Um presidente barnabé

Era uma vez um país longínquo, cheio de encantos e de belezas naturais, que foi governado por um presidente barnabé. Apesar de seus títulos acadêmicos e de sua estada em algumas das melhores universidades da Europa, o presidente barnabé não tinha nenhuma classe e chegou mesmo a chamar aposentados de “vagabundos” e pessoas simples de “caipiras”. Em público.

Dizem as más línguas que ele comprou a própria reeleição (que era vedada pela Constituição vigente) distribuindo somas consideráveis de dinheiro a parlamentares, para que votassem a favor da emenda constitucional. Isso nunca foi provado, mas, a bem da verdade, nunca foi devidamente investigado. Dizem também que o presidente barnabé fez jorrar muito dinheiro para as principais empresas de comunicação que controlavam as mídias mais importantes do país, sob a forma de generosas verbas de publicidade governamental. Em sincero agradecimento, os meios de comunicação hegemônicos jamais fizeram qualquer campanha contra ele, vedando inclusive qualquer menção desabonadora à sua conduta no cargo (e fora dele também). Isso nunca foi provado, mas, a bem da verdade, nunca foi devidamente investigado.

Ao mesmo tempo em que esmagava o grosso do funcionalismo público, com suas “reformas do Estado” que pregavam redução drástica de gastos e enxugamento da máquina pública, restringindo inúmeras vantagens e congelando aumentos salariais, o presidente barnabé criou alguns arcabouços institucionais que seriam extremamente valiosos para ele próprio e para seus correligionários, sobretudo, os mais próximos. Certas carreiras como Polícia Federal, Ministério Público e instâncias do judiciário federal foram beneficiadas por medidas que previam ascensão profissional e elevação de salários, tornando-se uma espécie de elite funcional destacada do resto e alinhada com o projeto político-ideológico que o barnabé representava. Não deu outra: mesmo diante das denúncias e das provas cabais de inúmeros malfeitos praticados por esse grupo político, ele jamais foi molestado por investigações e processos de qualquer natureza, “nadando de braçadas” ao longo de décadas. Isso nunca foi provado, mas, a bem da verdade, nunca foi devidamente investigado.

De todos os danos causados pelas administrações malignas do presidente barnabé, os maiores estão associados às privatizações de empresas estatais, uma alienação do patrimônio público que não resultou em nenhum benefício direto e/ou indireto para a população. Empreendimentos de grande porte, alguns altamente lucrativos, foram transferidos para a iniciativa privada em negociações algumas vezes obscuras, que promoveram ampla distribuição de propinas e subornos, sem que uma voz solitária na mídia empresarial e no judiciário bradasse contra os desmandos. Tudo se falava à boca pequena, em razão do silêncio obsequioso daqueles que deveriam estar gritando. Isso nunca foi provado, mas, a bem da verdade, nunca foi devidamente investigado.

Um belo dia, começou a circular a informação de que o presidente barnabé estaria prestes a publicar um livro no qual revela ter tido conhecimento da existência de um esquema de corrupção na maior empresa do país, em relação ao qual não tomou nenhuma providência. Muito se tem especulado desde então sobre as razões que o teriam levado a fazer esta confissão de modo assim tão despreocupado. Uma delas é relativamente óbvia: a certeza de que contará, como sempre contou, com os obséquios daqueles que são encarregados de investigar e punir. Nada e/ou ninguém o ameaça de fato. Outras hipóteses, no entanto, exigem reflexão mais aprofundada. O presidente barnabé não é bobo. Embora tente passar, às vezes, uma imagem de bonomia e de simplicidade, ele costuma recorrer a artifícios políticos bem engendrados. Não à toa tem estado por trás de todas as iniciativas que tentaram desestabilizar seus sucessores. Por isso mesmo, uma das suposições que surgem para o súbito surto de sinceridade do presidente barnabé é que ele estaria, com essa revelação surpreendente, tentando abrir caminho para que se levantem suspeitas (e se conduzam averiguações) sobre os presidentes que o sucederam no cargo. Numa linha do tipo: “se eu soube [do esquema corrupto], eles souberam também”. Com a sua confissão nada ingênua, ele estaria favorecendo (e, por que não dizer, incitando?) novas investigações e denúncias contra esses governantes, mas, contando, é claro, com o beneplácito do judiciário (e da mídia) em relação a si mesmo, como sempre aconteceu. Conhecer esquemas de corrupção e não combatê-los constitui delito de prevaricação, algo inadmissível para um presidente da República. Para quem está no exercício efetivo do cargo, o risco é sempre maior. Talvez, seja isso que o barnabé esteja buscando. Isso nunca foi provado, mas, a bem da verdade, nunca foi devidamente investigado.