Qual capitalismo?

“A competição econômica entre o comunismo e o capitalismo acabou, mas outra competição entre duas formas de capitalismo já eclodiu. Usando uma distinção feita pela primeira vez por George C. Lodge, professor da Escola de Administração de Harvard, a forma de capitalismo individualista anglo-saxão britânico-americano se defrontará com as variantes do capitalismo comunitário alemão e japonês.” (p.33)

É curioso observar que, passados pouco mais de vinte anos, nossas percepções e inquietações sobre os rumos do mundo tenham se modificado tanto. Em vez dessa escolha acima prevista, entre duas formas relativamente distintas de organização das sociedades capitalistas, nos vemos diante da esmagadora supremacia da vertente neoliberal, cujos resultados mais palpáveis hoje em dia são a alta concentração da riqueza e do capital (numa escala jamais vista até então), o aumento acentuado das desigualdades (entre as nações e dentro de cada uma delas), o desemprego cada vez maior (sobretudo, entre os mais jovens) e a dificuldade quase insuperável dos governos para deter os estragos provocados pela emergência de um “capitalismo sem peias”. Por meio de agências internacionais, organismos globais e ações diretas de bancos, empresas e demais associações de capital, o conjunto da economia mundial vai sendo progressivamente colocado sob os ditames desse modelo capitalista dominante, cujas estratégias definidoras se apoiam no “princípio” do maior ganho individual possível.

Há alguns embates marcantes nesse modelo, como, por exemplo, o engajamento ou não do Estado como força propulsora do desenvolvimento. Isso inclui os investimentos públicos em educação e em qualificação profissional, assim como também significa uma atuação constante e firme dos órgãos públicos, por meio de políticas específicas, no sentido de assegurar o bem-estar da população em geral (algo que foi reconhecido até certo ponto e durante longo tempo como elemento fundamental da prosperidade econômica, do qual alguns países ainda resistem em abrir mão). Apesar das investidas contínuas contra a perpetuação desses mecanismos de proteção social e desses projetos públicos de promoção do desenvolvimento, eles seguem resistindo, ainda que numa proporção menor em relação ao passado.

“Tanto a Europa quanto o Japão acreditam que o governo tem um papel a desempenhar no crescimento econômico.” (p.37)

“(…) Na economia de mercado anglo-saxônica ideal, as políticas de assistência social não seriam necessárias.” (p.39)

Passados pouco mais de vinte anos do colapso do socialismo soviético, e passadas as comemorações frenéticas pela vitória “definitiva” do capitalismo (houve quem apostasse inclusive no “fim da história” com esse triunfo), o que se observa é um declínio significativo da prosperidade econômica, em escala global, sem que tenham sido criadas alternativas viáveis de crescimento para a grande maioria dos povos. Assim, em lugar de apenas comemorar “a resistência do capitalismo diante das adversidades”, deveríamos nos perguntar quais são de fato as virtudes desse sistema, tendo em vista a sua incapacidade amplamente demonstrada pela história de promover um crescimento econômico equilibrado e justo no plano internacional.

“A corrida econômica não é ganha por atletas de pequenas distâncias. Ela exige fôlego de um maratonista para conseguir taxas de crescimento de 3% ao ano ou mais durante um século. A tarefa é muito árdua. A possibilidade de qualquer país entrar para a lista das nações mais ricas do mundo no fim do século é muito remota — por mais bem-sucedido que ele possa parecer no início do século XXI.” (p.272)

Mesmo sem levar em conta que essas perspectivas apontadas pelo autor se restringem ao âmbito do atual estágio de desenvolvimento do capitalismo — sobre o qual ele não faz nenhuma reflexão, tomando-o como um dado de realidade e ponto final —, podemos levantar algumas questões a partir do seu texto. As oportunidades são mesmo muito restritas para a maioria dos países do mundo: o alto grau de concentração do capital e da riqueza, as disparidades entre os níveis de conhecimento e de progresso tecnológico, a distribuição desigual dos recursos naturais e as diferenças sociais e culturais que separam povos e grupos interferem de modo profundo nos rumos do desenvolvimento econômico. Em algumas regiões do planeta, todos esses aspectos se combinam de modo perverso, intensificando os seus efeitos adversos em vez de atenuá-los. Uma população crescente, mas desassistida em termos essenciais ao bem-estar — moradias decentes, saneamento, educação, assistência de saúde, emprego, renda — é muito mais um problema do que uma solução. A transformação de cada novo cidadão em alguém economicamente ativo, capaz de produzir e de consumir com um padrão de vida apenas mediano, exige investimentos de grande porte, que poucos países hoje têm condições de realizar.

E isso tem implicações políticas também. São escolhas a fazer. Girar o leme do barco, ainda que seja bem de leve, promovendo alterações modestas no equilíbrio das forças econômicas e sociais, pode provocar (e tem provocado) inquietações e revoltas nos segmentos anteriormente privilegiados, que se sentem prejudicados pelas tênues mudanças de orientação das políticas públicas. A perda de protagonismo dos grupos que tradicionalmente se beneficiaram de todas as vantagens do crescimento econômico intermitente havido nos países do mundo não hegemônicos — como o Brasil — tem gerado forte animosidade dentre deles. Essa impossibilidade de unir forças em prol de um objetivo comum — o desenvolvimento econômico com (alguma) justiça social — representa mais um obstáculo de peso à superação das dificuldades.

“No século XX, o clube dos ricos admitiu apenas um novo sócio industrial — o Japão. Não seria uma grande surpresa se não fosse admitido nenhum outro sócio no século XXI.” (p.257)

Referência:

Lester Thurow. Cabeça a cabeça. A batalha econômica entre Japão, Europa e Estados Unidos. 2ª edição. Tradução de Alberto Lopes. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.