Os meninos de São Paulo

Faz algumas semanas que temos recebido uma verdadeira lição de cidadania dos estudantes secundaristas de São Paulo. Diante de um projeto do governo do Estado (Geraldo Alckmin, PSDB), que previa a “reorganização” do ensino médio, com o fechamento de 94 escolas, e a respectiva transferência de alunos e professores para outras unidades, os meninos resolveram enfrentar a mudança prevista com protestos e questionamentos (“não fechem a minha escola” era o coro que entoavam). A isso, o governo do Estado respondeu com a truculência habitual — repressão policial e mais ameaças. Os adolescentes, então, numa demonstração vigorosa de seus brios juvenis, iniciaram a ocupação das escolas destinadas ao fechamento. Resistiram e têm resistido com tamanha bravura, que o governador foi obrigado a rever sua decisão e acabou assinando um decreto com a suspensão temporária do tal projeto de “reorganização”. Dizem os jornais que ele vai promover o diálogo com alunos, pais e professores, no intuito de realizar as mudanças previstas com mais serenidade. A ver.

Qualquer que seja a proposta pedagógica envolvida no caso, a simples ideia de fechar escolas (94) tende a causar uma péssima impressão. Num país como o Brasil, cujo déficit educacional acumulado durante décadas apenas começou a ser enfrentado nos últimos anos, fechar escolas é uma proposta digna de todo rechaço. Nós deveríamos estar propondo a abertura de mais escolas, de mais vagas, de mais turnos. Nós deveríamos estar discutindo meios de formar mais professores e de lhes dar uma remuneração mais elevada, condizente com as tarefas de significativa relevância social que exercem. Mas deparamos com um projeto que pretende justamente eliminar dezenas de colégios tradicionalmente voltados para o ensino médio, porta de entrada no futuro, na vida adulta e na universidade. Como assim?

Não li o projeto proposto pelo governo de São Paulo. As informações que fui achando pelo caminho eram meio desencontradas: ora em defesa do projeto, ora em franca discordância dele. Talvez, tenha faltado mesmo a iniciativa por parte das autoridades paulistas de abrir o diálogo com a sociedade e mostrar os principais pontos a serem defendidos em sua proposta. Nas poucas fotos que vi (e não foram muitas), as escolas em questão eram prédios muito bonitos e bem instalados, alguns inclusive com uma arquitetura digna de nota, outros bem arborizados e aprazíveis.

Qualquer educador minimamente instruído sabe que o processo de aprendizagem envolve o próprio ambiente onde se dá. Não se trata apenas do professor na sala de aula com seus alunos, por mais empenhados que todos estejam em fazer com que tudo dê certo. O ambiente escolar é fundamental — e isso significa o prédio em si, as instalações, o conforto, a beleza do lugar. E ainda as demais facilidades articuladas com o deslocamento, a acessibilidade, a proximidade. Todos aqueles que participam da ação educacional sabem da importância que o ambiente escolar costuma ter no desempenho de alunos e professores. Isso não é nenhuma novidade.

Simplesmente eliminar todos esses aspectos importantes da relação dos estudantes com suas escolas em nome de um critério técnico qualquer, por mais defensável que seja, é desconsiderar alguns princípios pedagógicos indispensáveis.

Levantou-se a questão da especulação imobiliária embutida no projeto de fechamento de escolas do governo de São Paulo. Não sei se já houve compromissos firmados para a venda dos imóveis em questão. Mas, a gentrificação — valorização de áreas e terrenos urbanos resultante de investimentos vultosos, tanto públicos quanto privados, em melhorias e infraestrutura — é uma tendência inelutável nas grandes cidades do mundo. Novos usos do solo, sobretudo, em decorrência da construção de novos espaços comerciais e residenciais nessas áreas e terrenos, provocam o afastamento daqueles cuja renda mensal não acompanha os custos de viver ou de manter um negócio nas regiões gentrificadas. Não é difícil observar processos desse tipo em diversos lugares do mundo — uma das suas características mais marcantes tem sido a transformação de antigas zonas portuárias degradadas em novas opções tanto residenciais quanto comerciais, para grupos de alta renda. O “Porto Maravilha”, no Rio de Janeiro, é uma delas.

Seja como for, os meninos de São Paulo nos ensinaram o valor de resistir, de reivindicar, de lutar para não perder direitos. Espancados e torturados pela polícia, ameaçados pelo governo do Estado, desmoralizados pela imprensa de direita, eles souberam se manter unidos e firmes em seus propósitos. É verdade que também receberam apoio — e tenho certeza de que a acolhida que tiveram de seus pais foi fundamental para que continuassem resistindo. Presto-lhes aqui uma singela homenagem, por tudo que me ensinaram, por tudo que me fizeram ver. Sei que a luta apenas começou para eles. Mas tenho certeza de que tiveram um batismo memorável, que lhes dará garra e coragem para os muitos embates que estão por vir.

Salve os meninos de São Paulo!