De impérios e de imperialismo

“(…) entre 1880 e 1914, a maior parte do mundo, à exceção da Europa e das Américas, foi formalmente dividida em territórios sob governo direto ou sob dominação política indireta de um ou outro Estado de um pequeno grupo: principalmente, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica, EUA e Japão.” (p.88)

A expansão dos impérios coloniais nas últimas décadas do século XIX foi uma das experiências mais marcantes do nosso tempo. A imagem cristalizada de um território global dividido entre as principais potências deixou suas marcas de forma indelével, não apenas no debate histórico, como na intensificação dos conflitos que desaguaram em duas guerras mundiais.

Muito se discutiu, desde então, sobre a natureza desse processo histórico que deixou marcas tão profundas em toda a humanidade. Com a publicação de seu texto clássico sobre o imperialismo (Imperialismo – etapa superior do capitalismo), em 1916, Lênin passou a figurar como o grande balizador da discussão. A partir dessa publicação, o debate ocorreu principalmente na disputa entre o leninismo e o antileninismo: o ponto central da discussão, portanto, era estabelecer ou negar a relação entre as formas avançadas do capitalismo e a expansão imperial — ou seja, o imperialismo. As raízes econômicas do imperialismo e o impacto negativo da dominação estrangeira sobre vastas áreas do planeta, assim, se constituíram na parte mais essencial desse embate.

Sem pretender aprofundar em demasia a discussão, admitimos aqui que a divisão do mundo entre as potências capitalistas teve uma clara dimensão econômica. Qualquer estudo minimamente coerente sobre o processo de industrialização britânico, por exemplo, será capaz de revelar a importância decisiva que teve para o advento e a consolidação da economia industrial da Grã-Bretanha o seu domínio sobre a Índia. Não à toa, ela foi chamada de “a joia da coroa”. Dali, proveio o algodão bruto que alimentou os teares movidos a vapor que fizeram a fama e a fortuna dos comerciantes de tecidos, que tinham entre seus principais mercados justamente a Índia. Dali, proveio também o chá em grande escala, que passou a ser consumido diariamente por praticamente toda a população britânica. Transformado em bebida oficial do reino, chegou ao ponto de transformar-se numa verdadeira marca cultural, e de definir inclusive os horários das refeições e dos encontros sociais (o famoso “chá das cinco” jamais foi uma ficção). Não seria exagero afirmar que quase toda a geopolítica do império britânico girou em torno do seu esforço para resguardar esse tesouro precioso das ambições rivais (foi assim em relação à França, que algumas vezes ameaçou confrontar esse domínio; foi assim em relação à Rússia, cuja proximidade geográfica sempre incomodou a chancelaria britânica).

Muito já se ponderou sobre a relatividade desse argumento no que se refere a outras áreas coloniais, cuja relevância econômica jamais poderia ser comparada à da Índia, por exemplo. Houve algumas ocupações territoriais que se revelaram pouco ou nada rentáveis do ponto de vista econômico, no sentido mais estrito do termo. Todavia, a mera presença da bandeira nacional de uma potência em determinado território já seria suficiente para alijar qualquer concorrente dali. Esse era, em parte, o sentido da assim chamada “corrida imperialista”. Não apenas garantir territórios e conquistas, mas ainda eliminar potenciais adversários da disputa. As tensões originadas na Europa eram quase que imediatamente transferidas para as áreas coloniais, onde se intensificavam e se agudizavam os conflitos. No limite, acabaram levando à guerra.

A dimensão econômica do imperialismo não se restringiu à Índia ou às demais colônias britânicas. Ela se revela com mais clareza quando se observa a existência de uma relação que se poderia chamar de “complementaridade” entre as economias das respectivas metrópoles imperiais e as áreas coloniais e/ou dependentes. Os processos produtivos implantados ou expandidos pelos colonizadores em seus territórios ultramarinos buscavam, sobretudo, os produtos mais necessários ao consumo tanto dos indivíduos quanto dos empreendimentos industriais e de serviços — petróleo, borracha, minérios (estanho, cobre, metais preciosos); e produtos alimentícios como carnes, cereais, frutas, chá e café. Em troca disso, os mercados coloniais eram abastecidos de outros bens industriais e de serviços, produzidos nos países dominadores.

Embora alguns aspectos do texto seminal de Lênin sobre o imperialismo mereçam reparos (como, por exemplo, sua ênfase na necessidade da exportação de capitais pelas potências capitalistas, que não se confirmou), a sua observação acerca da ampliação da busca de mercados por parte dos países europeus revelou-se certeira. As tensões cada vez mais profundas dentro da Europa, em grande parte decorrentes das disputas oriundas da competição industrial e comercial, do protecionismo acirrado e da pretensão de estabelecer a hegemonia política sobre o continente, exacerbavam as animosidades e ampliavam o escopo de situações propícias às hostilidades. Os conflitos desencadeados no meio europeu rapidamente se expandiam para os territórios coloniais e contribuíam para tornar o ambiente político ainda mais inquietante.

“(…) o ‘novo imperialismo’ foi o subproduto natural de uma economia internacional baseada na rivalidade entre várias economias industriais concorrentes, intensificada pela pressão econômica dos anos 1880.”  (p.101)

O desenrolar desse quadro mais amplo de tensões e disputas foi, como é amplamente sabido, a emergência de uma era de guerras mundiais que sacrificaria a Europa durante décadas. Lutando umas contra as outras, e arrastando aliados e colônias, as potências capitalistas europeias mergulharam numa torrente de destruição que lhes custaria muito caro em termos populacionais e materiais. Hoje, quando vemos essas mesmas potências envolvidas de novo em conflitos armados, mesmo que agora seja fora do seu continente, não podemos deixar de perguntar: por que tudo isso outra vez? Sem querer simplificar demasiadamente o problema, mas levando em conta que o sistema econômico não mudou e que as áreas hoje mais afetadas pelo jogo do poder econômico e político estejam no Oriente Médio, não é difícil que uma resposta plausível seja: petróleo.

Referência:

Eric J. Hobsbawm. A Era dos Impérios, 1875-1914. Tradução: Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Revisão técnica: Maria Celia Paoli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.