Breve comentário sobre os concertos

Um dos pontos altos do Festival do Vale do Café, realizado todo mês de julho nas antigas fazendas de café do centro-sul fluminense, é a apresentação dos concertos musicais, a cargo de músicos extraordinariamente talentosos e simpáticos. Em geral, as apresentações são feitas ao ar livre, aproveitando-se os belos gramados das propriedades onde são montadas grandes tendas sobre as cadeiras dos espectadores e o palco. Ou, em alguns casos, utilizam-se velhos galpões restaurados, antigamente empregados para o armazenamento do café colhido para exportação, onde são feitos os mesmos tipos de procedimento — cadeiras colocadas em fila e palco preparado com luz e som.

Neste ano de 2015, o público do festival foi brindado com participações excelentes. Logo no primeiro dia, pela manhã, numa iniciativa apelidada de “Conexão Brasil-Cuba”, o gaitista José Staneck recebeu o pianista cubano Yaniel Matos para um dueto de encantos quase indescritíveis. Ambos são músicos exímios, que esbanjam talento e simpatia, e brindaram o distinto público com grandes sucessos da MPB, além de composições próprias. Foi um espetáculo primoroso, que mereceu aplausos calorosos da audiência. Na parte da tarde, foi a vez do Marcos Ariel Trio (teclado, sax e bateria) regalar os ouvintes com sucessos que transitaram do choro à bossa nova, fazendo alguns se levantarem para dançar. Mais uma vez, não faltaram aplausos e gritos de satisfação.

No segundo dia, foi a vez de Turíbio Santos, um dos maiores violonistas brasileiros, que dispensa apresentações. Acompanhado de outros violonistas jovens, fez uma exibição para lá de emocionante. Sua intenção foi mostrar ao público presente que a música popular e a música erudita dialogam de forma permanente, ainda que muitos tentem isolá-las. Utilizando peças de Bach e do choro brasileiro, fez isso de modo inequívoco e causou forte impressão nas pessoas. Uma de suas convidadas tocou ainda, na viola caipira, uma das mais belas composições do cancioneiro popular brasileiro, “A tristeza do Jeca”, e deixou alguns ali com lágrimas nos olhos. Todo esse virtuosismo acrescido de paixão e doçura recebeu uma saudação entusiasmada da audiência. Foram muitos aplausos. Na parte da tarde, foi a vez do músico francês radicado no Rio de Janeiro, Nicolas Krassik, acompanhado do grupo Os Cordestinos, sacudir a moçada com seu forró cheio de complexidade e de múltiplas referências. Era difícil ficar parado ao escutá-los. O cenário exuberante de uma das mais belas fazendas da região ajudou a criar um clima de satisfação e de prazer que contagiou a maior parte do público presente. Mais uma vez, os músicos receberam o devido reconhecimento, com muitos aplausos e elogios.

Mas nada, nada mesmo, se comparou à reação das pessoas no último dia de concertos. Ao olhar a programação do evento, alguns chegaram a estranhar que, justo no concerto de encerramento, fosse feita uma homenagem aos cem anos de Frank Sinatra. A mera presença de Sinatra num festival como esse, que evoca o passado histórico brasileiro nas fazendas de café que fizeram a grandeza e a glória do centro-sul fluminense no século XIX, já era, em si, uma coisa estranha. Quer se desse no início ou no fim do festival! Era difícil imaginar a conexão que porventura pudesse existir entre uma coisa e outra. Enquanto os outros músicos que se exibiram anteriormente tiveram a clara preocupação de realçar os laços de tudo que tocavam e cantavam com as tradições culturais brasileiras, Sinatra surgiu ali de “franco atirador”, sem que precisasse estabelecer qualquer vínculo com o festival que o abrigava. Mas, quem se intrigou com essa estranheza é que se enganou. Carol Mac Davit, acompanhada de dois outros cantores, apresentou os grandes sucessos de Sinatra numa pegada lírica que levou o público ao delírio. Embora para alguns fosse bem complicado entender ou apreciar aquele tipo de interpretação, para a maioria foi uma verdadeira apoteose. Aplaudiram de pé e gritaram com incontida emoção. Quando os cantores atacaram de “My Way”, então, a plateia chegou ao êxtase! Foi uma autêntica comoção. Muitos choraram. Finalmente, tinham encontrado a sua música!

Na saída, dois amigos se entreolharam perplexos.

— Acho que se tivesse uma bandeira dos Estados Unidos ali, muitos teriam se perfilado junto a ela com a mão do lado esquerdo do peito, disse o primeiro.

Ao que o outro respondeu:

— A gente não devia se espantar com isso. Deve ser o mesmo tipo de público que gritou VTNC* para a presidenta Dilma Rousseff no jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014.

(*VTNC é a forma educada de escrever “vai tomar no c*).