Imprensa e política

Ou imprensa é política?!

No Brasil, em geral, quando se discute o papel da imprensa na luta política, costuma-se situar o epicentro desse processo na década de 1950, quando se intensificou de modo extremado o confronto entre projetos opostos de poder. Nesse período, no Rio de Janeiro, foi fundado o jornal Última Hora, alinhado aos governos trabalhistas, primeiro o de Getúlio Vargas e depois o de João Goulart, aos quais se opunham diversos outros periódicos que se destinavam a atacá-los. A intensidade dessa disputa que provocou alguns lances verdadeiramente dramáticos — como o suicídio do presidente Vargas, em 1954 —, deixou para a história um registro marcante e emblemático, que acabou condicionando grande parte da visão que se tem sobre o tema. Um olhar mais curioso, no entanto, pode mostrar que o uso da imprensa como instrumento da luta política é tão antigo quanto ela própria. Nos momentos de crise aguda, as vozes transmitidas por seus veículos mais populares amplificam sentimentos, emoções e desejos que podem exercer papel decisivo na “solução” dos problemas e impasses.

Entre as inúmeras inovações trazidas pela corte portuguesa que se instalou no Brasil, em 1808, destacou-se a imprensa. Embora a liberdade de expressão em si jamais estivesse completamente assegurada, a mera possibilidade de publicar e divulgar ideias e opiniões já era um feito extraordinário. Ainda que jornais e demais periódicos tivessem vida muito curta, em alguns casos, tanto em decorrência de dificuldades financeiras para sua manutenção quanto em razão de censura oficial, sua simples existência, mesmo que breve e cercada de toda instabilidade, era uma fonte de grande motivação e expectativa.

Em pouco tempo, a proliferação de jornais se tornou uma das características das cidades brasileiras, em especial, do Rio de Janeiro. Todo o processo de independência, por exemplo, com seus desdobramentos tensos e complexos, foi objeto de uma atuação vibrante e constante, por meio da imprensa, dos principais grupos políticos que pretendiam dirigir os destinos do País. O embate entre “portugueses” e “brasileiros”, como eram chamados os opositores mais importantes, sintetizava os conflitos que se instituíram entre os interesses que pregavam a manutenção dos laços de dependência com Portugal e os que advogavam a ruptura do domínio colonial português e a consequente construção de uma nova nacionalidade autônoma e soberana. Dom Pedro I, proclamado imperador do Brasil, em 1822, se equilibrou de forma precária nesse cenário de aspirações tão contraditórias, tentando impor o seu domínio — que se originara numa dinastia francamente absolutista — sobre uma elite local que se dividia entre “liberais” e “conservadores”, tendo como ponto fundamental de suas divergências o regime constitucional da monarquia. A constitucionalidade era um limite óbvio ao absolutismo, posto que garantisse à assembleia eleita as prerrogativas de legislar e determinar os rumos do País. A luta contra o absolutismo, encarnado em Dom Pedro I — o qual se declarava com frequência um constitucionalista, mas representava uma ameaça autoritária constante no imaginário independentista —, unificou os grupos divergentes até a abdicação do imperador em 1831. Embora o agouro de um retorno ao absolutismo e à união com Portugal sempre assombrasse alguns círculos políticos brasileiros, até a morte de Dom Pedro, em 1834, o fato é que “liberais moderados” e conservadores encontraram o seu patamar de equilíbrio durante o período regencial e o processo de maioridade de Dom Pedro II (1840), logrando a continuidade de um modelo de monarquia constitucional à brasileira — vide o “poder moderador” — que foi capaz de manter as principais estruturas socioeconômicas (o latifúndio e a escravidão) intactas. Aos “liberais radicais” restou o combate pela constitucionalidade ampla e pelo federalismo — cujo objetivo maior era dar às províncias do imenso território brasileiro mais autonomia e mais participação política.

Nesse processo turbulento e árduo de construção de um projeto político nacional, a imprensa teve um papel destacado e constante. Entre as suas atribuições mais expressivas, sem dúvida, ressalta-se a construção do “mito absolutista” de Dom Pedro I, cuja intensificação acabaria levando à abdicação do imperador em favor do filho e o seu retorno a Portugal. A campanha empreendida pelos jornais não deu tréguas, e terminou por provocar uma onda xenófoba dirigida contra os portugueses que viviam no Brasil, sobretudo, na Corte — e que eram muitos. O grande pavor, como já mencionamos, era a suspensão da Constituição (outorgada pelo próprio imperador em 1824) e uma nova reunião do País com Portugal. E Dom Pedro I encarnava esse presságio como ninguém: era português, e oriundo de uma linhagem absolutista incontestável.

“A histeria provocada por uma ameaça imaginária criada por uma imprensa oposicionista e descontrolada, teve lances literalmente trágicos, como o assassinato em São Paulo do médico e jornalista italiano conhecido como Líbero Badaró.” (p.266)

Badaró publicava um jornal chamado Observador Constitucional em que dirigia pesadas críticas ao governo, em especial ao imperador. Muitos acreditam que tenha sido assassinado por suas opiniões políticas. Num quadro de tensões cada vez mais acirradas, os conflitos entre posições distintas logo se transformaram em confrontos. Mais uma vez, os jornais atiçavam os partidários de um lado e de outro.

[em março de 1831] Duas facções, a dos nativistas e a dos portugueses logo passaram a se confrontar — inicialmente com insultos, logo convertidos em ações físicas. Os brasileiros foram expulsos da rua da Quitanda, no centro do Rio, debaixo de garrafadas atiradas pelos portugueses do alto de seus sobrados. Os distúrbios duraram três dias, alimentados como foram pela imprensa e pelos políticos.” (p.269)

Nunca será demais reconhecer que a imprensa não é imparcial nem neutra. Isso não a desqualifica, ao contrário. Apenas permite aos seus leitores que conheçam a verdadeira natureza do que estão lendo e possam se posicionar diante disso. Essa pretensa busca pela imparcialidade nada mais é do que uma ilusão que serve para encobrir a intenção primeira do que está escrito. A própria escolha dos temas tratados, a definição das manchetes, o desenho da primeira página, tudo isso, enfim, evidencia um ou vários pontos de vista que se combinam para criar um noticiário que representa, sim, uma visão de mundo. E isso vale para qualquer mídia. Em outros tempos, quando a escolha de um campo político era franca e aberta, quando os jornais assumidamente representavam um dos muitos lados em conflito, chegando a ser criados para isso, talvez fosse mais fácil identificar e definir os seus objetivos.

 

Referência:

Paulo Rezzutti. D. Pedro: a história não contada. São Paulo: LeYa, 2015.