Imprensa e política 2

“A relação da imprensa com o poder público é uma tradição histórica do jornalismo brasileiro, que o acompanha desde o seu surgimento no início do século XIX.” (p.168)

A década de 1950 é marcante na história da imprensa brasileira porque representa a inauguração de uma nova fase, na qual o modelo norte-americano de jornalismo foi implantado, trazendo uma proposta de “modernização das empresas e dos textos”, assim como a profissionalização dos jornalistas. Esse novo tipo de organização e de gestão da prática jornalística criou para si mesmo uma mística própria: de sua “aura de fidelidade aos fatos” emergiu um considerável poder social que lhe é conferido pela sociedade como um todo — um voto de confiança calcado no reconhecimento pelo público de que o jornalismo é veiculador dos acontecimentos, é “registro factual por excelência”. Daí para sacramentar uma crença universal na objetividade e na imparcialidade aí implícitas foi apenas um passo.

Dificilmente, o distinto público se questiona sobre a escolha das notícias, a ênfase dos destaques, a ausência de certos temas e personalidades. Há uma espécie de reconhecimento tácito de que o que está sendo veiculado é a legítima expressão dos fatos. Um dos riscos mais graves desse tipo de acepção é supor que aquilo que não está na mídia simplesmente não existe, ao mesmo tempo em que tudo que recebe atenção ali é necessariamente visto como digno desse merecimento. Por outro lado, é fundamental reconhecer que as diversas mídias não se encontram distribuídas de forma equânime pelo conjunto da sociedade, a fim de difundir os diversos pontos de vista e as diversas expectativas aí presentes. Muito se observa, no Brasil, o altíssimo grau de concentração da propriedade dos meios de comunicação, que restringe sobremaneira o acesso à expressão oral e/ou escrita. Existe um incontestável monopólio da narrativa, concentrado em pouquíssimas mãos.

Uma das melhores definições desse controle altamente restritivo de poucas empresas sobre o jornalismo brasileiro foi dada pelo jornalista David Nasser, numa entrevista à revista Manchete, publicada na edição de 15 de outubro de 1965:

“E a minha fazenda não é herdada, nem doada. Foi comprada com o dinheiro que ganhei como jornalista. Eu resolvi me emancipar porque cheguei à seguinte conclusão: no Brasil, nunca houve, na realidade, liberdade de imprensa. O que existe e sempre existiu é a opinião do dono do jornal. Ora, a minha opinião nem sempre coincidia com a de meu patrão e eu era despedido. Então eu resolvi ser rico, para poder ter opinião como jornalista. No jornalismo, como vocês sabem, só se faz fortuna sendo picareta ou então alugando a opinião. Essa eu nunca aluguei. (…) Sempre fui bem remunerado e resolvi me emancipar economicamente para não depender do diretor do jornal. (…) No dia que não publicarem o que eu realmente penso, vou-me embora para a minha fazenda, tranquilamente, para escrever meus livros e viver minha vidinha.” (Apud., p.175)

Sem fazer qualquer julgamento sobre o mérito das alegações acima, é indiscutível esse predomínio da opinião do dono sobre todas as coisas. Acima de tudo, porque a imprensa sempre foi um meio poderoso de barganha com outros grandes interesses, e não poderia colocar em risco as vantagens dos seus proprietários. A proximidade (ou, caso se queira, a promiscuidade) dos donos dos meios de comunicação com o poder político, no Brasil, se conservou mesmo após o processo de modernização inaugurado nos anos 1950. A adoção das novas técnicas gráficas e textuais, bem como o profissionalismo cada vez mais acentuado dos jornalistas — que passaram a se formar em cursos universitários especializados —, não impediu a perpetuação de relações íntimas com os políticos e a política, em geral. Algumas prerrogativas do jornalismo dito moderno não foram incorporadas:

“Os jornais brasileiros nunca puderam assumir, por exemplo, o papel de watchdogs que lhes era reservado no ideário norte-americano. Nunca conseguiram exercer, de fato, vigilância sobre a ação do Estado, no sentido clássico do liberalismo, pois nunca mantiveram uma distância suficiente dos personagens públicos. A imprensa sempre teve uma relação simbiótica com a política.” (p.348)

Talvez a imprensa nativa tenha protagonizado mais um caso clássico de “modernização sem mudança”. Isto é, alguns aspectos mais aparentes e mais superficiais são adotados por aquelas estruturas que resistem a se modificar verdadeiramente, preservando-se tudo que elas têm de essencial (“plus ça change, plus c’est la même chose”). “Nos bastidores da notícia”, os arranjos, acordos e conchavos continuam ditando as regras. Personagens e eventos são poupados ou execrados ao sabor desses meandros. A política não é apenas a das esferas públicas, nas várias instâncias do Estado. A política também é a dos donos de jornal.

“Para Carlos Eduardo Lins e Silva [O Adiantado da Hora: a influência americana sobre o jornalismo brasileiro. São Paulo: Summus, 1991], o jornalismo brasileiro incorporou os princípios do modelo norte-americano no discurso, mas não na sua prática profissional. No Brasil, todos se dizem objetivos, mas ninguém é de fato. ‘Não no sentido de que seja impossível ser, mas no sentido de que se é ostensivamente partidário na cobertura, com títulos de notícias editorializados, com clara preferência por uma tendência política ou ideológica, distorção intencional dos fatos para favorecer uma visão particular de mundo.’ Como o autor afirma, a importação do modelo norte-americano não poderia mesmo ser absoluta, já que as diferenças culturais, políticas, econômicas entre as duas sociedades (a brasileira e a norte-americana) necessariamente modificariam o caráter original das noções.” (p.337)

 

Referência:

Ana Paula Goulart Ribeiro. Imprensa e história no Rio de Janeiro dos anos 1950. Rio de Janeiro: E-papers, 2007.