13º salário: gastar ou poupar?

Todo final de ano, no Brasil, os noticiários começam a divulgar o nível “preocupante” de endividamento das pessoas (e, por conseguinte, das famílias). Repórteres variados cercam os incautos pelas ruas e perguntam como eles pretendem gastar o seu 13º salário (gratificação natalina). Grande número desses entrevistados promete quitar as dívidas. É quase uma promessa cívica que os noticiários, sobretudo, os da televisão, parecem aguardar com imensa expectativa. “Já que vai entrar um dinheirinho extra na conta, o mais apropriado é pagar o que deve”, esse é o mantra repetido monotonamente pelo jornalismo brasileiro aos cidadãos. Quase um conselho, ou, em alguns casos, praticamente uma ordem! Sempre falando em nome dos credores!

Talvez, falte abordar as razões desse endividamento recorrente, mas isso seria esperar demais. Por que as pessoas gastam mais do que ganham? Por que compram sem parar? Uma senhora respondeu candidamente a um repórter, outro dia, que o problema era o cartão de crédito: “com ele na mão, a gente vai gastando sem pensar”. Mas, não é só isso. A grande armadilha é que o consumo tem sido tomado como a principal fonte de satisfação das pessoas. Na maior parte dos casos, as tarefas executadas e as funções desempenhadas por aqueles que trabalham nada têm de inerentemente interessante. Em situações extremas, elas podem chegar mesmo a ser humanamente degradantes. Tanto num caso quanto noutro, os trabalhadores se ressentem do tempo (enorme) que dedicam a fazer coisas de que não gostam e que não constituem uma fonte de realização pessoal e/ou profissional. Tudo se resume a ganhar a vida. Daí, o pagamento se torna a única justificativa relevante para todo o sacrifício que envolve o trabalho.

Se o dinheiro é a recompensa que recebem pelo sofrimento que o trabalho lhes causa, em geral, os indivíduos tendem a extrair dessa recompensa o prazer, a satisfação e a realização que não obtiveram de outra forma. O respeito, o reconhecimento e a estima que esperam alcançar em suas relações com os outros são deslocados para a posse de bens materiais — ou seja, quanto mais variados e mais caros esses bens, mais valorizados e realizados esses indivíduos poderão se sentir.

Na medida em que esse deslocamento é apenas um subterfúgio, um artifício cujo resultado é meramente passageiro, os trabalhadores/consumidores nunca se sentem verdadeiramente satisfeitos. Passam de uma coisa a outra, de um modismo a outro, de um modelo a outro, nessa ambiguidade incessante de comprar para satisfazer necessidades que, no entanto, estão deslocadas. Não é à toa que, todos os anos, os noticiários brasileiros se inquietam com o nível de endividamento das pessoas…

“(…) Procurando continuamente alguma forma nova de superar sua fome emocional [o consumidor é] proverbialmente inquieto, sempre sensível a novas modas e manias, a novos produtos e modelos — e a novos tranquilizantes e analgésicos.” (pp.354-355)

Referência:

Paul A Baran & Paul M. Sweezy. Capitalismo Monopolista. Ensaios sobre a ordem econômica e social americana. Tradução: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966.