Cada qual com seu cada qual

“Os fundadores e construtores de empresas gigantescas são tão especiais nos Estados Unidos quanto o são os criadores de grandes óperas na Itália.” (p.23)

Fico me perguntando se algum historiador brasileiro escreveria uma frase semelhante sobre os empresários locais. Será? À parte os evidentes exageros ufanistas do autor acima, é interessante observar que se constituiu nos Estados Unidos um amplo campo de estudos e pesquisas sobre empresas e empresários, do qual a Harvard Business School é um dos centros de excelência. No curso desse já longo processo de produção do conhecimento, algumas obras seminais foram escritas sobre a história do desenvolvimento econômico estadunidense, tomando por base as suas grandes empresas estabelecidas nos mais variados segmentos de atividade. Eu destacaria o trabalho do professor Alfred D. Chandler (do qual o autor aqui citado é discípulo), um dos pioneiros nesse campo da história empresarial, cujo legado em Harvard continuou incentivando novas e ousadas produções acadêmicas. A matéria-prima dessas análises é uma percepção relativamente disseminada entre os intelectuais de que os Estados Unidos assumiram a dianteira no mundo dos negócios capitalistas em razão de suas indiscutíveis qualidades empresariais:

“(…) Quando se adota a visão de longo prazo — digamos, de 250 anos — é justo afirmar que os Estados Unidos têm sido melhores em iniciar e nutrir empresas.” (p.15)

Nesse percurso histórico em que empresários audaciosos e visionários consolidaram um modelo socioeconômico altamente competitivo e constantemente inovador, os Estados Unidos deixaram de ser apenas uma potência econômica de segundo escalão para se transformar na força econômica dominante de todo o planeta, no que se refere a produção, renda per capita e progresso tecnológico. O marco inicial desse processo pode ser localizado na década de 1880, quando a depressão causada pela guerra civil (1861-65) e pela recessão que se seguiu a ela foi finalmente superada.

Um dos traços marcantes dessa transformação foi a introdução de novos produtos de consumo no mercado, relativamente baratos e populares, que ajudaram a formar um novo tipo de consumidores, com renda suficiente para comprar mais do que alimentos, roupas e abrigos, elementos essenciais à sobrevivência. O produto-símbolo dessa nova era de consumo, que acabaria se expandindo para grande parte do mundo, foi o automóvel.

Desde que assumiram a dianteira desse processo, os empresários estadunidenses jamais perderam o posto. Pode-se mesmo dizer que jamais foram sequer ameaçados. O amplo recurso do Estado norte-americano à força e à guerra como forma de persuasão pode ter contribuído para lhes propiciar certo conforto e assegurar a ampliação dos mercados exteriores. Mas não pode ser considerado o elemento determinante dessa extraordinária vantagem comparativa que possuem em relação aos demais competidores. A liderança de muitas marcas e de muitos produtos estadunidenses se deve fundamentalmente às estratégias agressivas e ousadas de suas principais corporações. À frente desses grupos, pelo menos no início das atividades, estiveram homens determinados a atingir o topo e nele permanecer.

Talvez por isso mesmo muitos deles tenham demonstrado ainda certa preocupação de deixar um legado, de expandir para além das fronteiras do negócio a sua presença no mundo. Tornaram-se patrocinadores de diversas atividades culturais, acadêmicas e científicas: museus, universidades, instituições de pesquisa. É comum ver junto às principais obras de arte expostas nos maiores museus dos Estados Unidos (pinturas, esculturas, porcelanas, joias etc.) pequenas etiquetas indicativas de seus doadores. São sobrenomes famosos, são magnatas conhecidos do mundo dos negócios, que adquirem essas obras de arte e as doam para os melhores museus do país, onde ficam expostas ao público e ajudam a enriquecer a vida cultural de suas comunidades.

Quantos museus brasileiros têm isso? Quantas universidades, quantas escolas, quantos institutos de pesquisa? Na última semana, tomamos conhecimento de uma troca de mensagens entre executivos de uma grande empreiteira do Brasil, durante a última campanha eleitoral (2014), na qual expeliram os mais variados insultos à presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Sempre atacando a sua condição feminina e aquilo que consideravam os seus atributos físicos (como “gorda” e “dentuça”, por exemplo), esses mesmos executivos demonstraram toda a sua falta de educação e de ética, todo o seu desrespeito não só à própria presidenta como aos eleitores que a escolheram como vencedora.

Tomamos conhecimento dessas mensagens porque elas fazem parte das investigações sobre fraudes na Petrobras, e vazaram para a imprensa. A propósito: essa grande empreiteira em questão é uma das principais corruptoras nesse esquema fraudulento, e alguns dos executivos flagrados trocando as ditas mensagens estão presos…

Referência:

Richard S. Tedlow. 7 homens e os impérios que construíram. Tradução: Bazán Tecnologia e Linguística. São Paulo: Futura, 2002.