Ellen M. Wood (1942-2016)

Foi com imenso pesar que recebi a notícia da morte de Ellen M. Wood, ocorrido nesta semana. Mais um expoente do marxismo se despede de nós. Há alguns anos, foi-se Paul M. Sweezy, um dos grandes mestres da teoria do desenvolvimento capitalista. Tempos depois, foi a vez de Eric J. Hobsbawm, seguramente, um dos maiores historiadores da nossa era. Como grande admiradora de Ellen Wood (assim como dos outros dois mestres citados), presto-lhe aqui uma pequena homenagem fazendo este registro.

Tive o prazer de conhecê-la pessoalmente, em 2003, quando veio ao Brasil para fazer uma série de palestras sobre o tema ao qual dedicou toda uma vida de estudos e reflexões — o capitalismo. Acompanhada de alguns alunos que também se encantaram com os seus ensinamentos, vivi um dos momentos mais gratificantes da minha trajetória profissional, quando pude conversar com ela e lhe falar da inestimável contribuição que nos dava com suas análises profundas e originais sobre o tema. Desse encontro, ficaram as lembranças marcantes de uma aula brilhante e um livro autografado que guardo como um tesouro!

Embora Ellen Wood trabalhe num nível de abstração bastante sofisticado, é possível extrair de suas análises uma compreensão clara e coerente sobre a origem do capitalismo e sobre as suas características distintivas mais significativas. A bem da verdade, ela sempre demonstrou uma preocupação constante com a necessidade de mostrar que, ao contrário do que muitos sempre argumentaram, o capitalismo é um fenômeno histórico relativamente recente. Isto é, embora alguns autores tentem nos convencer do contrário, não se trata de uma questão meramente “quantitativa”: o capitalismo não surgiu e se expandiu quando lhe foram “tiradas as amarras”, como se tivesse estado sempre ali de forma embrionária, à espera de um momento de redenção. O eixo dessa explicação é o mercado — ou seja, o capitalismo representaria um aumento quantitativo, uma expansão contínua dos mercados e uma mercantilização acentuada da vida econômica.

“A maneira mais comum de explicar a origem do capitalismo é pressupor que seu desenvolvimento foi o resultado natural de práticas humanas quase tão antigas quanto a própria espécie, e que requereu apenas a eliminação de obstáculos externos que impediam sua materialização.” (p.21)

O elemento de força implícito nesse tipo de explicação é a presunção de que a organização da sociedade em moldes capitalistas é um dado natural e universal, que apenas amplia e consolida características e condições inatas da espécie humana. Desse ponto de vista, o capitalismo seria o modelo de organização socioeconômica para o qual tende, naturalmente, toda a humanidade. O que sempre foi, portanto, sempre será.

O que Ellen Wood se esforçou para demonstrar — e o fez com um brilhantismo inquestionável — foi que o capitalismo nasceu num lugar específico (Inglaterra) e numa época recente da história (séculos XVI a XVIII). Nesse processo de formação, que foi também um processo de transformação das condições socioeconômicas preexistentes, o mercado se converte no elemento determinante de toda a ordem econômica e social. Longe de ocorrer apenas um acréscimo quantitativo das relações de troca, no capitalismo tudo é mercadoria produzida para fins de troca e todos necessitam entrar no mercado para obter os seus próprios meios de subsistência e de autorreprodução.

“No capitalismo, entretanto, o mercado tem uma função distinta e sem precedentes. Praticamente tudo, numa sociedade capitalista, é mercadoria produzida para o mercado. E, o que é ainda mais fundamental, o capital e o trabalho são profundamente dependentes do mercado para obter as condições mais elementares de sua reprodução. Assim como os trabalhadores dependem do mercado para vender sua mão-de-obra como mercadoria, os capitalistas também dependem dele para comprar a força de trabalho e os meios de produção, bem como para realizar seus lucros, vendendo os produtos ou serviços produzidos pelos trabalhadores. Essa dependência do mercado confere a este um papel sem precedentes nas sociedades capitalistas, não apenas como um simples mecanismo de troca ou distribuição, mas como o determinante e regulador principal da reprodução social.” (p.78)

Além disso, no capitalismo, o mercado funciona com base em três imperativos específicos: competição, maximização de lucros e acumulação de capital. Desses imperativos, que são característicos do capitalismo, decorre um modelo de produtividade crescente, cujo resultado final é sempre a concentração cada vez maior do poder capitalista em poucas mãos, numa escala crescentemente global. Reconhecer isso e criticar a suposição pura e simples de que o capitalismo é o “modelo mercantil” em seu ápice, foi uma das grandes contribuições de Ellen Wood a uma reflexão mais abrangente e mais profunda sobre o nosso tempo.

Referência:

Ellen Meiksins Wood. A Origem do Capitalismo. Tradução: Vera Ribeiro. Apresentação: Emir Sader. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

Outras obras da autora:

Ellen Meiksins Wood. O Império do Capital. Tradução: Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2014.

Ellen Meiksins Wood. Democracia contra Capitalismo. A renovação do materialismo histórico. Tradução: Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2003.

Ellen Meiksins Wood & John Bellamy Foster. Em Defesa da História. Marxismo e Pós-Modernismo. Tradução: Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

Ellen Meiksins Wood. The Pristine Culture of Capitalism. A Historical Essay on Old Regimes and Modern States. London/New York: Verbo, 1991.