O salvador da pátria

Nos últimos tempos, a direita brasileira tem feito um esforço memorável para criar um “ídolo popular”, que seja capaz de atrair as massas para suas fileiras. Campanhas massivas de publicidade tentam projetar um homem que reúna as principais qualidades atribuídas a um verdadeiro líder e que possa conduzir o País a um futuro auspicioso. No cerne dessa procura por uma liderança carismática, habilitada a arregimentar milhares ou milhões de seguidores, sobressai-se o inarredável combate à corrupção — o que exige desse almejado e provável salvador da pátria uma conduta imaculada e uma reputação inquestionavelmente ilibada. Quase um santo.

A crença em um messias redentor é tão antiga quanto a tradição judaico-cristã. Contra os males do mundo, a esperança na vinda de um salvador que redima a sociedade como um todo e seja capaz de estabelecer uma ordem social baseada na justiça, na paz e na liberdade. Um ideal romântico que paira sobre uma realidade concreta eivada de contradições, dilemas e desafios, que precisam ser enfrentados e resolvidos. Uma aspiração tão antiga e tão enraizada no coração das pessoas. Por isso mesmo, tão fácil de reacender toda vez que se torna imprescindível clamar por um novo salvador.

Há historiadores que estabelecem os vínculos dessa manobra ideológica da direita, que pretende fazer as mudanças pelo alto — isto é, por meio de um ídolo popular construído para esse fim —, ao mito do sebastianismo, nascido em Portugal. Em 1578, o rei D. Sebastião morreu/desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, sem deixar herdeiros. Em razão de disputas dinásticas, o trono português acabou ficando nas mãos do rei da Espanha, o que provocou uma insatisfação generalizada entre os portugueses e, por consequência, uma esperança renovada no retorno do rei, que muitos acreditavam não estar morto (apesar de seus restos mortais terem sido levados a Belém).

Daí criou-se o mito de que, com a volta de D. Sebastião, seriam renovadas as esperanças na chegada de um governante bom, capaz de propiciar um destino promissor para toda a nação. Um ser mítico, agregador, em condições de unificar os diferentes e de superar as divergências, de conduzir tudo e todos na direção da felicidade geral. Um salvador e tanto! Um herói imbatível, um defensor da justiça e da igualdade!

Durante o longo período da União Ibérica (1580-1640), quando os tronos de Portugal e Espanha ficaram reunidos, o Brasil foi invadido pelos holandeses e acabou se tornando palco das disputas dinásticas da Europa. Nessa época, o mito do sebastianismo alcançou nossas praias, sobretudo, no Nordeste, e se espalhou por várias regiões da colônia. A espera por um líder carismático passou a fazer parte da cultura política nativa e deu margem a vários episódios marcantes: um dos mais expressivos ocorreu em Canudos, com Antônio Conselheiro, que reafirmou a crença na vinda de um rei libertador.

Pela força criadora desse mito, ele vai e volta ao sabor das circunstâncias. Em situações de crise, por exemplo, ganha uma força extraordinária. Diante das mazelas de uma realidade conturbada e adversa, não é difícil convencer as pessoas de que haverá uma redenção à sua espera. Esta tanto pode ser o paraíso pós-morte, que muito conforta pelos sacrifícios dolorosos da vida terrena, quanto pode ser ainda a expectativa depositada no surgimento de alguém que venha “dar sentido ao caos e restaurar a ordem”, pelo bem de todos e felicidade geral da nação. É aqui que entra a máquina de propaganda destinada a dar cor e forma a essa promessa.

No Brasil atual, as forças da direita vão fazendo as suas apostas. Já pensaram contar com um ex-presidente do Supremo que presidiu o estrondoso “julgamento do mensalão”, pelo qual acreditavam ser possível eliminar o seu principal adversário: o governo que está no poder. É preciso reconhecer que foi um combate duríssimo e incansável. A consagração do personagem escolhido foi tamanha, com tanta exaltação popular, que lhe atribuíram uma provável candidatura (vitoriosa) à presidência da República e imaginaram a sua máscara como o grande hit do carnaval vindouro. Não foi o que esperavam, e hoje nem se fala mais nele.

Rapidamente apareceu outro candidato sob medida para representar o mito do salvador da pátria: o juiz que preside as investigações da Operação Lava Jato, que apura desvios na Petrobrás. Mais uma vez, o figurino da direita repete as mesmas proposições: eis aí alguém capaz de restaurar a dignidade e a esperança da nação, tão profundamente abaladas e vilipendiadas pela sucessão de más notícias e de expectativas pavorosas, diuturnamente apregoadas pela máquina de propaganda destinada a combater o governo que está no poder. Crise, crise, crise. O País está afundando, as instituições estão em perigo, o horizonte é sombrio. Somente um líder que reúna as qualidades necessárias de honradez e coragem poderá nos salvar…

Como já começaram a surgir, aqui e ali, contestações a determinados procedimentos do juiz, que podem colocar em risco o seu papel de messias redentor, os olhos iniciam uma nova busca entre potenciais candidatos ao papel principal desse enredo — e eis que tem sido lembrado com relativa insistência o nome de um deputado histriônico e bufão, que persegue os homossexuais, agride verbalmente as mulheres e se opõe a praticamente todas as agendas de direitos humanos defendidas pelo governo que está no poder. Sem dúvida, um perfil bastante polêmico, mas com forte apelo popular, sobretudo, junto àqueles segmentos mais conservadores que rejeitam mudanças nos costumes.

Seja como for, não custa lembrar que o verdadeiro jogo é jogado em torno dos recursos públicos e da sua destinação. A questão fundamental é definir como serão gastos e investidos esses recursos, em benefício de quais políticas eles serão utilizados. Ou bem servirão para alimentar a ganância daqueles que sempre tiveram todos os privilégios, ou bem poderão ser empregados para mitigar a gravíssima desigualdade social que sempre caracterizou o Brasil. É disso que se trata. O mito do salvador da pátria serve apenas para encobrir a verdadeira natureza da disputa política que ora se dá.

Importa menos o figurino utilizado pelo “líder popular” que se deseja seguir, seja ele uma liderança de fato ou mera fabricação da propaganda. Importa mais conhecer suas ideias e seus projetos, saber concretamente que tipos de preocupações nortearão seu governo. A ilusão de um mito salvador não pode nem deve se sobrepor à realidade de um governante comprometido com os reais problemas a enfrentar.