O Vale do Café

Há cerca de dez anos (talvez um pouco mais), iniciou-se um projeto de revitalização da antiga região cafeeira no sul do Estado do Rio de Janeiro. O “epicentro” dessa iniciativa localiza-se nas grandes fazendas de café que outrora fizeram a riqueza e a fama da região, ao transformarem o Brasil no maior exportador mundial de café do século XIX e ao converterem o porto do Rio de Janeiro no principal polo importador de escravos trazidos da África, no mesmo período. Diante da novidade, houve até quem comparasse a beleza dos casarões e a sua indiscutível importância histórica ao Vale do Loire, na França! Exageros à parte, é claro que uma proposta que visa transformar parte do Vale do Paraíba fluminense numa frente dinâmica de turismo cultural e histórico deve ser recebida com entusiasmo, mesmo porque a região não tem oferecido alternativas viáveis de desenvolvimento econômico e social.

No mês de julho, nos últimos dez anos ou mais, organiza-se um festival nessa antiga região cafeeira coalhada de belas casas de fazenda, cujo ponto alto é a apresentação de concertos musicais nos jardins dessas diversas propriedades rurais. Em alguns casos (não todos), além do concerto musical, os visitantes são brindados ainda com uma visita guiada à sede das fazendas, tendo a oportunidade de conhecer o interior dos belos casarões e de apreciar o requinte do mobiliário e dos adereços da decoração. Algumas chegam a ser deslumbrantes, com suas paredes lindamente pintadas, pisos originais de madeira maciça, portas entalhadas e esculpidas, tapeçarias, pratarias, louças e cristais dos mais talentosos artesãos do mundo. Em todas elas, dá-se grande destaque aos oratórios, ornados com belíssimos objetos da melhor e mais rica arte sacra brasileira. Essa suntuosidade dos ambientes não passa despercebida a ninguém. Toda a beleza e todo o luxo das moradias dos grandes proprietários de terras e escravos do Brasil monárquico remetem a uma fase da história em que foram moldados os principais traços da profunda desigualdade social que caracteriza o País.

O projeto de revitalização da região cafeeira que está em curso é ainda incipiente e deixa bem aparente a sua falta de investimentos adequados. Para início de conversa, a divulgação é bastante precária. Isso leva necessariamente ao questionamento acerca da absurda concentração dos meios de comunicação no Brasil: fazer publicidade de qualquer evento requer grande volume de dinheiro, porque os segundos e minutos das rádios e televisões são caríssimos. Disso resulta que o acesso dos organizadores ao público fica muito limitado e passa a depender de uma divulgação mais modesta e, consequentemente, de resultados mais lentos. Aos poucos, por meio do popular “boca a boca”, o evento vai se tornando mais conhecido e mais capaz de atrair uma audiência cada vez maior, mas isso leva tempo. Já são mais de dez anos de festival, todo mês de julho, e a frequência ainda é bastante restrita a grupos de classe média e classe média alta, que pagam relativamente caro pelo programa (que inclui o trajeto, a hospedagem, os ingressos para os concertos etc.). Popularizar esse tipo de turismo histórico, que teria certamente um impacto muito positivo na formação das pessoas, é um enorme desafio.

Mas não é apenas a organização do festival que se depara com as limitações próprias da antiga região cafeeira fluminense. Ao percorrer esse belo território, o visitante é levado a indagar sobre o que ficou de toda aquela prosperidade que marcou durante décadas as plantações de café. Profundamente dependente da mão de obra escrava, a cafeicultura fluminense entrou em franco declínio após a abolição da escravatura em 1888. As fazendas se esvaziaram rapidamente e o café plantado em São Paulo e no Paraná, já empregando trabalhadores livres e assalariados, assumiu a liderança na pauta de exportações do País. Os proprietários das fazendas cafeeiras fluminenses rearrumaram suas fortunas e seus patrimônios, mas a região se empobreceu e se enfraqueceu de modo inelutável. Hoje, o café se tornou apenas parte da história. A maioria das fazendas que se integram ao festival do Vale do Café não possui plantações comerciais e nem produz para consumo próprio.

Inquietante é também a observação da paisagem atual. É possível percorrer quilômetros e mais quilômetros de estradas sem ver nenhuma plantação sequer. São milhares, talvez milhões de hectares de terras sem nenhuma utilidade concreta, sem criação nem plantio, sem nenhuma produtividade. Mas as cercas estão lá! Não há um único pedacinho de chão que não esteja devidamente cercado. De modo esparso, aqui e ali, de vez em quando, há uma meia dúzia de bois num pasto, ruminando com seu jeito modorrento, sem nenhuma expectativa. Foi esse o legado da cafeicultura fluminense, outrora tão próspera e tão abundante. Terras vazias, imensidões verdes e desertas…

Corre-se o risco de perpetuar esse modelo, mesmo com o advento de um turismo baseado nas lindas fazendas deixadas pelos cafezais de antigamente. O que se nota, ao percorrer algumas delas, é que não irradiam nada da sua pujança para o meio ao redor. Não interferem na paisagem, não incidem nos arredores, não afetam as estruturas já existentes. Anda-se por estradinhas de terra estreitas e íngremes e, de repente, eis que surge um belíssimo casarão com suas dezenas de janelas azuis, suas escadarias de pedra, suas varandas aprazíveis e floridas. Nada, mas nada mesmo, até aquele momento, indicaria que um monumento como esse estaria à espera do viajante. É como uma surpresa: algo que não encontra nenhuma referência no seu entorno. Totalmente inesperado, inevitavelmente surpreendente. Os belos casarões das antigas fazendas de café continuam, então, a seguir a sua velha trajetória do passado de glória — vivem em si mesmos e para si mesmos, não afetam o mundo à sua volta. Querem atrair visitantes, pretendem tornar-se o “epicentro” de uma revolução turística, mas não transformam as bases dos seus arredores. E nem se deixam transformar por elas…