Chico Buarque

Dentre tantas coisas marcantes que Chico falou em seu belíssimo depoimento ao cineasta Miguel Farias Jr. (Chico — artista brasileiro), uma chamou especialmente a minha atenção. Ao contrário do que muitos gostam de afirmar, para Chico, o Brasil não piorou, o Brasil melhorou. Costuma-se dizer agora que o país perdeu expressão e significado, que algumas de suas mais caras tradições e simbologias foram substituídas pela vulgaridade, pelo mau gosto, pela falta de discernimento. Essa mudança se expressaria em todas as esferas da vida social e teria a sua face mais evidente nos aeroportos — “cada vez mais parecidos com as rodoviárias”, segundo a avaliação ressentida de alguns.

O que Chico observou com sagacidade exemplar foi que o Brasil de agora representa com mais abrangência a sua totalidade — antes, a população como um todo estava sub-representada, uma minoria elitizada tinha voz e vez para falar por todos. O exemplo que ele deu foi o da bossa nova, um dos gêneros musicais mais importantes da história brasileira, que ajudou a mostrar ao mundo alguns dos melhores talentos artísticos do País. Fantástico, sem dúvida, mas incapaz de revelar o conjunto da arte musical brasileira e, portanto, impossibilitado de responder por sua totalidade. Desse modo, a inexistência de um movimento como o da bossa nova, nos dias de hoje, não é um sinal de piora. E pode ser visto como um sinal de melhora, na medida em que vários gêneros se articulam e se interpõem no cenário artístico nacional, dando vez e voz a tantos talentos que ficavam escondidos. Tudo vai depender do ponto de vista que se escolhe.

O fenômeno da inclusão social é tão dinâmico que interfere em praticamente todas as searas da vida. Foi isso que Chico me ensinou. Ainda que não tenha dito as coisas com essas palavras.

Pois bem, ontem, vi uma reportagem interessante sobre um dos mais renomados intelectuais brasileiros do século XX. Sua viúva e suas duas filhas comandavam os depoimentos, elucidando aspectos marcantes da vida pessoal e profissional daquele homem talentoso que havia colecionado amigos, honrarias e prêmios. Bem no final, uma das filhas exibiu todo o seu ressentimento diante deste Brasil de hoje que, para ela, “não valoriza os seus verdadeiros intelectuais, não presta as devidas homenagens aos seus grandes profissionais, se apequenou e se tornou medíocre, não tendo mais esperanças nem futuro”. O tipo de diagnóstico que exala pessimismo e desencanto.

Na hora eu me lembrei do Chico. E também me lembrei de que essa mesma senhora, tão ressentida com a perda de centralidade do grupo ao qual julga pertencer, veio a público debochar dos trejeitos da presidenta Dilma Rousseff no ato de posse do seu segundo mandato, em 1º de janeiro de 2015. Ela desancou a presidenta, por seu jeito de andar e de se apresentar. Correu as redes sociais com seu escárnio e com sua maledicência, recebendo muitas críticas, a bem da verdade. Eu achei ridículo. E fiquei me perguntando qual seria a razão de tamanho despeito. Hoje, eu entendi.