A caneta e o sítio

Ontem de manhã (quarta-feira de cinzas), fui ao banco sacar um dinheirinho e vi que a agência só abriria a partir das 12 horas. Uma praxe do pós-carnaval. Como eu só precisava mesmo de uns trocados para colocar na carteira, resolvi ali mesmo no caixa eletrônico.

Quando ia saindo, ouvi dois homens conversando: queriam fazer um depósito, mas não tinham caneta para preencher o envelope. E como a agência só abriria dali a uma hora, teriam de esperar para conseguir ajuda. O banco agora não disponibiliza mais canetas para o distinto público — eram sempre quebradas ou roubadas quando existiam. Como carrego minha caneta na bolsa, ofereci. Qual não foi o espanto do sujeito! O outro foi logo dizendo: “se a senhora emprestar pra ele, vai ter que emprestar pra mim também”. E riu. Eu disse que não tinha nenhum problema, que usassem o quanto precisassem. O constrangimento dos dois foi visível, apesar da brincadeira. Ao me devolver a caneta, o homem sequer me olhou nos olhos, ficou de cabeça baixa e balbuciou um agradecimento quase envergonhado.

Ao caminhar em direção à porta, percebi um rapaz meio agitado, com o envelope de depósito na mão, e perguntei se ele precisava da caneta. Ele me agradeceu e disse que eu estava sendo “muito prestativa”. Um gesto tão simples, pensei, apenas emprestar algo que tenho em mãos e que pode ser tão útil para outros. Por que isso deixou de ser natural e passou a ter uma conotação assim tão extraordinária?

Talvez tenhamos nos tornado excessivamente indiferentes à sorte do outro. Talvez tenhamos nos habituado a só fazer alguma coisa esperando uma contrapartida — de preferência, imediata. Talvez estejamos acostumados demais ao famigerado “toma lá, dá cá”, e só façamos um favor ou uma gentileza se recebermos algo em troca. E pior: quando temos uma iniciativa ou atitude como essa, em que agimos sem uma expectativa correspondente, somos olhados com desconfiança, quase com raiva. Muita gente recusa qualquer gesto de solidariedade ou simpatia que seja desinteressado. Outros, porém, tentam tirar proveito buscando explorar a boa vontade de quem se dispõe a ajudar. É um campo minado, sem dúvida.

Ao longo do dia, lendo o noticiário e tomando conhecimento de que o presidente Lula agora está sendo oficialmente investigado, descubro o porquê: ele frequenta um sítio em Atibaia (interior de São Paulo) com bastante assiduidade, e os membros do judiciário e do ministério público desconfiam de que haja algo suspeito nisso. Segundo os seus critérios, o sítio em questão poderia ser do presidente Lula, embora nunca tenha sido devidamente declarado à Receita Federal, o que constituiria um crime; e ainda, o sítio teria sofrido uma grande (e cara) reforma que foi paga por empreiteiras implicadas na operação Lava Jato, que apura desvios e corrupção na Petrobrás, o que vincularia o presidente ao escândalo. Finalmente, ao cabo de dois anos de intensas e incansáveis buscas e investigações, a operação encontrou o que tanto buscava — um fio que amarre o presidente Lula, ainda que seja tênue.

Não quero entrar no mérito da questão, até porque as investigações ainda são preliminares e não sabemos a sua real extensão. O que me chamou a atenção foi justamente essa predisposição de achar que um simples gesto de amizade — de alguém que empresta um sítio para os amigos desfrutarem em seus momentos de lazer — possa ser tomado como suspeito e carregado de segundas intenções. Em princípio, para os membros do judiciário e do ministério público que “investigam” o caso, isso é, necessariamente, um comportamento duvidoso. Afinal, “ninguém faz nada de graça”, por trás dessa aparente generosidade deve existir alguma mutreta, se o presidente Lula vai tantas vezes a esse sítio acompanhado da família, algum motivo inconfessável deve haver. Rapidamente, essas suspeitas (até agora infundadas) se espalharam nas redes sociais e dezenas de pessoas começaram a reproduzi-las e ampliá-las com verdadeiro furor.

Como se diz, plantaram em terra fértil. Por estarmos assim tão desacostumados à simplicidade das coisas, ao compartilhamento desinteressado de algum bem ou vantagem, à solidariedade espontânea diante das adversidades, somos incapazes de reconhecer esses sentimentos quando eles se manifestam. Tendemos a achar que nada disso é sincero, que tudo se resume a uma troca interesseira entre pessoas estranhas ou próximas, que todos estão sempre à espera da oportunidade de “se dar bem”. À nossa estranheza soma-se o cinismo e a esperteza de quem não acredita na bondade e quer apenas levar vantagem em tudo.

Quando emprestei minha caneta àqueles homens que estavam desconsolados diante da expectativa de esperar mais de uma hora, em pé, para resolver o seu problema, não pensei em nenhuma contrapartida, em nenhum retorno. Apenas reagi de acordo com a minha capacidade naquele momento. Também não esperei nenhum reconhecimento especial diante de um gesto tão banal quanto aquele. Confesso que fiquei espantada com o constrangimento deles. Nunca imaginei que alguém pudesse sentir vergonha ao apanhar uma caneta emprestada!

Quero deixar registrada aqui a minha confiança no presidente Lula. E faço isso agora, antes da apuração dos fatos, que todos esperamos seja feita de forma isenta e completa. Não compartilho a opinião de alguns que julgam “inconveniente” ele aceitar esse benefício de frequentar um sítio que não é seu, como se fosse. Pelo contrário, considero tremendamente conveniente o fato de que, depois de tantos anos investigando a fundo a vida do presidente Lula, o que acharam de “mais relevante” foi o sítio de um amigo em Atibaia, que ele passou a frequentar assiduamente com a família, após deixar a presidência da República, que ocupou com brilhantismo durante 8 anos.