Santa ignorância

Segunda-feira, dia 08 de junho de 2015, noticiário das 21 horas na TV Brasil (emissora pública de televisão). A matéria versa sobre a greve dos motoristas de ônibus do Distrito Federal. Informa-se que a categoria reivindica 20% de aumento salarial; e as empresas oferecem 8%. Os empregados querem ainda um vale-refeição de valor maior; e os patrões se recusam a aumentar qualquer centavo nesse benefício. Ouve-se um representante do sindicato, que expõe os seus argumentos. Os apresentadores do telejornal, que demonstram ser muito comprometidos com o que fazem, ainda explicam que os representantes das empresas também justificaram as suas razões à reportagem. Cumpriram direitinho o “manual do bom jornalismo”, que aconselha ouvir sempre os dois lados. OK.

Daí, o repórter passa a interagir com o distinto público usuário do transporte coletivo do Distrito Federal. Mostra as longas filas de espera nos pontos de ônibus lotados. O metrô aumenta o ritmo para “tentar colaborar”, mas não é suficiente, pois o montante de usuários cotidianos dos ônibus da Capital chega a um milhão de pessoas. Enfim, greve de transporte público é mesmo o maior perrengue, sobretudo, para quem depende dele para ir e vir com hora marcada, tipo horário de trabalho, de escola, de consulta médica. Em geral, as pessoas aparecem no vídeo preocupadas e desconsoladas. É duro mesmo.

Até que chegam as entrevistas. O primeiro rapaz diz que está fazendo tudo o que pode para chegar ao trabalho, porque “com essa crise tremenda” e com “esse desemprego que está aí”, sabe que não pode vacilar, precisa defender o que é seu. O repórter nem se deu ao trabalho de argumentar que as estatísticas mais recentes apontam que o Brasil tem experimentado, nos últimos anos, as taxas de desemprego mais baixas de sua história. Talvez, ele não saiba disso. Mas, aí, tem o editor do telejornal e o diretor, que também não tiveram o cuidado ou a preocupação de informar melhor o seu telespectador, e simplesmente deixaram a entrevista rolar, sem fazer nenhuma ponderação acerca da fala do rapaz entrevistado, que terminou com um óbvio: “estou muito decepcionado com esse governo”. E o pobre telespectador ficou sem saber se ele estava se referindo ao governo do Distrito Federal, diretamente responsável pela mobilidade urbana da Capital, ou ao governo federal, a Geni da política brasileira atual.

Em seguida, o repórter abordou um outro rapaz para saber como ele estava enfrentando aquela situação difícil. Ele se virou para o microfone e disse estar indignado, “porque nós pagamos os nossos impostos, pagamos caro” e temos de passar por isso. Minha nossa, e não teve ninguém do telejornal que tenha se dado ao trabalho de estabelecer a relação existente entre o pagamento de impostos e a greve dos motoristas de ônibus do Distrito Federal! Tudo bem que faz pouco tempo que tivemos de acertar as contas com a Receita Federal (pagar nossos impostos), e isso abala os nervos de qualquer contribuinte. Mas o telejornal ficou devendo uma explicação mínima sobre o que tem a ver o pagamento de impostos com a paralisação de uma categoria profissional, ainda que isso afete a vida de milhares e milhares de pessoas. Ou seja, porque eu pago os meus impostos (e não faço mais do que a minha obrigação) não pode haver greve? Qual a relação entre uma coisa e outra?

O que não se pode (e não se deve) é simplesmente veicular essas opiniões sem lhes fazer algum contraponto, até porque se deixa a impressão de que essas são também as opiniões do próprio telejornal. E, aí, nesse caso, então, faltou “ouvir o outro lado”, para ficar apenas na superficialidade da questão e manter uma trajetória de “bom jornalismo” que a própria emissora gosta de acreditar que possui. A veiculação dessas entrevistas e desses comentários não pode pretender ser neutra, e demanda crítica e qualificação. Isso é informar corretamente. Se alguém diz alguma coisa, profere um julgamento ou faz um juízo de valor, e isso é tornado público por algum veículo de comunicação, torna-se necessário deixar claro que é uma opinião, uma visão, e não o fato em si. É fundamental que essas coisas não se confundam.

Mas o mundo é mesmo difícil de entender. Não é de todo espantoso que um sujeito se ache vivendo numa situação terrível de desemprego, que ainda não se instalou no Brasil, e outro se sinta injustiçado porque paga impostos e tem de enfrentar uma greve de motoristas de ônibus, sendo que os transportes urbanos são controlados por empresas privadas. É tudo muito confuso, e a nossa já secular deficiência conceitual só contribui para agravar ainda mais esse quadro de dificuldades que perturba tanto o intelecto dos cidadãos. Por isso mesmo, a responsabilidade dos meios de comunicação é tão grande e deve ser levada tão a sério. E mais ainda numa emissora pública de televisão. Toda oportunidade de levar conhecimento, de veicular informação e de formar opinião merece ser tratada com o respeito e a dignidade que competem a uma sociedade democrática que almeja a justiça social.