Raízes

Lendo a biografia de José Saramago, é impossível não se impressionar com o quadro social retratado pelo biógrafo, no qual nasceu e cresceu para o mundo esse que foi um dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Pobre, como a grande maioria do seu povo, Saramago escreveu algumas vezes sobre “a casa de chão de terra batida dos avós maternos, camponeses humildes e analfabetos numa aldeia perdida no meio do Ribatejo”. Em sua memória, ficaram muitas lembranças da avó Josefa e do avô Jerônimo, dos pés descalços, dos banhos de rio, das escaladas nas árvores, pois, mesmo depois de mudar-se com os pais para Lisboa, onde buscaram amenizar as dificuldades e achar uma vida melhor, o menino sempre voltou à pequena aldeia de Azinhaga para ali passar as férias.

Portugal, que havia constituído um dos maiores impérios coloniais da era mercantilista (séculos XVI-XVIII), todavia, chegara ao século XX como “um país essencialmente agrícola, rural e atrasado”, no qual a metade da população se ocupava na agricultura, tendo taxas reduzidas de participação na indústria, no comércio e nos serviços. Alguns de seus indicadores sociais e econômicos mais importantes, na década de 1930, equiparavam-se aos de diversos países do Terceiro Mundo:

“(…) A maioria do quase 1,3 milhão dos que trabalhavam na agricultura era constituída por pequeníssimos proprietários ou assalariados que viviam com grandes dificuldades. A taxa de analfabetismo andava em torno de assustadores 61,8%. A de mortalidade infantil situava-se em 143,6 por mil, e a expectativa média de vida era apenas de 47 anos.”  (Lopes, p.10)

Criado numa família de parcos recursos, Saramago teve acesso restrito aos bens culturais, inclusive os livros. “A mãe era analfabeta e boa parte dos outros parentes próximos também.” Ele mesmo contou que precisou fazer um grande esforço de leitura nas bibliotecas de Lisboa, das quais se tornaria frequentador assíduo, pois não pôde contar com uma orientação segura sobre o que ler — então, lia de tudo. Um dos episódios mais comoventes da sua infância foi uma ocasião em que ficou doente e acamado por longo período, quando sua mãe, procurando atender a um pedido do filho, percorreu toda a vizinhança em busca de livros que lhe pudessem ser emprestados. E trouxe vários.

Esse quadro de penúria cultural, no entanto, não era uma exclusividade da família pobre em que Saramago nascera. A bem da verdade, apesar das muitas dificuldades, o menino conseguiu seguir os estudos numa trilha de continuidade que era vedada à maioria da população. Sendo filho único (o irmão mais velho morrera em tenra idade) e contando com um enorme esforço dos pais, chegou a completar a escola técnica, com habilitação em serralheria mecânica. Mas revelou, em algumas passagens de suas memórias (Cadernos de Lanzarote), que muitas vezes precisou recorrer à “sopa dos pobres” para aplacar a fome. Mesmo assim, num contexto em que a taxa de analfabetismo do país superava os 60% e em que apenas 34% das crianças entre 7 e 14 anos estavam alfabetizadas, Saramago foi bem longe.

Lendo isso, é impossível não questionar os (des)caminhos tomados pela sociedade portuguesa. Dona de um dos impérios coloniais mais ricos e exuberantes da história, como pôde legar um quadro como esse de tamanha penúria e de tanta dificuldade para o seu povo? Pois é no processo histórico de expansão do capitalismo na Europa que se podem encontrar algumas pistas iluminadoras sobre esse paradoxo. Incapaz de se reestruturar diante da queda do Antigo Regime e da perda de territórios importantes de seu vasto império, como o Brasil, Portugal se integrou à nova dinâmica mundial liderada pela Grã-Bretanha como um satélite de “brilho opaco”, submisso e dependente, cujas lideranças aceitaram o papel secundário que lhes foi atribuído.

“(…) As ‘forças vivas’ e as suas elites políticas tinham falhado a vaga industrializante da Segunda Revolução Industrial no transcurso do século XIX para o século XX e, com isso, tinham aberto uma distância irremediável da economia portuguesa relativamente ao centro do sistema capitalista internacional. O capitalismo português tornara-se periférico e fortemente dependente, sobretudo da Grã-Bretanha, que se afirma, no início do século XIX, como a principal fornecedora, a principal compradora, a principal credora, a principal investidora e a principal transportadora da economia portuguesa.”  (Costa et alli., p.47)

Diante desse quadro de equilíbrio instável e de perspectivas cada vez mais sombrias, reativou-se o domínio colonial português nos territórios africanos. Como um reforço imprescindível às condições socioeconômicas portuguesas, cada vez mais precárias face ao avanço da industrialização capitalista, o regime colonial recrudesceu e, ao mesmo tempo, contribuiu para dar uma sobrevida àquelas estruturas que teimavam em não se reformular. Resguardados em seus privilégios, graças ao apoio incondicional do Estado português, os empreendimentos que se articulavam ao domínio colonial permaneceram arraigados a formas e procedimentos arcaicos, às vezes até anacrônicos, e deixaram, com isso, de irrigar e modernizar as estruturas do país. Não à toa, atravessaram boa parte do século XX mantendo as velhas formas de organização econômica e social.

[final do século XIX] É o início do ciclo africano do império, do recurso à muleta colonial, isto é, à reserva administrativa dos mercados coloniais africanos como forma de escoar o excedente (invendável nos mercados internacionais) das principais produções industriais e agrícolas metropolitanas: o vinho comum, depois a têxtil algodoeira e uma miríade de artigos cuja colocação colonial era a condição de sobrevivência de centenas de empresas.” (Costa et alli., p.48)

Referências:

Costa, Jorge; Luís Fazenda; Cecília Honório; Francisco Louçâ; Fernando Rosa. Os Donos de Portugal. Cem anos de poder econômico (1910-2010). 7ª edição. Porto: Edições Afrontamento, 2011.

Lopes, João Marques. Saramago. Biografia. São Paulo: Leya, 2010.