Uma ausência eloquente

O Vale do Café — situado no centro-sul do Estado do Rio de Janeiro — recebeu este nome numa clara referência ao vale do rio Paraíba do Sul, o mais importante da região. Estima-se que, no auge da produção cafeeira do século XIX, ali se tivessem instalado mais de 150 fazendas comandadas pelos “barões do café”. As exportações crescentes do produto acabaram trazendo a ferrovia para o vale e estabelecendo, então, a sua ligação com o porto do Rio de Janeiro, principal escoadouro da produção cafeeira, em novos moldes. Com as estradas de ferro, o café deixou de ser transportado no lombo dos burros e das mulas até o porto exportador, liberando ainda a mão de obra dos escravos empregada no embarque e no transporte das sacas de café, permitindo que eles se concentrassem nas atividades propriamente produtivas e nos demais serviços. Assim, o itinerário cumprido pelos muares ficou restrito à distância entre as fazendas produtoras e as estações ferroviárias, onde o café era embarcado rumo ao porto.

Quando se pensa em todas as atividades desenvolvidas para o cultivo e a exportação de café no Vale do Paraíba fluminense, é fundamental que se pense nos escravos, principal força de trabalho empregada nas plantações e nas demais funções interligadas. Esse vínculo foi de tal forma estreito que, ao decretar-se a abolição da escravatura, em 1888, decretou-se ao mesmo tempo o fim inexorável daquele modelo primário-exportador que havia trazido prosperidade e glória às grandes fazendas dos “barões do café”. Todavia, mesmo com toda essa ligação profunda e absoluta entre escravidão e cafeicultura no Rio de Janeiro, a memória desses trabalhadores é praticamente inexistente em toda a região. Entre as várias fazendas integradas ao Festival do Vale do Café — que acolhem os visitantes oferecendo visitas guiadas aos seus interiores e concertos musicais de alto nível — registram-se referências muito esparsas aos escravos e à escravidão. Ao mesmo tempo, e corroborando essa ausência tão eloquente, não é raro encontrar-se entre os visitantes aqueles que preferem não falar sobre o assunto, julgando que esquecer todo o sofrimento e o desamparo dos africanos escravizados no Brasil é a melhor forma de preservar o passado enquanto passado. Como se falar significasse reviver…

Merece destaque a Fazenda São João da Prosperidade, no município de Barra do Piraí (http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/fazenda-sao-joao-da-prosperidade), pela singela referência (ao mesmo tempo simpática e respeitosa) aos escravos que construíram a imensa prosperidade do Vale do Café. Nela, há uma bela alameda que circunda as ruínas da antiga senzala, muito arborizada e florida, com diversas placas marcando a legislação abolicionista (lei do ventre livre, lei dos sexagenários, lei Áurea), além de fotografias em forma de banners que retratam as muitas contribuições dadas pelos africanos às artes, à cultura, à culinária, à religião do Brasil. Junto às pedras que representam as ruínas da antiga senzala foram colocados vários retratos de escravos e escravas em pequenas molduras fincadas na terra, que causam profunda emoção nos visitantes. No entanto, apesar dessa homenagem rara e marcante à escravaria que tanto caracterizou o ciclo cafeeiro da região, não há nenhuma menção sequer a isso nos textos e vídeos que fazem publicidade da fazenda, o que pode ser verificado em qualquer site de buscas. Vários aspectos são mostrados e mencionados, menos a alameda que leva às ruínas da senzala.

Nas demais fazendas integrantes do Festival do Vale do Café, nem isso. Na realidade, fica-se mesmo com a impressão de que há um esforço relativo no sentido de apagar essa memória, de torná-la cada vez mais “impressionista”, mera alusão despreocupada que fazem os guias locais quando se deparam com algum objeto elaborado pelas mãos dos escravos ou com algum cenário em que a presença deles fosse de fato indispensável (como nos pátios para secagem do café, por exemplo). No geral, as menções aos cativos são rápidas e furtivas, algo que não se pode deixar de dizer, mas que deve ser dito de forma fugidia, a fim de não causar uma forte impressão. Por outro lado, da parte dos visitantes, não se observa também nenhum tipo de curiosidade mais incisiva ou insistente sobre o tema. E fica o dito pelo não dito.

Disso tudo, resulta uma indagação que leva necessariamente às razões da persistência do racismo no Brasil, algumas vezes, de modo tão acentuado. O desconhecimento generalizado acerca da profundidade e da extensão da escravidão pode exercer uma influência muito mais forte sobre o preconceito do que se imagina. É preciso difundir mais amplamente o legado da escravatura, para que todos se deem conta da tremenda injustiça sofrida pelos africanos que foram trazidos à força para o Brasil, muitas vezes em condições tão desumanas que não puderam suportar. Não só o sofrimento infindável de ser cativo, de sofrer maus tratos, de exercer um trabalho extenuante, de se apartar das origens e dos afetos. Mas também de erguer palácios, de construir estradas, moinhos, plantações, de abrir picadas na mata, de criar os filhos da sinhá, de fazer o pão, de cozer o pano, de lavar as roupas. Tantas coisas!

A mão e a mente dos escravos estão em todos os cantos da história brasileira. E mais ainda nessas regiões, como o Vale do Café, em que toda a prosperidade e a glória dependeram de modo irremediável da sua presença constante e forte. É fundamental que eles sejam trazidos para o centro da narrativa, a fim de ocupar o seu devido lugar. Não é possível conviver com essa cortina de fumaça que se joga sobre a escravidão que durou tantos séculos no País, como se negá-la, ocultá-la ou diminuí-la fosse a melhor forma de se desculpar com ela.

*Fazendas participantes do Festival do Vale do Café (julho de 2015):

Fazenda São Luís da Boa Sorte — município de Vassouras

Fazenda São Fernando — município de Vassouras

Fazenda União — município de Rio das Flores

Fazenda Vista Alegre — município de Valença

Fazenda São João da Prosperidade — município de Barra do Piraí

Fazenda das Palmas — município de Paulo de Frontin (antigo Rodeio)