Sobre Davos

Considero imperdível o livro de Andy Robinson intitulado Um repórter na Montanha Mágica. Como a elite econômica de Davos afundou o mundo (Tradução: Luís Carlos Moreira da Silva. Rio de Janeiro: Apicuri, 2015). De forma ágil e bem humorada, o autor vai nos conduzindo aos bastidores de Davos, sede do encontro anual promovido pelos grandes capitalistas do mundo, destinado a convencer o distinto público do quanto esses biliardários estão preocupados com a sorte do planeta e de seus habitantes. Enquanto o Fórum Econômico Mundial exibe os seus palestrantes ilustres e atualiza a sua agenda hipócrita, em pleno inverno coberto de neve na Suíça, a maior parte da população mundial se debate contra a pobreza, o desemprego, a fome e o abandono. Talvez nunca, como hoje, essa ideia de 99% contra 1% pudesse ter sido tão verdadeira.

Embora o Fórum do capital exista há mais de 40 anos, e embora ele se proponha a “oferecer soluções para os problemas do mundo”, a realidade é que a desigualdade entre ricos e pobres só faz aumentar em escala global, ao mesmo tempo em que as medidas propostas em Davos chegam a ser risíveis de tão inócuas e contraditórias aos objetivos que visam atingir. Por mais que os participantes do Fórum capitalista insistam em suas “boas intenções”, o fato é que a crise econômica que se abate sobre o mundo, com maior intensidade desde 2008, só faz recrudescer e ampliar o fosso existente entre ricos e pobres, alarmando governos e estudiosos.

A crise de 2008, a bem da verdade, veio evidenciar a falência de um modelo de concentração da riqueza que acabou levando a economia mundial ao impasse no qual se encontra hoje: o excesso de poupança dos mais ricos sendo gasto em atividades especulativas, e o baixo consumo do restante da população criando as condições para longos períodos de paralisia econômica (p.214). O preço a ser pago é um recuo acentuado do crescimento econômico, com forte impacto sobre a geração de riqueza e a arrecadação de impostos e grave pressão sobre a capacidade dos Estados de ampliar os investimentos e aumentar os gastos. Todos de mãos atadas.

Observando a evolução das políticas tributárias nos Estados Unidos, por exemplo, Robinson afirma que ocorreu uma redução da tributação aplicada aos super-ricos, de 60% nos anos 1960 para 30% nos anos 2000. Esses dados seriam uma clara demonstração de que a plutocracia se consolidou efetivamente no poder, nos EUA, e estaria avançando na mesma escala sobre o mundo todo.

Além das medidas legais que vão sendo conseguidas para reduzir a tributação das grandes fortunas, a evasão fiscal é outra forma pela qual os super-ricos fogem dos impostos, mesmo quando eles declinam praticamente em todos os lugares. A fuga de capital da África para os paraísos fiscais, entre 1970 e 2004, por exemplo, é estimada em cerca de 420 bilhões de dólares, duas vezes mais do que toda a dívida externa do continente (p.115).

Ao mesmo tempo, a pura e simples transferência de ativos e investimentos para diversos paraísos fiscais ainda tem servido como poderoso instrumento de chantagem contra governos e populações que ousem desafiar os privilégios dos super-ricos. Obstáculos e dificuldades antepostos aos super-lucros (ou sequer tentados) são respondidos no mesmo instante com medidas radicais de supressão das oportunidades.

Num esforço cínico de criar algum revestimento de dignidade para suas práticas correntes, muitos capitalistas de Davos se autodenominaram partidários do “capitalismo filantrópico” — um conjunto de medidas destinadas a enfrentar a crescente desigualdade social no mundo, sobretudo com investimentos em educação e saúde. Para tanto, instituíram diversas fundações destinadas a prestar serviços (humanitários) nessas duas frentes, que fazem programas e campanhas voltados para mitigar a miséria no mundo. Como uma versão atualizada da velha caridade cristã, essas medidas podem não ter resolvido a questão da pobreza mundial, e duvido que pretendam isso de fato, mas deram a alguns de seus patronos grande visibilidade e alta popularidade. Em parte, isso se reverteu para suas marcas e produtos!

É claro que a permanência desse estado de coisas depende, em certa medida, de uma boa imagem pública. Para tanto, os super-ricos de Davos têm gasto uma fortuna. Com ênfase em seus “aspectos mais positivos”, criaram uma vasta e eficiente estrutura de comunicação global que visa difundir os méritos de suas principais ações e propostas, na busca de convencer o distinto público de que são merecedores dos enormes privilégios que possuem.

“(…) A nova elite estava carente de comunicadores que explicassem exatamente quem eram eles, por que existiam e por que diabos tinham que ganhar tanto dinheiro. Necessitavam de uma nova classe de comunicadores que soubessem explicar seus projetos filantrópicos e humanitários, bem como seus empreendimentos sociais.” (p.63)

Ao mesmo tempo, contam com uma vasta tropa de jornalistas e comunicadores que se dispõem a veicular, em todos os meios disponíveis, tanto a defesa intransigente das políticas que mais beneficiam os super-ricos (como a redução dos impostos, por exemplo) quanto a crítica mais demolidora a qualquer tentativa de restringir os super-ganhos ou de ampliar os investimentos governamentais em benefício da sociedade em geral. Em rádios daqui do Rio de Janeiro, os “comentaristas de assuntos econômicos” são unânimes nessa toada. Nas outras mídias, também não há diferenças.

Não deixa de ser irônico saber que este ano, mais uma vez, em Davos, o centro das preocupações será o incômodo crescimento da desigualdade social no mundo…