Enredos macabros

Enredo 1:

Um ex-deputado envolvido até o pescoço em inúmeras denúncias de corrupção, que passam pelo famigerado “mensalão” e alcançam a roubalheira na Petrobras, investigada na atualidade, morreu em 2010. Todavia, sua viúva acabou de manifestar aos membros da CPI da Petrobras, no Congresso Nacional, a suspeita de que o marido pode estar vivo. Morto, ele escapou de todos os julgamentos e condenações. Vivo, ele estaria usufruindo de uma vida sossegada, em algum lugar deste vasto mundo, sem levantar nenhuma suspeita.

Tudo muito estranho. Será que a viúva sabia, desde o início, de toda essa tramoia? Ou não? Será que a viúva participou do esquema que resultou na “morte” do marido e que serviu para mitigar todas as suas culpas? Ou não? Será que a viúva se sentiu traída de alguma forma, ou soube de algum fato novo que a desagradou e resolveu entregá-lo agora? Ou não? Por que essa denúncia, justo neste momento? Fala-se inclusive na exumação do corpo do ex-deputado, a fim de confirmar a identidade do morto… Tudo muito estranho.

Enredo 2:

Está em discussão, no Congresso Nacional, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Isso quer dizer que, se for aprovada a nova lei, jovens desde os 16 anos que cometerem crimes e delitos serão julgados e condenados com base no Código Penal, como qualquer outro criminoso. Hoje, eles se beneficiam do Estatuto da Criança e do Adolescente. A maior parte das entidades ligadas aos Direitos Humanos no Brasil já se manifestou contrariamente a essa mudança. Muitos países que adotaram a medida já voltaram atrás, porque o encarceramento puro e simples de adolescentes não resolveu o problema da violência na atualidade.

Nas últimas semanas, os argumentos contrários à redução da maioridade penal ganharam força, e muitas pessoas “importantes” (com reconhecido prestígio no meio social) começaram a manifestar posição contrária a essa redução. A causa parecia conquistar muitos votos e muitas simpatias.

Eis que, no Rio de Janeiro, começaram a acontecer, com relativa frequência, assaltos praticados por menores de idade envolvendo o esfaqueamento das pessoas. Até que, no começo desta semana, mataram um homem de 55 anos, com várias facadas, para roubar a sua bicicleta. Em plena Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões-postais mais famosos da cidade.

Será que existe algum elo entre as coisas? Devemos nos perguntar. Será que a discussão da redução da maioridade penal serviu para provocar ou suscitar essa nova modalidade de crime? Com que propósito? Por que razão? O fato de o palco das atrocidades ser o Rio de Janeiro, mais uma vez, uma cidade já tão marcada por episódios de crimes violentos e chocantes, tem algum significado? A proximidade das Olimpíadas, no ano que vem, recoloca a questão da violência urbana de forma traumática para as autoridades locais. Acima de tudo, os votos contrários à redução da maioridade penal receberam um duro golpe.