiente comemoram: há menos lixo sendo produzido no mundo, há menos coisas a serem descartadas. A natureza agradece! Mas os pequenos empresários que se dedicam ao negócio das papelarias estão preocupados. E culpam os governos!

O fato é que o funcionamento desse nosso modelo de sociedade baseado no empreendimento capitalista é bastante imperfeito e, muitas vezes, ineficiente. Ao contrário do que diz a ideologia dominante, que permeia toda a mídia e boa parte do mundo acadêmico. A concorrência permanente e a busca incessante de lucro se, por um lado, favorecem a expansão contínua das atividades produtivas e distributivas, criando sempre novos segmentos e setores, por outro, tendem a sacrificar inúmeros investimentos para os quais não fornecem, per se, nenhuma alternativa. Desconhecendo, na maior parte das vezes, os mecanismos econômicos que regem o sistema capitalista, muitos empresários são apanhados de surpresa e veem seu negócio simplesmente desaparecer. Dependendo da atividade e do momento histórico específico, serão mais ou menos vulneráveis às mudanças promovidas pela lógica do capitalismo.

Há algumas décadas, a maioria dos jovens precisava fazer um curso de datilografia, antes de ingressar no mercado de trabalho. Era uma qualificação relevante na época. Qualquer concurso público, qualquer estágio remunerado no setor de serviços exigia comprovação de habilidade datilográfica. Aqui no Rio de Janeiro, havia uma rede de cursos de datilografia que se chamava TED. Eram grandes salas com dezenas de máquinas de escrever comandadas por professoras zelosas, que cumpriam à risca a determinação de ensinar a forma correta (e rápida) de datilografar um texto. Baseado na repetição infindável daqueles toques intermináveis de letras e caracteres, o método era tão enfadonho que o curso acabou sendo batizado, ironicamente, de Curso Tédio! Com tudo isso, funcionou durante décadas, formando um sem número de pessoas nas habilidades da boa datilografia. Mas, um belo dia, simplesmente desapareceu. Mais um segmento de atividade sepultado pelo advento dos computadores. Hoje em dia, quem sabe “datilografar”? Quantas pessoas se lembrarão dos Cursos TED? Quem ainda usa máquina de escrever?