De rainhas e loucas

Ao longo da história, mulheres com vontade própria, mulheres que ousaram desafiar convenções e costumes, mulheres determinadas a conquistar a própria emancipação sempre foram vítimas de abusos, violências e discriminação. Não raro foram enviadas para conventos por suas famílias, ou para sanatórios psiquiátricos por seus maridos. Nesses espaços de reclusão, ficaram apartadas do mundo e dos afetos que desejaram transformar com sua sensibilidade, impedidas de qualquer forma de interação que lhes desse prazer, alegria e realização. Mutiladas emocionalmente, sofreram uma existência de privação e abandono que lhes foi designada como castigo e como penitência pela audácia que tiveram de querer mudar o mundo.

Quando muitos pensavam que essas situações estavam restritas ao passado, que tinham sido definitivamente superadas pelas significativas mudanças da condição feminina, nos últimos cinquenta anos, eis que os velhos fantasmas voltam a nos assombrar, ainda que com suas novas roupagens. Talvez até com a aparência de certa sofisticação. Mas lançando mão dos mesmos artifícios de sempre: desqualificar qualquer manifestação de luta e resistência de uma mulher como chilique, descontrole, loucura, destempero, incapacidade. De dedo em riste, apontá-la como louca, demente, insana.

Na semana passada, vivemos um exemplo claro dessa recorrência por conta de uma publicação semanal que fez uma longa matéria sobre a presidenta Dilma Rousseff, acusando-a de estar passando por um provável quadro de distúrbio psíquico motivado pelas pressões do contexto político adverso que ora está enfrentando. Entre tantas coisas, a presidenta foi comparada a D. Maria I, rainha de Portugal, apelidada “a louca”. Ora, embora exista um folclore nada elegante ou respeitoso em torno da doença depressiva que acometeu a rainha portuguesa, os fatos podem denunciá-lo com razoável rapidez. Muito religiosa e, por conseguinte, muito supersticiosa, D. Maria foi vitimada pelo desconsolo apavorado que tomou conta do seu espírito, após sucessivas mortes dentro da sua família. Debochar disso é, no mínimo, uma tremenda estupidez.

O primeiro a falecer foi o seu marido, D. José I, rei de Portugal, de cuja cabeceira raramente se afastava para descansar um pouco. Pois foi justamente numa noite em que foi se deitar em seu quarto, por julgá-lo mais forte, que ele morreu. Ao receber a notícia, na manhã do dia seguinte, D. Maria ficou transtornada pelo remorso da própria ausência no leito de morte do marido. Por seu caráter supersticioso, pode ter pensado que, se tivesse permanecido ao lado dele, a morte seria evitada ou, pelo menos adiada. Tal suposição agravou um sofrimento que em si era imenso. Corria o ano de 1785 e, para sobrecarregar ainda mais esse quadro de tensão já bastante extremado, a rainha começava a sentir os sintomas da menopausa que, em muitas mulheres, podem vir acompanhados de instabilidade emocional e até depressão. Seguindo recomendações médicas, ela passou a se tratar com banhos termais para aliviar a síndrome.

No ano seguinte (1786), D. Mariana, filha da rainha casada com um nobre espanhol, anunciou o nascimento auspicioso de sua filha caçula, batizada com o nome da avó, em homenagem. Mal haviam se iniciado as comemorações em Lisboa e chegava uma nova carta comunicando a morte do bebê assim tão prematura. Que desgraça! Apenas dois anos mais tarde (1788), D. Maria viria a sofrer um golpe ainda mais doloroso com a morte do seu primogênito, D. José, príncipe do Brasil. Profundamente abalada pela perda, a rainha passou a se culpar por não tê-lo vacinado contra a varíola quando convinha e a se considerar responsável pela tragédia. Que padecimento!

Mas a sequência de infortúnios ainda reservava mais dores à pobre rainha. No final de 1788, sua filha D. Mariana enviava da Espanha outra carta com o anúncio do nascimento de um novo herdeiro. Mais uma vez, porém, a alegria seria suplantada pela tristeza da morte do bebê, que nascera com varíola, doença que também arrebataria em poucos dias a sua mãe e o seu pai. Pois bem, num espaço de menos de três meses, a rainha perdera dois filhos, um neto e um genro para a varíola. Como suportar isso?

Para agravar ainda mais o quadro psíquico atormentado de D. Maria, sobreveio a substituição do seu padre confessor. No lugar do velho prelado que conviveu durante tanto tempo com a rainha e se compadeceu de seus temores e angústias, procurando aplacá-los, veio o bispo do Algarve que, além de exibir um indisfarçável sadismo, ainda tomava parte nas conspirações palacianas. Com isso, procurava envenenar um estado de espírito já suficientemente conturbado, insinuando que o destino da rainha seria o mesmo do seu pai — o inferno!

“Cercada pela morte de todos os lados, consumida em culpa pelo falecimento do príncipe herdeiro, no auge da menopausa e com um confessor fazendo contagem regressiva para o encontro da rainha com o capeta, não é de se estranhar que ela enlouquecesse aos 57 anos, levando o inexpressivo e despreparado príncipe d. João a assumir a regência em nome da mãe.” (p.42)

Para quem achou pouco, a pobre mulher ainda teria de enfrentar sofrimentos terríveis provenientes dos métodos empregados para tratar o seu problema. Após ser declarada definitivamente louca (no ano de 1792) — em seguida a um surto que teve durante uma apresentação teatral, no qual arrancou os cabelos e as roupas —, D. Maria foi tratada pelo dr. Francis Willis, médico do rei da Inglaterra, Jorge III.

“(…) Entre os procedimentos estavam purgatórios, vomitórios, o uso de camisas de força, imersão em banhos congelantes e a aplicação, nas pernas, de pomadas que provocavam úlceras. Por fim, e uma vez que a rainha não queria mais alimentar-se, criaram um instrumento com o qual lhe enfiavam a comida garganta abaixo.” (p.43)

Qualquer invocação deste exemplo para os dias atuais só pode ser produto da falta de conhecimento ou da falta de respeito.

Referência:

Paulo Rezzutti. D. Pedro. A história não contada. São Paulo: Leya, 2015.