Desconstruir um mito

Muito já se falou que a história é sempre narrada pelos vencedores. Aqueles que perdem os embates e as disputas, em geral, também ficam privados do direito e da oportunidade de contar a sua versão dos fatos, de exprimir e de registrar os seus pontos de vista. Isso se aplica principalmente àqueles grupos e indivíduos iletrados, que carecem dos meios convencionais de produzir e divulgar as narrativas — desde a invenção da imprensa, esses meios são caracteristicamente escritos e impressos. Sem ler e escrever, tais sujeitos ficam alijados de imediato dos processos usuais de formação das interpretações que visam explicar a si mesmos e ao mundo, e se privam de todas as possibilidades de participar ativamente da construção dos registros históricos. A oralidade se torna, assim, a sua principal forma de contribuição, sujeita, no entanto, às inúmeras dificuldades que cercam as pesquisas de campo que tentam resgatar esses conteúdos transmitidos exclusivamente por via oral. Além disso, há toda uma concepção historiográfica que define a oralidade como um dos recursos da investigação, mas não lhe concede a primazia de sua fundamentação.

Mais do que isso, porém, quando acontece uma vitória inesperada das forças que ousam desafiar o poder dominante, faz-se de tudo para impedir que essa vantagem seja acompanhada de uma narrativa correspondente, que exalte esse feito e lhe dê a dimensão histórica merecida. Os “donos do poder”, isto é, aqueles que se julgam detentores naturais (quando não divinos) do mando e do governo, em geral, possuem também o monopólio da narrativa, se não de forma direta (com a propriedade dos meios de comunicação em si), pelo menos de maneira indireta (por meio de alianças e acordos com os proprietários desses meios, por exemplo). De modo que, mesmo perdendo batalhas e combates (ou eleições), eles conservam uma força descomunal que lhes é conferida pelo controle praticamente integral sobre a interpretação dos fatos.

Napoleão Bonaparte é um caso ilustrativo dessa questão. Desde cedo, mereceu dos ingleses (e de seus aliados europeus) uma atenção toda especial. A ideia de uma república emergente no coração da Europa, capaz de ameaçar as rotas de comércio e os fluxos de capital controlados a partir de Londres seria um golpe ainda mais doloroso para o Reino Unido, que mal se recuperava da perda das 13 Colônias da América. Os conservadores ingleses logo trataram de consolidar alianças com as demais monarquias europeias, acolhendo os aristocratas franceses exilados em seu território e fornecendo dinheiro para organizar e armar os movimentos contrarrevolucionários da França. E deram ainda amplo espaço aos esforços de desconstrução da liderança de Bonaparte, por meio de uma sistemática campanha de difamação que explorou a publicação de panfletos, folhetos e jornais em larga escala, com o objetivo claro de achincalhar aquele que chamavam jocosamente de “o tirano corso”.

“A visão inglesa sobre Napoleão Bonaparte surgiu da guerra e do ódio à Revolução. O primeiro esboço oficial, por Lorde Malmesbury em novembro de 1796, descrevia Napoleão como ‘um jacobino esperto e desesperado, até terrorista’. A caricatura inglesa mais antiga, de 14 de abril de 1797, é intitulada ‘O Bicho Papão Francês Assustando os Comandantes Reais’: um Napoleão de aspecto horrível sentado nas costas de um demônio que vomita exércitos e canhões. Em 1799, um caricaturista inglês retratou Napoleão fugindo do Egito com todo o ouro. Em janeiro de 1800, o marquês de Buckingham encontrou um novo nome para o cônsul que tinha sangue vermelho nas veias em vez de azul e que ousara suplantar quatorze séculos de reis: ‘Sa Majesté trés Corse’ [Sua Majestade Tão Corsa].”. (p.228)

A volúpia extremada com que os conservadores se atiraram nessa tarefa de desconstruir Napoleão Bonaparte chegou até a levá-los à guerra. Mesmo quando o general francês quis estabelecer a paz com seus vizinhos europeus, eles preferiram o combate. Nas articulações havidas dentro das altas esferas de poder da Europa, sobretudo, no Reino Unido, predominava o temor de que a paz, pela qual Napoleão se bateu, pudesse ser extremamente vantajosa para a França, dando-lhe um papel ainda mais relevante no arranjo geopolítico do continente. Eles acreditavam que, numa Europa pacificada, a disseminação das doutrinas republicanas e revolucionárias ficaria muito mais fácil. Progressivamente, então, as cortes de Viena, Berlim, São Petersburgo, Roma e Nápoles se converteram em núcleos organizados de propaganda contrária à França, insuflados e irrigados financeiramente por Londres.

