Divagando sobre o golpe

Que haja um golpe em curso no Brasil é algo praticamente inegável nos dias que correm. Tendo como alvo principal a presidenta Dilma Rousseff, que seria apeada do cargo — para o qual foi legitimamente eleita em outubro de 2014 — por intermédio de razões fabricadas, essa tentativa de ruptura da ordem democrática visa, sobretudo, aniquilar o PT (Partido dos Trabalhadores) como alternativa política.

Nas últimas semanas, as forças do golpe subiram o tom e partiram para o tudo ou nada, chegando mesmo a ameaçar com a prisão ninguém menos do que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a liderança política mais carismática e mais popular do País. E isso sem que pesassem sobre ele quaisquer provas ou acusações fundamentadas. Era puro terrorismo, cujo objetivo final era desestabilizar o governo e emparedar a militância petista junto com os seus simpatizantes. No centro de tudo, a estrela vermelha do PT. Diante de um quadro econômico difícil, em decorrência do agravamento da crise internacional que está longe de ser solucionada (vide a Grécia, a China, outros países da Europa), as forças perversas do golpe engendraram uma “crise política” capitaneada pela presidência da Câmara dos Deputados, que passou a pautar a agenda legislativa com base na aprovação de medidas que feriam cabalmente o esforço de ajuste fiscal que vem sendo feito pelo governo Dilma. Dia sim, outro não, o distinto público se via diante de novas leis e decretos que aumentavam os gastos federais, sem a correspondente indicação das fontes financiadoras dos mesmos — o que representa um indiscutível abismo para as contas nacionais. Mais gastos, sem receitas análogas representam o endividamento irresponsável, leviano, desorientado, que só conduz ao caos.

Pois este era o quadro posto pela oposição, no intuito de derrubar um governo eleito pelo voto direto e democraticamente constituído. Promover a anarquia para justificar sua tomada do poder. Nada poderia ser mais odiosamente antidemocrático. Mas seus acólitos estavam dispostos a tudo. Julgavam-se diante de um governo enfraquecido pelas escolhas feitas no passado e no presente, que teriam gerado uma grande insatisfação popular, e acreditavam que havia chegado a hora de finalmente agarrar a oportunidade de voltar ao comando. Por isso mesmo, apostaram no tudo ou nada. Foram com muita sede ao pote, como se dizia antigamente, e se lambuzaram na expectativa de alcançar seus objetivos. Até que as reações começaram. No começo, de forma tímida e esparsa, mas, com o passar dos dias, mais enfáticas e determinadas.

Cabe o registro da responsabilidade que muitos movimentos sociais tiveram nesse enfraquecimento do segundo governo Dilma Rousseff. Logo no início, quando foram anunciados os ministros e algumas medidas destinadas a corrigir o desequilíbrio das contas públicas, a gritaria foi geral. E capitaneada pelas principais lideranças dos movimentos sociais, como CUT e MST, que demonstraram sem nenhuma cerimônia toda a sua contrariedade com a presidenta e com a sua equipe. Não houve nem tempo de dialogar, os gritos impediram que se ouvissem explicações e ponderações. Todos atiravam pedras contra a vidraça de Dilma Rousseff. Todos. E o que dizer, então, de “nobres prepostos” da Força Sindical (outra entidade sindical representativa dos trabalhadores) que tiraram as calças e mostraram as bundas dentro do Congresso Nacional, por ocasião da votação de algumas medidas do ajuste fiscal do governo?!

Foram dias, semanas e meses de perplexidade para corações sensíveis. Cenas jamais vistas antes na história deste País. Uma aberração atrás da outra, tendo à frente figuras ilustres da oposição a convocar marchas de protesto pelo impeachment da presidenta, sobre a qual não pesam quaisquer condenações. E tudo com a mais ampla cobertura de uma mídia tóxica e contaminada, cujo principal objetivo tem sido o de desmoralizar os governos do PT. Para colocar em seu lugar governantes que obedeçam fielmente a agenda neoliberal clássica: Estado mínimo (sobretudo, para programas sociais) e lucro máximo, com radical desregulamentação das atividades econômicas.

Criou-se uma atmosfera de descontentamento artificialmente provocado, dadas as reais condições da economia. Não é um mar de rosas, mas também não é uma catástrofe, como se tenta fazer crer. A inflação incomoda. Mas, os programas sociais seguem no mesmo ritmo, novas concessões (aeroportos, portos) estão sendo planejadas, investimentos em infraestrutura vão sendo implementados, a balança comercial brasileira continua superavitária, com significativo destaque para o agronegócio. É preciso entender que vivemos no capitalismo: as crises são sistêmicas e periódicas e, por isso mesmo, volta e meia os ajustes se tornam imperativos. Socialismo, só com revolução!

