O cúmulo

Fala-se muito hoje em dia do complexo de vira-lata que atormenta a elite brasileira. Basicamente, esse complexo se manifesta no menosprezo por tudo que é autenticamente brasileiro e na exaltação de tudo que vem de fora. Mas não um “de fora” qualquer — tem de ser originário da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, parâmetros de civilização e progresso que essa elite deseja seguir e incorporar. Ao espichar os olhos sobre uma realidade que não é a sua, mas comporta tudo que há de mais admirável e desejável, tal camada social se sente profundamente frustrada com aquilo que a cerca, e despeja o seu ressentimento de todas as formas possíveis sobre tudo e todos que “conspiram” para afastá-la do seu ideal.

Há quem atribua essa concepção de mundo ao passado colonial que definiu a formação do Brasil. Mas, quando se observa que houve aqui um processo de independência em relação a Portugal, em que se formou um “partido brasileiro” que se opunha frontalmente ao “partido português”, no qual se reuniam os partidários da colonização e os defensores da supremacia portuguesa, se é levado a perguntar como foi que tudo isso se perdeu? Como foi que a elite brasileira que rompeu os laços coloniais com Portugal e buscou sua afirmação nacional se tornou assim tão “vira-lata”, a ponto de ficar de costas para praticamente tudo que foi gerado de forma autenticamente brasileira ao longo do processo de evolução do País?

São questões complexas que não cabem por ora neste breve comentário que faço a respeito, mas merecem toda atenção. Quero explorar aqui uma anedota que ilustra bem esse estado de espírito vira-lata.

Nos idos da década de 1920, os principais países capitalistas se debruçavam sobre os desafios do urbanismo moderno. Com uma feição cada vez mais urbana, na qual cidades significativamente populosas se transformavam no espaço emblemático de seu modelo de desenvolvimento econômico e social, as grandes potências se preparavam para enfrentar os dilemas da urbanização crescente de seus territórios: sistemas de águas e esgotos, transportes coletivos, moradias populares, vigilância e segurança. Debates, projetos, propostas dos mais variados tipos preenchiam as agendas políticas da época. Em seu retorno de uma viagem à Inglaterra, um dos sócios do Clube de Engenharia relatou assim o que viu no Congresso Internacional de Casas Baratas, que assistiu em Londres:

“O rei Jorge V, da Inglaterra, disse, diante de 300 delegados de 34 nações, que o problema da casa dos proletários é a questão fundamental e primordial de todo e qualquer progresso nas sociedades modernas e que, sem a sua solução, não haveria paz e tranquilidade nas nações.” (1)

E pensar que o rei inglês se fez presente a um encontro que visava debater justamente a questão das moradias populares! Outros tempos, sem dúvida. No Brasil, a construção de casas populares como política pública foi uma demanda que se arrastou durante décadas, sofrendo alguns espasmos de realização e depois retrocedendo. A favelização das nossas cidades e a degradação de suas periferias são a melhor evidência do seu fracasso. O reconhecimento de que o tema era merecedor de muita atenção e de programas efetivos de ação governamental, como ficou claro na fala do rei da Inglaterra, sempre careceu de força entre nós. Ainda hoje, iniciativas desse tipo continuam sendo objeto de ataques frequentes e contínuos.

Essa profunda influência exercida pelo urbanismo europeu sobre os engenheiros brasileiros era bastante seletiva, como se pode perceber. Neste sentido, vale destacar a longa digressão de Paulo de Frontin sobre as possibilidades de transpor para o Rio de Janeiro — capital do País e cidade-símbolo — alguns recursos que pudessem corrigir aquilo que ele chamou de as “falhas existentes na beleza” da cidade, tais como a ausência de rios e de geleiras no cume de suas montanhas. Rios e montanhas geladas, como se sabe, são partes integrantes das paisagens europeias, os paradigmas da beleza almejada. Como sua sugestão, o rio Meriti poderia ser aproveitado para esse fim, embora ficasse um tanto afastado da área central da cidade. (2) Ao mesmo tempo, afirmava que as novas tecnologias desenvolvidas na Europa se encarregariam de proporcionar os meios de gelar os picos nos trópicos!

“Quem percorre Paris ou Londres, lá encontra rios que embelezam extraordinariamente a cidade, pelas suas pontes, como a Torre de Londres e a de Alexandre III. Além do mais, essas pontes constituem locais de observação de primeira ordem para o visitante da cidade. (…) Não temos geleiras. Não possuímos temperatura que permita encontrar o gelo no alto cume das nossas montanhas, mas, do mesmo modo que se abriu o túnel do Quai d’Orsay, gelando o terreno a 40 graus abaixo de zero, poderemos gelar o pico da Tijuca, o do Papagaio, e, artificialmente, resolver o problema, dotando quando o entendermos a cidade daquilo que lhe falta. (…) Resolvidos esses dois pontos, nada mais haverá a desejar senão não estragar o que a natureza nos deu.” (3)

Cumpre dizer que o engenheiro Paulo de Frontin era reconhecido e respeitado dentro e fora do Brasil. Professor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, ex-diretor da Central do Brasil, construtor da Avenida Central e prefeito do Rio por seis meses, em 1919, entre tantas outras coisas, possuía uma longa lista de obras e serviços prestados à engenharia nacional. Sua condição social de membro efetivo da elite nativa responde por esses arroubos de exaltação acrítica a tudo que vem da Europa. A imitação de meios e modos lhe parecia somente uma questão de vontade. E bastaria para resolver os “problemas”. Quem não conhece o Rio de Janeiro pode buscar imagens na Internet e perceber como a cidade é bonita — mesmo sem rios e geleiras! Quem a conhece não pode deixar de sorrir diante de sugestões assim tão excêntricas.

Referências:

(1) Ata da sessão do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, em 07 de dezembro de 1925. Publicada no Jornal do Commercio, em 27 de janeiro de 1926. Atas do Conselho Diretor – Imprensa, 24/12/1921 a 16/12/1925, p.189.

(2) O rio Meriti fica situado na Baixada Fluminense e separa os municípios de Duque de Caxias e São João de Meriti. Bem distante, portanto, da área central do Rio de Janeiro (aproximadamente 25 km).

(3) Ata da sessão do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, em 16 de janeiro de 1929. Revista do Clube de Engenharia. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1930, p.566-567.