Embora os ataques se dirigissem contra todos os aspectos e legados da Revolução, em especial, o princípio republicano, a desconstrução de Napoleão Bonaparte como o líder revolucionário que trouxe paz e estabilidade à França foi o objetivo central da conduta político-ideológica que tomou conta da Europa. O ápice dessa agressão abominável ao grande general francês foi a sua caracterização como “corso, jacobino, conquistador ambicioso” desprovido de todos os atributos de um verdadeiro cavalheiro. Indigno, portanto, da confiança dos “homens de bem” (como se autorretratavam os aristocratas).

“(…) O Morning Post de 1º de fevereiro de 1803 descrevia o primeiro-cônsul como ‘um ser inclassificável, meio africano, meio europeu, um mulato mediterrâneo’. Tornou-se tão comum os caricaturistas ingleses desenharem um pigmeu de pela amarela com um nariz enorme que, quando o capelão da embaixada britânica chegou a Paris, ficou atônito ao encontrar um Napoleão ‘bem proporcionado e bonito’.” (p.235)

Dentro da França não era muito diferente. Tanto antes quanto durante e depois de todo o processo revolucionário, a explosão de publicações (algumas panfletárias) das mais variadas tendências foi uma das principais características do ambiente político do país. Quando Napoleão ascendeu ao poder como primeiro-cônsul, no finalzinho de 1799, circulavam em Paris nada menos do que 73 jornais, sendo que a maioria pertencia a monarquistas que se dispunham a qualquer coisa para colocar Luís XVIII no trono. Sua relação com essas publicações passou por diversas turbulências. Uma delas, ocorrida logo no início de seu mandato de dez anos como primeiro-cônsul, seria decisiva:

“(…) Em16 de janeiro de 1800, quando a França estava à beira da bancarrota, alguns desses jornais anunciaram que tropas anglo-russas haviam chegado à Bretanha e capturado 3.000 prisioneiros. Isso era uma invenção completa, mas causou pânico, fez despencar a Bolsa e certamente levou o povo a ‘vilipendiar o Governo’.” (p.300)

Embora o tema da liberdade de publicação não tivesse ocupado um espaço maior nos debates, a Constituição de 1791 determinou, em seu capítulo V, seção 17, que: “Ninguém pode ser preso ou julgado por imprimir ou publicar escritos de qualquer natureza, a menos que incite deliberadamente a desobediência da lei ou a vilipendiação do governo.” (pp.299-300) Isso deixava em aberto o estabelecimento de sanções a publicações que desestabilizassem a ordem constituída. Além disso, apoiando-se numa lei decretada pelo Diretório, que dava poderes à polícia para reprimir jornais, Napoleão determinou a supressão da maioria desses periódicos, restando apenas 13. Em 1811, quando a situação militar se agravou e o governo se viu ameaçado, Napoleão cortou ainda mais os jornais e os reduziu a apenas quatro, introduzindo também a censura. O custo político dessas medidas poderia ser bastante elevado, e o general governante o considerava em suas ponderações. Todavia, ao estabelecer comparações com a Inglaterra, que gozava de ampla liberdade de imprensa, argumentou:

“(…) As elites na Inglaterra não prestam muita atenção a ataques vindos de jornais, e cidadãos privados que pertençam a famílias poderosas ou desfrutam de sua proteção tampouco têm muito a temer; mas aqui, onde os vários grupos sociais ainda não estão estabelecidos, onde o homem comum na rua é vulnerável, onde o governo ainda é frágil, jornalistas golpeariam até a morte instituições, indivíduos e o próprio Estado.” (p.300)

Qualquer semelhança com fatos e personalidades da atualidade não é mera coincidência.

Referência:

Vincent Cronin. Napoleão, uma vida. Tradução de Anna Lim e Lana Lim. Barueri, SP: Amarilys, 2013.