A Doutrina do Choque

“A brutalidade física direta cria apenas ressentimento, hostilidade e futura rebeldia. (…) Interrogados que tenham suportado a dor são mais difíceis de manipular com outros métodos. O efeito tem sido o de restaurar a confiança e a maturidade do sujeito, e não o de reprimi-lo.” (p.385)

Kubark Counterintelligence Interrogation, manual da CIA, 1963

Tive a honra e o prazer de traduzir um dos livros mais impressionantes que li na vida — A Doutrina do Choque. Ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein. Sua tese principal, resultante de uma pesquisa meticulosa acerca dos últimos 40 anos de expansão capitalista, é a de que, aproveitando as circunstâncias traumáticas que cercam a ocorrência de choques e desastres, naturais (tsunamis) ou provocados (golpes de Estado), o grande capital consegue se tornar dominante e hegemônico onde antes não existia ou enfrentava barreiras e obstáculos.

Na base desse processo, vicejam os ensinamentos de Milton Friedman, considerado o maior teórico do livre mercado e o economista mais influente da segunda metade do século XX. De acordo com os preceitos defendidos por ele, medidas impopulares, que tendem a subtrair direitos e prerrogativas de sociedades inteiras, mas que beneficiam amplamente alguns segmentos dominantes do capital, precisam ser tomadas e aplicadas nas circunstâncias em que a maior parte das pessoas está sob o efeito do choque e, portanto, sem condições de reagir positivamente.

“Por mais de três décadas, Friedman e seus poderosos seguidores se dedicaram a aprimorar essa mesma estratégia: esperar uma grave crise, vender partes do Estado para investidores privados enquanto os cidadãos ainda se recuperavam do choque, e depois transformar as ‘reformas’ em mudanças permanentes.” (p.16)

E é preciso agir rapidamente. Aproveitar o estado generalizado de abatimento e dor para obter as maiores vantagens; pois, passado esse quadro de torpor traumático, superado o abalo provocado pela crise, a sociedade tende a voltar ao controle da situação. Por isso mesmo, Friedman recria um dos ensinamentos mais contundentes de Maquiavel: o de que os sofrimentos devem ser infligidos “todos de uma vez”.

Mas isso é só o começo. O prolongamento desses arranjos políticos e econômicos é uma fissura cada vez mais drástica nos meios sociais. Como o objetivo principal é abocanhar valiosos recursos que anteriormente se encontravam sob domínio público, ocorre a eliminação progressiva de direitos econômicos tradicionais e o esmagamento de qualquer forma de resistência. Para Naomi Klein, esse sistema que unifica o Grande Governo e o Grande Negócio não pode ser chamado senão de “corporativo”:

“Suas principais características são enormes transferências de riqueza pública para mãos privadas, frequentemente acompanhadas de uma explosão de endividamento, uma polarização cada vez maior entre os muito ricos e os pobres descartáveis, e um nacionalismo agressivo que justifica gastos exorbitantes com a segurança. Para aqueles que vivem dentro da bolha da extrema riqueza criada por esse tipo de arranjo, não existe melhor modo de organizar uma sociedade. No entanto, em função das desvantagens impostas à grande maioria da população que fica fora dessa bolha, outros aspectos do Estado corporativo são vigilância agressiva (de novo, com troca de favores e contratos entre governo e grandes corporações), prisões maciças, redução drástica dos direitos civis e, com frequência, porém nem sempre, tortura.” (p.25)

Os exemplos abordados no livro são muitos e elucidativos. Vão desde as ditaduras latino-americanas dos anos 1960-1980 aos regimes de exceção da Ásia (com destaque especial para o caso da Indonésia), e aos fatos mais recentes do Leste Europeu (pós-queda do Muro de Berlim) e do Oriente Médio (inclusive o Iraque). Em todos eles, sobressaem-se situações de crises extremas em que a capacidade de compreensão e de resistência das pessoas fica dramaticamente afetada pela sucessão implacável de circunstâncias negativas, fortemente exploradas pela publicidade. É a estratégia do choque e pavor. Vai-se de uma coisa a outra num verdadeiro furor de instabilidade que favorece a ação de “refazer o mundo”, preparada pelos artífices da mudança assim realizada e cuidadosamente planejada.

O que está em jogo, regra geral, é alcançar os objetivos formulados pelos economistas da Escola de Chicago, cujo patrono é Milton Friedman. Do seu ponto de vista, o modelo ideal de capitalismo de livre mercado na sua forma mais pura, mais plena, mais acabada é algo que se está sempre por fazer, uma construção sempre passível de ser reelaborada. Nesse percurso, todas as esferas da vida social vão sendo incorporadas a esse modelo, e constantemente reinseridas em razão das alterações e das inovações havidas nas formas de organização e de controle dos processos de produção e de distribuição. Em cada etapa, uma terapia de choque é empregada para completar o circuito. O alvo dessas políticas, não custa dizer, é o Estado de bem-estar social criado no bojo da mais grave crise do capitalismo, ocorrida no período entre-guerras. Sua destruição final é o troféu definitivo dos arautos do livre mercado.

“Keynes propôs exatamente esse tipo de economia mista e regulada após a Grande Depressão, uma revolução nas políticas públicas que criou o New Deal e gerou transformações similares em todo o mundo. Foi exatamente contra esse sistema de conciliação, controle e equilíbrio que a contra-revolução de Friedman foi deslanchada, buscando desmantelá-lo em todos os países.” (p.30)

Uma história de violências e de brutalidades impressionantes.

Referência:

Naomi Klein. A Doutrina do Choque. Ascensão do capitalismo de desastre. Tradução: Vania Cury. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.