Umberto Eco, Número Zero

“A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias.” (p.162)

Achei curioso que o último livro publicado por Umberto Eco — Número Zero — tenha recebido comentários tão discretos na mídia. Li uma parca menção (não me lembro onde) à “perda de qualidade literária” desse trabalho que acabou marcando o fim efetivo da carreira literária de Eco, falecido algum tempo depois da publicação. Em geral, os livros de Eco tendiam a receber farta atenção da mídia, desde O nome da rosa, um sucesso estrondoso (1980) que levou o autor ao renome internacional como romancista. Percebi essa discrepância em relação a Número Zero, mas não fui adiante.

No Natal de 2015, uma amiga me deu o livro de presente. Quando comecei a lê-lo, não parei mais. É uma ficção, sem dúvida, mas brilhantemente utilizada pelo escritor para fazer algumas reflexões intrigantes sobre a realidade atual. Embora o enredo tenha os seus próprios personagens, o grande protagonista é a política. Há relatos de conspirações eletrizantes, em que se sobressaem a mídia e o judiciário como as duas pontas mais importantes do projeto de dominação que está em curso no plano mundial. Em relação à Itália, seu país de origem, Eco levanta uma série de questões que visam a elucidar os (des)caminhos tomados pelos arranjos políticos que marcaram a sua história no pós-Segunda Guerra Mundial e que, segundo a avaliação do narrador, tiveram como objetivo principal eliminar qualquer possibilidade de vitória da esquerda, com o apoio nem tão discreto assim do Vaticano.

No auge da Guerra Fria, o enfrentamento maior do projeto hegemônico dos EUA era com a União Soviética. Como se sabe, grande parte dos grupos que opuseram resistência ao nazi-fascismo (partisans) era formada por representantes da esquerda, que tinham alguma simpatia pelo regime soviético, e do qual haviam recebido ajuda durante o conflito. Era óbvio que no pós-guerra essas tendências políticas procurassem se afirmar, contando, como contavam, com o reconhecimento e o respeito de diversos segmentos da sociedade, por sua bravura e por seu incansável combate pela liberdade.

Nesse quadro de disputa acirrada, as tensões foram se agravando, em alguns casos até artificialmente. A progressiva demonização das esquerdas foi empregada como estratégia para “preparar psicologicamente a opinião pública para um retorno à ordem”. Membros da extrema-direita (muitos deles oriundos das fileiras fascistas) se infiltraram nos grupos de esquerda para incitá-los a radicalizar e a praticar atos terroristas. Tais extremismos visavam a desacreditar os partidos esquerdistas, tornando insuportável e indesejável a sua ascensão, e a preparar as condições para novas formas de repressão, executadas com todas as marcas da legalidade. A existência de entidades internacionais dedicadas à construção de uma rede mundial anticomunista acrescentava mais combustível a esse quadro já bastante inflamável. O financiamento dos projetos destinados a esse fim estava assim assegurado.

Mídia e judiciário tiveram (e têm) papel decisivo na montagem e na execução dessa estratégia. Com o monopólio da narrativa que possui, a mídia põe e dispõe sobre reputações, condutas, renomes. Pode destruir vidas e carreiras. Assim como tenta tornar palatáveis os piores escroques, se for do seu interesse. No máximo, quando é apanhada em falta grave com a verdade, faz um breve mea culpa e fica por isso mesmo. Sobre isso, o personagem de Eco é demolidor:

“…nunca entendi se essa moda de pedir desculpas é sinal de um surto de humildade ou de puro descaramento, você faz algo que não deveria fazer, depois pede desculpas e lava as mãos.” (p.95-96)

À parte os dilemas éticos presentes nesse estado de coisas, o fato é que a mídia desempenha um papel fundamental na montagem desse quadro político, cujo eixo é a desestabilização e a desmoralização de qualquer tentativa que seja de ascensão de grupos/partidos de esquerda. E essa vantagem extraordinária garantida pelos meios de comunicação permite a neutralização de qualquer adversário, maior ou menor. Um dos personagens do enredo de Eco descreve essas artimanhas com acidez cortante:

“… O Fulano acaba sabendo que você tem notícias sobre ele, não sabe quais, mas todo mundo tem algum esqueleto no armário e cai na armadilha: experimente pedir alguma coisa a ele, e ele vai estar bem mais maneiro.” (p.127)

Esse poder de intimidação da mídia é uma vantagem comparativa extraordinária, que lhe assegura uma superioridade indiscutível na barganha política. E Eco descreve isso com verdadeira maestria. Não é de estranhar que seu livro tenha sido recebido com tamanha frieza…

Por outro lado, o judiciário também acabou se convertendo numa arma de combate político contra as forças de esquerda. O voto já não cumpre mais esse papel a contento. No esforço de barrar a ascensão das esquerdas, a criminalização de lideranças e projetos é essencial. Neste sentido, um judiciário comprometido ideologicamente com essa perspectiva é peça chave para o alcance desses objetivos. Se não é possível derrotar os oponentes nas urnas, que sejam derrotados nos tribunais, ainda que por meio de suspeições, mais do que de provas. Mesmo que não tenham cometido crimes, podem ter feito alguma coisa “estranha”. E ainda que nada de estranho seja encontrado nas buscas, fabrica-se uma estranheza qualquer, manipulando os fatos e as versões de tal modo que pareçam bizarras até as coisas mais simples do cotidiano.

Aos que pensam tratar-se apenas de uma nova modalidade jurídica, Umberto Eco adverte: há mais coisas entre o céu e a terra nesse caso. De fato, podemos estar diante de um ardil engenhoso que, ao lançar mão de uma pretensa legalidade, esteja promovendo a dominação de um projeto hegemônico global que não respeita fronteiras nem nacionalidades. O fim da União Soviética e do seu bloco de poder criou tão somente uma ilusão quanto ao desaparecimento do socialismo como projeto político. As aspirações de uma sociedade mais igualitária, mais justa, capaz de ampliar sucessivamente os direitos de cidadania, de garantir o acesso às condições elementares do modelo de civilização no qual vivemos (moradia, saúde, educação, mobilidade, saneamento, lazer) continuam vivas e demonstram sua imensa capacidade de mobilização da sociedade. É contra isso que se erguem as clavas de uma falsa legalidade, de uma repressão brutal e de uma desmoralização ética sem precedentes.

“… já há quem diga que, depois da queda do Muro de Berlim e do desmantelamento da União Soviética, os americanos já não precisam dos partidos que podiam manobrar e os deixaram nas mãos dos magistrados, ou talvez, poderíamos arriscar, os magistrados estão seguindo um roteiro escrito pelos serviços secretos americanos.” (p.53)

Umberto Eco. Número Zero. 3ª edição. Tradução: Ivone Benedetti. Rio, São Paulo: Record, 2015.