A mobilidade do automóvel

“(…) Em 1900, 2,5 toneladas de esterco e 230 mil litros de urina de cavalo eram depositados nas ruas de Nova York a cada dia. Pense nisso.” *

Há muito tempo, um conhecido novaiorquino me contou que a mãe dele, que viveu nessa época (início do século XX), só saía de casa com um pequeno véu cobrindo seu rosto. Era um hábito comum das mulheres, que tentavam se proteger da poeira fétida que qualquer ventinho podia levantar. O véu sobre o rosto impedia (ou tentava impedir) o contato dessas partículas imundas com os olhos, o nariz e a boca de quem caminhava pelas ruas da metrópole.

Recentemente, visitei uma cidadezinha no interior do Brasil, onde muitas charretes e carroças circulavam por toda parte. O fedor que exalava das ruas coalhadas de fezes e urina de cavalo era quase insuportável.

Quando nos conscientizamos dos danos que o excesso de veículos motorizados, nos dias de hoje, vem causando à atmosfera (poluição) e à mobilidade dos grandes centros urbanos (engarrafamentos), normalmente, nos esquecemos de que o automóvel foi uma solução brilhante e inovadora para inúmeros problemas de transporte que afetavam a vida de milhões de pessoas em todo o mundo. A sua rápida difusão se deveu, é claro, à capacidade de produzi-lo em grande escala (nas linhas de montagem das quais a Ford foi pioneira); mas também decorreu da aceitação quase imediata do “carro de passeio” como o item que melhor encarnaria o fetiche da era moderna de consumo de massa. Muito se falou que o ápice da felicidade humana poderia ser representado por “uma despensa cheia e um carro na garagem”! Ainda hoje, tal imagem do bem-estar humano continua fazendo adeptos.

O fato é que a sociedade do automóvel, apesar de todos os problemas que criou, está longe de chegar ao fim. Se hoje o carro de passeio é um desafio, sobretudo, para os administradores das grandes cidades, continua sendo, porém, uma fonte de desejos e fantasias para grandes contingentes populacionais no mundo inteiro. Além do status, em si, que o automóvel proporciona a seus (felizes) proprietários, ele é ainda sinônimo de independência e de mobilidade. Embora nas principais metrópoles esteja se tornando quase impossível circular de carro nos bairros centrais, quem dirige seu próprio veículo tem mais opções inclusive de escolher moradias mais aprazíveis e baratas, situadas fora dos perímetros mais valorizados do espaço. Morar onde antigamente se fazia o veraneio é um luxo que muitos estão se dando hoje em dia, graças ao automóvel.

Nossas soluções futuras terão de levar isso em conta. Não é possível retroceder à era da “mobilidade nas patas do cavalo”, embora seja mesmo fundamental encontrar soluções adequadas aos enormes problemas criados pela poluição e pelo congestionamento ininterrupto do tráfego. É cruel que um trabalhador precise gastar horas do seu dia indo para o trabalho e/ou a escola e voltando para casa. Ônibus, trens e metrôs lotados e sem nenhum conforto são muito mais problemáticos para a qualidade de vida das pessoas do que automóveis em excesso pelas ruas das cidades. Carros em exagero são um grave desafio, sem dúvida. Mas, transportes de massa inadequados e obsoletos são deveras mais prejudiciais à mobilidade urbana.

A solução da questão não passa pela pura e simples eliminação do automóvel, apesar de todos os dilemas envolvidos. Senão, acabaríamos cometendo aquele erro crasso do qual fala um velho ditado: “jogar fora a água da bacia com a criança junto”.

Referência:

*James J. Flink. The automobile age. (Cambridge: MIT Press, 1988, p.136) apud Richard S. Tedlow. 7 homens e os impérios que construíram. Tradução: Bazán Tecnologia e Linguística. São Paulo: Futura, 2002, p.29.