Intolerância

Os homens não são meus semelhantes, são aqueles que me olham e me julgam; meus semelhantes são os que me amam e não me olham, que me amam contra tudo, que me amam contra a decadência, contra a baixeza, contra a traição, a mim e não ao que já fiz ou farei, que me amariam tanto quanto eu me amaria a mim mesmo —

André Malraux, A Condição Humana

 

Já li matérias sobre estudos científicos que comprovam que nós, seres humanos, nascemos com empatia. Assisti a um vídeo, inclusive, de um psicólogo britânico (cujo nome não me recordo, infelizmente) que fazia testes de empatia com bebês recém-nascidos e demonstrava o quanto essas criaturinhas manifestavam reações e atitudes de acordo com os estímulos recebidos. Era impressionante. Ao mesmo tempo, ele procurava explicar que o processo de socialização que sofremos pode nos privar em parte ou por completo dessa mesma capacidade, dependendo das condições em que o nosso caráter e a nossa personalidade se desenvolvam. Um dos exemplos que ele utilizou foi o de um menininho de uns 3 ou 4 anos que parecia estar perdendo de modo radical a sua própria empatia, pois causava sofrimentos físicos em sua mãe (mordidas, beliscões, tapas) sem nenhuma forma de arrependimento e sem nenhum pedido de desculpas. O que o psicólogo mostrou foi que, ao não se corrigir esse tipo de conduta, ao não se apelar para a capacidade de estabelecer empatia que todos possuímos, diante de injustiças e de sofrimentos, o resultado pode ser verdadeiramente desastroso, para as próprias pessoas e para o resto da sociedade.

O mínimo que pode acontecer a alguém que perde a empatia é a indiferença e o descrédito em relação aos outros. Isso, para dizer o mínimo, porque algumas vezes as consequências disso podem ser muito mais arrasadoras, levando à brutalidade e à mútua destruição de grupos ou indivíduos que perderam a capacidade de se identificar como semelhantes e, portanto, como dignos dos mesmos direitos. É da empatia que nasce a tolerância. No entanto, como está bem expresso no trecho de André Malraux que citei acima, a semelhança, isto é, o reconhecimento de si mesmo no outro não é um dom que se encontre assim tão disseminado na espécie. Ao contrário, hoje, os seres humanos têm mais elementos a afastá-los do que a aproximá-los como semelhantes — são questões de ordem étnica, religiosa, política, econômica, geopolítica, geográfica e tantas outras mais que servem de motivo ou de pretexto muito mais para se desassemelharem do que para se assemelharem. Os embates, os confrontos, os conflitos e as guerras, assim, são muito mais prováveis do que os entendimentos e os consensos, produzindo ainda mais sofrimento e desgraça, para os quais uma redenção possível, infelizmente, só poderá nascer mesmo da empatia e da tolerância, cada vez mais difíceis de atingir.

Se é verdadeiro que a semelhança vem do amor, como diz Malraux, a intolerância só pode ser combatida de forma efetiva, por meio de medidas legais e governamentais. Não dá para ficar esperando que as pessoas se amem de fato, como pregam as religiões (que quase ninguém segue de verdade, pelo menos nesse quesito), para que afinal a intolerância seja vencida. É necessário que se instituam mecanismos legais de amparo às diferenças, aos diferentes, aos excepcionais, aos incomuns, aos especiais, aos atípicos, enfim, a todos aqueles que não se encaixam nos padrões mais convencionais definidos pelos hábitos e costumes forjados na tradição. Ou seja, a tolerância tem de ser obrigatória, tem de servir como uma baliza civilizatória, tem de ser instituída como um dever da coletividade para com os seus semelhantes e os seus dessemelhantes.

Aprendi com uma amiga de muito tempo que não dá para impedir que as pessoas tenham preconceito, que não gostem disso ou daquilo. Mas, é uma obrigação inarredável das sociedades ditas civilizadas proibir a discriminação. Essa minha amiga querida cansou de sofrer preconceito, mas sempre me dizia: “não me importo que tenham preconceito contra mim, que não gostem de mim, que não me queiram ao lado; o que não posso admitir é que me discriminem, que me vedem algum direito fundamental, que me impeçam de exercer livremente a minha cidadania”. É disso que se trata. Como cantou certa vez o grande Chico Buarque de Holanda: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Não devemos confundir o subjetivo com o objetivo. Gostem ou não, todos têm direitos iguais e merecem exercê-los.

* Do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

empatia (3) capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc. (3.1) psic. processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro (p.1125)

intolerância 1 qualidade de intolerante 2 falta de tolerância, de condescendência (com as fraquezas alheias, por exemplo) 3 intransigência com relação a opiniões, atitudes, crenças, modos de ser que reprovamos ou julgamos falsos (ser intolerante aos conservadores, por exemplo) 4 comportamento daquele que reprime por meio da coação ou da força as ideias que desaprova (intolerância religiosa, por exemplo) (p.1638)

tolerância 1 ato ou efeito de tolerar, indulgência, condescendência 2 qualidade ou condição de tolerante 3 tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas (p.2730)

Referência:

André Malraux. A Condição Humana. Tradução e prefácio: Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 64.