“Não faça demais”

Há muitos anos, assisti na televisão a uma entrevista do ator Paulo Gracindo, que foi marcante e surpreendente. Mas não apenas pelos depoimentos que deu acerca de sua admirável carreira artística, marcada pela interpretação magistral de personagens inesquecíveis da teledramaturgia brasileira. Gracindo já tinha na bagagem profissional uma carreira muito bem-sucedida no rádio, quando ingressou na televisão para protagonizar algumas das novelas mais tocantes e populares de toda a história: “O Casarão”, “Bandeira 2” e “O Bem-Amado”, enormes sucessos da década de 1970, entre outras. Seu talento excepcional deu vida aos personagens João Maciel, Tucão e Odorico Paraguaçu, respectivamente, de modo a torná-los verdadeiros ícones da cultura televisiva do País. Quem os viu dificilmente os esqueceu.

O que, para mim, foi definitivo naquela entrevista, porém, foi o relato de sua “aventura” na política. (Espero que minha memória não me faça cometer nenhuma gafe aqui. Talvez alguma imprecisão possa ser perdoada.) Lá pelas tantas, o ator disse que resolveu enveredar pela carreira política e tratou de constituir uma base eleitoral. Procurou uma “comunidade carente” pela qual pudesse realizar benfeitorias e começou a trabalhar. Fez muitas coisas. Entre elas, aquela que era uma das demandas mais antigas da população local: a energia elétrica. Gracindo batalhou para levar a eletricidade àquele lugarejo tão desassistido. Chegada a eleição, qual não foi a sua surpresa?! Ele não se elegeu! Ao procurar se informar sobre as razões daquele resultado tão inesperado, ele se deu conta de que havia feito muitas coisas antes de se eleger e, agora, era como se não tivesse mais nada a oferecer. Foi simplesmente descartado. Os eleitores preferiram eleger outro vereador, que tinha muitas promessas a cumprir. Passado o impacto da decepção, ele acabou desistindo da política e se dedicou mesmo à carreira de ator. Todavia, guardou aquela lição amarga como um aprendizado muito doloroso, mas significativamente útil.

Ontem, ao ouvir o discurso de Dilma Rousseff no 5º Congresso do Partido dos Trabalhadores, que está sendo realizado em Salvador, Bahia, me lembrei imediatamente dessa entrevista de Paulo Gracindo. Dilma pediu aos militantes, membros e simpatizantes do PT que se recordassem de tudo que ela já havia feito e continuava a fazer (Brasil sem Miséria, Pronatec, Mais Médicos, Ciência sem Fronteiras, Minha Casa Minha Vida, Viver sem Limites; além da preservação do Bolsa Família, do Prouni, do Fies e muito mais). Dilma reafirmou seu compromisso com o crescimento econômico associado à inclusão social, e com a preservação do meio ambiente, lembrando que o Brasil foi talvez o único país do mundo a atingir uma meta ambiciosa em relação ao clima. Dilma se comprometeu ainda a garantir plenamente todos os direitos dos trabalhadores, assegurando que os sacrifícios impostos pela necessidade de fazer ajustes serão repartidos de forma equilibrada. Em simultâneo aos ajustes, todos os investimentos possíveis serão feitos para promover o crescimento. Dilma asseverou: “Nós não mudamos de lado. Nós não alteramos os nossos compromissos com o Brasil.” E lembrou que, desde 2008, o governo sustentou uma política contra a crise que protegeu o consumo da população, os investimentos e a renda dos trabalhadores. Dilma voltou a frisar que seu governo combate a corrupção de forma incansável, lançando mão de todos os meios legais para coibi-la e puni-la e promovendo a mais ampla liberdade de ação para os órgãos encarregados de investigar e punir os corruptos e os corruptores. E cobrou o apoio de seus correligionários nessa conjuntura difícil.

Pois não é que muitos de seus apoiadores (dentro e fora do PT) estão querendo “pular do barco”, alegando justamente que a presidenta teria abandonado seus compromissos históricos? Pois não é que foi preciso Dilma lembrar que “todos querem ser parceiros na vitória” e que é nos momentos difíceis que se conhecem os verdadeiros aliados (e também os oportunistas)? Pois não é que, ao adotar algumas medidas de ajuste fiscal, Dilma se viu atacada por todos os lados, como se tudo aquilo que tem feito não significasse mais nada e tivesse perdido completamente o valor? Pois não é que tantas realizações importantes e dignificantes para o Brasil e para os brasileiros são assim descartadas sem a menor cerimônia, impondo-se à presidenta um desrespeito sem precedentes na história?

Tive uma grande amiga que sempre me alertou: “Não faça demais. As pessoas só se lembrarão do que você não fez.” Ah, minha querida Adelaide, tenho pensado tanto em você…