Gratuidade e mobilidade

Peguei um ônibus no ponto do Largo dos Leões, em direção à Ipanema. Para quem não é do Rio, o Largo dos Leões é uma praça onde se inicia o bairro do Humaitá, que fica coladinho ao bairro de Botafogo, na Zona Sul da cidade. Para chegar a Ipanema, percorremos a rua principal do Humaitá e parte da orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, que chamamos simplesmente de Lagoa. Como eu me sentei no primeiro banco, bem ao lado do cobrador, pude observar que praticamente todos os passageiros que entraram no ônibus pagaram a sua passagem com cartão, em suas várias modalidades: “bilhete único”, “riocard”, “sênior gratuidade”. Cada uma dessas modalidades aparece escrita no visor da máquina, no momento em que se insere o cartão, e pude identificar o tipo de passageiro em cada um daqueles que entravam. Percebi ainda que quase não se usa mais dinheiro nos coletivos da cidade, é curioso.

Mas, o que mais chamou a minha atenção foi o fato de que todos os idosos portavam o seu cartão “sênior gratuidade”, por meio do qual estão isentos do pagamento de um determinado número de passagens por mês. Todos, sem exceção, velhos e velhas, eram brancos, de classe média, bem vestidos e aparentemente bem dispostos. Dois senhores de cabeça branca que entraram no ônibus num ponto da Lagoa tinham inclusive certo ar aristocrático, pareciam dois lordes perdidos na orla do Rio de Janeiro! E também tiraram dos bolsos os seus cartões “sênior gratuidade”.

É um direito concedido à terceira idade e todos que fazem jus a ele podem e devem usufruí-lo. Mas é preciso refletir sobre o fato de que “alguém” está pagando por isso. E é assim mesmo que procedem as sociedades ditas civilizadas. Direitos sociais são responsabilidades de todos. Devemos nos lembrar disso quando levantarmos a voz para criticar os impostos, para reclamar do “peso da carga tributária do Brasil” que vive sendo alardeado por aí. Direitos e benefícios custam dinheiro, não caem do céu, ao contrário do que muitos querem acreditar. E se desejamos viver numa sociedade que respeita os seus velhos — entre tantas outras coisas fundamentais — precisamos estar conscientes de que devemos pagar por isso.