Divagando sobre o golpe 2

Muito se falou, e ainda se fala, que não haveria golpe no Brasil de hoje por falta de apoio externo. Trocando em miúdos, afirma-se que não interessaria aos Estados Unidos da América (o dono do mundo e senhor absoluto das Américas) desestabilizar o Brasil — que tem a principal economia da América do Sul, a maior população e uma forte projeção cultural no cenário internacional —, sob pena de arrastar a maioria dos países do continente a uma crise política e social sem precedentes, cujo desfecho seria de todo imprevisível. Dadas essas suposições, portanto, o golpe político pretendido no Brasil — que seria perpetrado com a saída forçada de Dilma Rousseff da presidência — não vingaria a não ser como metáfora dos sonhos primeiros e últimos de suas elites mais retrógradas.

Pois eu discordo totalmente dessas avaliações. Justamente porque o Brasil é uma peça assim tão importante do tabuleiro geopolítico atual é que interessaria, sim, aos Estados Unidos da América colocá-lo sob sua tutela direta, garantindo que todo o resto do continente se submetesse aos desígnios econômicos e políticos da potência hegemônica. Seria muito mais fácil realinhar toda a América Latina ao projeto de poder estadunidense se um de seus países mais ricos e mais proeminentes — o Brasil — fosse imediatamente assimilado. Grupos políticos internos garantiriam essa transição dando-lhe a “legitimidade” necessária e colocando em prática as medidas de política econômica concernentes a esse objetivo. Basta observar a dificuldade que estão tendo para aprovar mudanças na legislação que regula a exploração do pré-sal (petróleo), para perceber que um governo mais alinhado aos interesses dos Estados Unidos da América daria suporte e rapidez à adoção dessas propostas, tornando-as mais urgentes e efetivas. O governo brasileiro atual, autor da lei de partilha que está em vigor, e que dá à Petrobras papel de destaque na apropriação dos recursos petroleiros, é um obstáculo evidente ao alcance dessas pretensões.

Senão, vejamos. Historicamente falando, Washington sempre esteve à frente dos principais golpes políticos engendrados na América Latina — e o Brasil não é uma exceção a essa regra. Hoje, sabemos que o regime militar implantado aqui em 1964, por exemplo, contou com a colaboração direta do serviço secreto estadunidense; uma farta documentação sobre esse processo histórico vem sendo disponibilizada e permite confirmar todas as hipóteses e suspeitas alimentadas durante décadas. Em anos mais recentes, veio à tona a denúncia de que esse mesmo serviço secreto estadunidense espionava (e continua espionando) altas figuras da administração pública brasileira, inclusive a presidenta da República e a cúpula da Petrobras. A reação indignada do governo brasileiro tinha fundamentos: essa prática — de todo ilegal — não se coaduna com a postura de países aliados. Washington jamais pediu desculpas por esse ataque à soberania do País, e ficou o dito pelo não dito. Na visita recente de Dilma Rousseff à Casa Branca, o presidente Barack Obama fez o seu teatrinho de “bom amigo e companheiro”, mas muita gente sabe que o serviço secreto estadunidense continua atuando em prol de seus interesses geopolíticos e econômicos. Que não costumam ser exatamente os interesses de seus parceiros não hegemônicos.

Assim sendo, não pareceria de todo irreal que o próprio serviço secreto dos Estados Unidos da América espalhasse essa ideia de que não é seu objetivo perpetrar golpes e desestabilizar o Brasil. É interessante observar que isso começou a circular junto com a intensificação dos esforços para desacreditar Dilma Rousseff e tirá-la do poder. E quando passou a ser dito por gente séria e honesta, que acredita piamente nessa afirmação (ou quer acreditar), ficou ainda mais verossímil. Ou seja, o que se pode supor diante dessa hipótese é que, com base nesse aparente desinteresse que convenceu muitas pessoas, Washington estaria se eximindo de qualquer responsabilidade sobre um eventual golpe, mas poderia estar trabalhando de modo intenso, nos bastidores, para dominar o Brasil e recuperar sua posição hegemônica no continente.

Além disso, nos últimos anos, Washington acumulou também uma grande experiência em derrubar governos, colocando em seu lugar lideranças francamente alinhadas à sua política de poder. Há aspectos traumáticos em todos esses eventos, sem dúvida, mas quem mais sofre mesmo é a população civil. A visão que se tem hoje de milhares de refugiados espalhados pelo mundo é de fato desalentadora. Pessoas arrancadas de suas casas, de seus trabalhos, de seus modos de vida e lançadas no abismo de uma existência sem raízes e sem destino. Rejeitadas, enxotadas, ameaçadas em todos os cantos do mundo. Todavia, passado o sufoco inicial das guerras e dos conflitos, as grandes empresas multinacionais “aparecem” para resolver os principais problemas resultantes, e todo o sofrimento do povo perde significado. O que fica mesmo é a recomposição das esferas de comando, sob a tutela estadunidense. Não creio que desconsiderassem a possibilidade de fazer o mesmo na América Latina, porque as vantagens obtidas seriam infinitamente superiores às eventuais desvantagens que pudessem surgir.

Quem teria mesmo a perder com essa mudança súbita no equilíbrio de poder nas Américas? A China. Por meio de uma diplomacia baseada, sobretudo, nos acordos comerciais, os chineses expandiram e aprofundaram suas posições no continente, sendo que o Brasil aparece numa condição de significativo relevo. Em maio de 2015, o governo de Pequim anunciou investimentos da ordem de 53 bilhões de dólares na economia brasileira, em grande parte destinados a obras de infraestrutura como ferrovias, portos, aeroportos, rodovias e hidrelétricas. O governo brasileiro conta com esses recursos para ajudar o País na retomada do crescimento e na modernização da sua infraestrutura. Isso possibilitaria um salto qualitativo importante, capaz de assegurar algumas décadas de expansão econômica sustentada. Para a China, por meio da compra de participação em negócios nos leilões de concessão feitos pelo governo brasileiro ou do financiamento de bancos chineses a obras desse tipo, é a subida de alguns degraus na escala da sua influência econômica e política sobre o continente americano. Não à toa, escolheu o Brasil como ponta de lança. Seu propósito é elevar os investimentos na América Latina para 250 bilhões de dólares, em uma década.

Tendo isso em vista, pode-se perguntar se os interesses geopolíticos e econômicos dos Estados Unidos da América e da República Popular da China estariam enfrentando hoje uma disputa ferrenha no plano global, com a América Latina (mas não apenas) como um de seus principais cenários. Essa disputa em curso, embora não seja explícita nem assumida claramente, pode estar condicionando determinadas iniciativas e posturas de ambas as potências, com amplas repercussões nacionais e internacionais. Caso isso seja verdadeiro, e diante do acirramento dos intentos de golpe político dos últimos meses, no Brasil, caberia indagar se teria havido alguma contrarreação da China, no sentido de evitar uma troca de comando no governo brasileiro e, assim, assegurar a continuidade de sua influência crescente sobre o Brasil e a América Latina? Teria sido a China capaz de se antepor à sanha golpista de Washington, forçando um recuo das usuais tramoias e maquinações que põem e dispõem sobre os destinos dos povos latino-americanos (ainda que temporário)? Trata-se aqui de meras especulações. Só o tempo dirá se alguma delas tem algum fundamento.