Aos inocentes

Meu pai foi um dos fundadores de uma das instituições públicas mais importantes do País. Quando minha mãe morreu, e eu fui até lá para dar baixa na pensão que ela recebia como viúva, qual não foi a minha surpresa ao ver que o número do registro funcional do meu pai era 06?! Ele fora o sexto funcionário registrado naquela instituição, há muito, muito tempo. Em sua longa carreira, ele participou de inúmeros eventos marcantes, e também exerceu cargos de chefia e de direção por algumas vezes.

Numa dessas ocasiões, quando meu pai dirigia um dos departamentos daquela instituição, precisou enfrentar um assédio dos mais agressivos, porque barrou com rigor uma tentativa torpe de negociata. Quando chegou às suas mãos uma proposta de financiamento que deveria ser liberado tendo várias trapaças embutidas em seu miolo, ele simplesmente disse não e impediu que o esquema fosse adiante. O tempo fechou. Não sei de todos os detalhes, mas me lembro vivamente do mal estar que se abateu sobre os meus pais. Minha mãe chorou muito diante das ameaças que começaram a fazer ao meu pai. Nós, que ainda éramos pequenos, fomos terminantemente proibidos de atender ao telefone, porque era esse o principal meio de comunicação que utilizavam para ameaçar e intimidar o meu pai. Os cuidados conosco foram redobrados: recomendações expressas à escola para que não nos deixassem sair com ninguém que não fosse minha mãe e/ou meu pai, proibição radical das brincadeiras na rua, vigilância permanente sobre o portão. Qualquer estranho que aparecesse na área logo era tratado como um potencial suspeito. Foram dias difíceis. Mas meu pai contou com muito apoio da polícia e dos seus colegas, e em algumas semanas tudo serenou.

Havia também aquelas “propostas” sutis com que tentavam envolver o meu pai nos esquemas, a fim de liberar os financiamentos. Ele cansou de devolver “presentes” que mandavam para nossa casa. Um dos mais impressionantes (para mim, pelo menos) foi um daqueles gigantescos aparelhos que tinham rádio, vitrola e televisão, tudo numa coisa só! Fiquei estupefata olhando para aquela geringonça, mas minha mãe não me deixou sequer encostar no móvel, pois sabia que meu pai mandaria devolver. Não deu outra. No dia seguinte, logo de manhã, ele ligou para a loja e pediu que viessem buscar o “presente” porque não poderia aceitá-lo. Tempos depois, veio um belíssimo conjunto de anel e broche de brilhantes para minha mãe, um mimo de deixar qualquer um de queixo caído. A reação do meu pai foi a mesma de sempre: devolução imediata. Pois ele sabia muito bem o que estava em jogo com toda aquela “gentileza”. Mais adiante, vieram duas passagens de 1ª classe para Paris, que tiveram o mesmo destino: retorno ao remetente, não era possível aceitá-las. E cestas de Natal, ovos de Páscoa, garrafas de vinho e de whisky, tudo que o consumo de luxo podia ofertar e que o meu pai se encarregava de retornar aos “doadores” inconvenientes. O assédio era constante, ainda que mudasse de forma.

Quando eu já estava na adolescência, fiz amizade com uma menina da escola, que infelizmente durou muito pouco. O pai dela, seu Isaías, logo procurou o meu pai para propor uma negociata. Até onde fiquei sabendo, seu Isaías era “testa de ferro de gente graúda”, como dizia o meu pai. E, por isso mesmo, recebeu o tratamento adequado. É claro que o atrito gerado entre os dois acabou afetando a nossa convivência e nós acabamos nos afastando. Apesar disso, continuei tendo notícias esporádicas da minha agora ex-amiga e pude perceber que sua família subira muito na vida. Apartamento de frente para a praia do Leblon, casas de veraneio em Teresópolis e em Búzios, carros de luxo, viagens internacionais aos quatro cantos do mundo! E o mais interessante era que ninguém ali precisava trabalhar. Enquanto isso, nós continuávamos morando no mesmo endereço e mantendo o velho (e bom) padrão de vida.

Dedico este breve comentário àqueles que chamei de inocentes, porque acreditam (ou fingem acreditar) que a corrupção no Brasil começou com a chegada do PT ao poder. E, certamente, vai acabar quando o partido for tirado de lá. Lamento dizer aos inocentes que não é bem assim. Os fatos que acabo de narrar aqui se passaram com a minha família, no começo dos anos 1960 e um pouco depois. Não creio que tenham sido fatos isolados, lamentavelmente, por tudo que li, ouvi dizer e aprendi sobre a história do Brasil. O PT não pode ficar isento de seus erros e equívocos. Mas não pode também ser acusado de ter inaugurado a ladroeira entre nós. Eu sou testemunha disso.