Vivendo em tempos sombrios

Outro dia, entrei num táxi que mais parecia uma alegoria carnavalesca de mau gosto. O painel do carro estava totalmente coberto por imagens de santos, de vários tamanhos. Tinha São Jorge, São João Batista, São Judas Tadeu, Santo Expedito, Santo Antônio, e muitos outros, além de inúmeras versões de Jesus Cristo e da prodigalidade de Nossas Senhoras. Até o teto do carro estava tomado por adesivos gigantescos de santos coloridos. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas. Logo indaguei do motorista se os evangélicos não se indignavam ao entrar naquele táxi, posto que não sejam favoráveis à “adoração de imagens”. Lembrei inclusive daquele episódio tantas vezes exibido na TV de um pastor chutando uma imagem de Nossa Senhora. Ele me respondeu que não, que aquele episódio estava superado e que os evangélicos encaravam com toda naturalidade aquela sua alegoria estrondosa. Melhor assim, pensei. A tolerância e o respeito às diferenças são bem mais convenientes.

É claro que a pregação daquele motorista não se restringiu à profusão de imagens de santos por todos os cantos do carro. Ele não se fez de rogado e passou boa parte do nosso percurso recitando trechos da Bíblia, para nos “iluminar”. Foi a minha vez de ser tolerante e suportar tudo aquilo com a devida polidez. Por sorte, não demorou tanto!

Não pude deixar de recordar uma reflexão interessante sobre o papel fundamental que a religião exerce na ideologia dominante do capitalismo. Hoje, as várias vertentes do cristianismo, por exemplo, disputam seguidores utilizando-se de todos os recursos de mídia que estão disponíveis: rádios, canais de TV, jornais, revistas, livros, discos. E oferecem os seus ‘produtos’ também da forma mais diversificada possível, a fim de atingir todos os públicos. Muitos pregadores (padres e/ou pastores) se convertem em celebridades e partilham o mesmo tipo de fama e de sucesso de outros artistas. Em certa medida, esses ‘produtos’ religiosos configuram mais um item da cesta de consumo da população em geral. Desse modo, torna-se bastante difícil identificar o limite exato entre a espiritualidade que se deseja de fato alcançar, quando se busca a religião, em meio a tantas atribulações, e o engodo causado pelas exacerbações e parafernálias do mercado da fé.

“(…) O slogan ‘Cristo Salva’, em numerosos cartazes de beira de estrada, as atividades publicitárias em massa das igrejas dos bairros, as exortações cartelizadas para ingressar numa das instituições eclesiásticas que existem em toda parte, as mensagens espirituais despejadas em milhões de lares pelos jornais e pelas ondas aéreas — tudo isso pouco tem a ver com a fé e a moral do povo, e ainda menos com sua percepção da realidade. O que se está pondo à venda no mercado religioso são receitas para adquirir a ‘capacidade de pensamento positivo’ ou para alcançar a ‘paz de espírito’ — em pé de igualdade com as bebidas e as pílulas tranquilizantes, cruzeiros oceânicos e recantos de veraneio.” (p.337 grifo nosso)

Referência:

Paul A. Baran & Paul M. Sweezy. Capitalismo Monopolista. Ensaios sobre a ordem econômica e social americana. Tradução: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1966.