O ambiente contaminado pelo pessimismo e pelo derrotismo começou a comprometer a lucratividade de diversos empreendimentos. Na semana passada, foi divulgada uma pesquisa que apontou um declínio de 8,5% na rentabilidade das empresas de comunicação, no primeiro semestre de 2015, com destaque para o segmento de revistas e congêneres. Começaram a se ouvir as vozes dos principais interessados: suas excelências, os empresários. Que até aqui, estavam caladinhos, à espera do sucesso do golpe, talvez. Jornais e outros meios passaram a dar destaque às falas de grandes capitalistas, que se mostravam cautelosos e ousavam até defender a normalidade das instituições. Hoje mesmo se falou muito no presidente do conselho de administração da Nestlé, uma das maiores produtoras de alimentos do mundo, com sólida posição no mercado brasileiro. E o que ele disse de tão importante? Em primeiro lugar, que “o maior risco do Brasil é o da marcha a ré social”. Ou seja, existe um risco sério para a estabilidade econômica, política e social do País caso os ganhos obtidos pelas camadas mais pobres da população nos últimos anos sejam perdidos: “uma queda na demanda pode representar um perigo social extremo”. O sábio Hobsbawm sempre afirmou que uma pessoa que nunca teve nada talvez possa se resignar a uma existência de privações; mas, uma pessoa que experimentou alguma medida de fartura dificilmente irá se conformar em perdê-la. É pagar para ver.

Ontem, Guilherme Afif Domingos deu uma entrevista numa rede pública de televisão. Para quem não o conhece, ele é um renomado empresário de São Paulo, que presidiu por muitos anos a Associação Comercial de São Paulo, além de ter feito carreira na política (sempre filiado a partidos que se situam à direita do espectro político nacional — PDS [ex-Arena, partido de sustentação da ditadura], PP, PL, PFL e agora PSD). Há dois anos, Afif compõe o ministério de Dilma Rousseff, ocupando a secretaria dedicada às micro e pequenas empresas. Por sua reconhecida competência no setor, foi escalado para ampliar a formação e a estabilização dos micro empresários, um dos segmentos de atividade que mais crescem no Brasil. Hoje, são 5 milhões e 200 mil ao todo, sendo que a meta da presidenta é chegar a 10 milhões. Isso talvez explique porque o desemprego tem tido taxas relativamente baixas entre nós, apesar das dificuldades macroeconômicas enfrentadas na atualidade. Diversas medidas têm sido adotadas no sentido de facilitar a abertura e a continuidade dos micro e pequenos negócios, que representam o maior contingente de empregadores do País. É preciso garantir que eles se estabeleçam, e que prossigam na expansão de suas atividades.

Pois bem, lá pelas tantas, no meio do debate específico sobre os pequenos negócios, Afif resolveu falar do quadro político atual. Disse que não haverá golpe, e que Dilma Rousseff vai concluir o seu segundo mandato. É interessante observar o que ele diz, porque se trata de um conservador. Entre seus argumentos, destaco três aspectos mais relevantes: primeiro, de acordo com ele, Dilma não cai porque não há nada contra ela que justifique sua queda; segundo, ela não é alinhada ao “núcleo político” do PT, portanto, não está contaminada pelos “desastres sucessivos” que o partido acumula e que o levaram a essa crise atual; terceiro, ela não é candidata a nada em 2018 e, pois, não precisa condicionar sua ação política a pressões eleitorais. Além do mais, e aí ele citou um colunista de mídia que havia escrito um artigo intitulado “ruim com ela, pior sem ela”, tirar Dilma Rousseff do poder pode ser muito mais negativo do que positivo para o conjunto da sociedade, desencadeando tensões incontroláveis e favorecendo desfechos indesejáveis.

Este é o estado de espírito da direita brasileira, hoje. Esticou a corda até onde pôde, na certeza de que os ventos lhe eram favoráveis, mas não logrou o seu intento. Pelo menos, não até agora. Parece fazer o cálculo do “vão-se os anéis, ficam os dedos”. Diante da perspectiva de queda acentuada dos negócios, de perdas significativas de lucros e dividendos, de declínio substancial de todas as formas de ganho que uma economia mais inclusiva tem lhe proporcionado, o grande capital (incluídas aí as empresas de mídia monopolistas) parece ter aceitado o recuo imposto pelas circunstâncias. Parece. Em se tratando da direita brasileira, como de resto de toda a direita latino-americana — predadora, mesquinha, cruel e violenta — não dá para fazer apostas muito ambiciosas. Todavia, para ela, o momento é de cautela, porque as forças que apoiam o governo começaram a reagir e a resistir. Vamos ver se essa reação é duradoura.