E o povo, onde está?

Tenho lido, aqui e ali, queixas e críticas à “maioria silenciosa” que simplesmente não se manifesta nem se posiciona em relação ao momento político delicado por que passa o Brasil. Mano Brown, um dos rappers mais conhecidos e admirados do País, chegou a dizer que a favela deu as costas à presidenta Dilma Rousseff. Outro que fez declarações chocantes foi o diretor do instituto Data Popular, uma entidade dedicada à pesquisa e à avaliação dos segmentos sociais de renda mais baixa, porém, em franca ascensão, conhecidos como as classes C e D. Ele afirmou que os membros desses grupos consideram essa questão do impeachment “uma briga das elites”, que não lhes diz respeito. Eles estariam mais preocupados em garantir as oportunidades econômicas e sociais que lhes permitam ascender socialmente. Ora, se isso for verdade, acho que estamos diante de uma das declarações mais imbecilizantes de toda a nossa história. Desde quando uma ação política que terá impactos dramáticos e duradouros sobre a vida de todos os brasileiros não diz respeito a este ou àquele segmento social? Como podem supor, ao mesmo tempo, que uma mudança assim tão radical dos rumos políticos do País não terá nenhuma influência sobre o seu futuro?

Uma entidade que se dedica a investigar as tendências dominantes em amplos setores da sociedade brasileira não pode meramente apresentar uma afirmação desse tipo, sem fazer maiores considerações sobre o seu significado. Ao agir assim, presta um desserviço ao conhecimento da realidade social do País e acaba convergindo para a consolidação de uma postura de falsa neutralidade, que representa, de fato, uma aceitação tácita do controle das elites sobre o jogo político. Então, tanto faz o resultado desse processo de impeachment que pode jogar o Brasil numa era de turbulência social e de instabilidade institucional prolongadas? É verdade que uma ampla maioria de pessoas pertencentes às classes C e D não vincula o seu sucesso ou o seu fracasso à existência de programas e políticas públicas que estimulem o seu crescimento e abram oportunidades a isso? Estamos mesmo diante de um quadro de completa aberração ideológica, em que parcelas expressivas da população não são sequer capazes de reconhecer aquilo que lhes interessa e lhes favorece?

Não tenho elementos para contestar essas afirmações. Não consolidei estudos e pesquisas de opinião que me permitissem revidar os argumentos expostos. Mas conheço algumas pessoas das assim chamadas classes C e D que me mostram uma percepção diametralmente oposta ao que foi dito acima. Não constituem uma massa de dados suficiente para desenvolver qualquer teoria ou explicação sobre os fatos. Não podem ser tomadas como contrapartida a tudo que foi concluído pelo instituto mencionado antes. São meros casos isolados que resolvi juntar aqui para fazer uma breve reflexão. Mas ajudam a pensar que essa indiferença apontada em relação ao que se passa hoje no Brasil é, no mínimo, relativa. Não há uma descrença generalizada na política, como faz parecer a conclusão desse último estudo apresentado.

Vou começar pelos porteiros do meu prédio, que conheço há mais de vinte anos. Dois deles, pelo menos, se mostraram profundamente abatidos com o desenrolar dos últimos acontecimentos. O mais velho me confessou que, diante daquela votação grotesca realizada pela Câmara dos Deputados no dia 17 de abril (quando foi aprovada a abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff), ele só fez vomitar. Sentiu-se tão mal, mas tão mal, que no dia seguinte nem conseguiu sair da cama; sorte é que era seu dia de folga. O outro, quando lhe cumprimentei pela manhã e perguntei se estava tudo bem, logo respondeu que não estava não; sentia-se horrorizado pelo que vira na televisão e se mostrava bastante preocupado com o que estava por vir. Como eles conhecem a minha opinião política, costumam se sentir à vontade para desabafar.

E assim tem sido praticamente todos os dias. Volta e meia, eles me perguntam o que estou achando, como será que tudo isso vai terminar? Tento confortá-los, na medida do possível, mas vejo que eles estão abalados. Minha diarista, mulher sofrida e experiente, também tenta me consolar em nossos desabafos e sempre afirma, com uma convicção inabalável, que “tudo isso que Dilma está sofrendo é por ser mulher”. A bem da verdade, ela sempre disse a mesma coisa. Conhece bem as artimanhas do machismo e da violência contra a mulher; ela, que sofreu na pele as agruras de um marido brutal e covarde. Embora sofra com esse ataque violento ao mandato da presidenta, demonstra uma resignação mais calejada. É como se ela já soubesse, com antecedência, quanto pesa a mão dos poderosos sobre os que ousam desafiá-los.

No hortifrúti que frequento, os rapazes que me atendem também demonstram um enorme pesar. Como sabem da minha posição (em virtude dos adesivos que sempre usei nos períodos eleitorais), conversam baixinho sobre o que está acontecendo, quase falando entre os dentes. Estão horrorizados. Um deles comentou comigo que passa pelas favelas a caminho de casa e vê as pessoas fazendo churrasco, tomando cerveja, curtindo o descanso. Praticamente todos têm computador em casa conectado à Internet. No seu condomínio, somente carros de modelos novos estão estacionados no pátio, o dele é o mais velhinho de todos! “O Lula mudou o Brasil, dona Vania! Só não vê quem não quer.” Os outros também confessaram o horror que sentiram diante dos deputados que votaram pelo impeachment da presidenta. Não conseguem entender como o presidente da Câmara, um notório corrupto, pôde conduzir aquela votação. Estão perplexos e atordoados. Querem saber como tudo isso vai terminar. Não sei dizer.

São membros das classes C e D, e não estão indiferentes à sorte do Brasil e dos brasileiros. Como eu disse antes, estes exemplos não significam nada além de uma amostra pessoal de como algumas pessoas estão reagindo ao golpe que está em curso. Talvez não saibam o que fazer. Talvez tenham medo de reagir. Talvez sintam o peso do ódio de classe que se dirige contra elas. Mas não estão indiferentes. Não pensam, como disse o diretor do tal instituto, que isso não passa de “briga das elites”, que não lhes diz respeito. Infelizmente, percebem com enorme clareza o significado dessa guinada que está sendo tentada na política brasileira.

Há, sem dúvida, uma outra parcela dessas classes C e D, eventualmente ainda mais expressiva do que esta, que não está ligando a mínima para o que se passa, ou que torce vivamente para que o golpe se concretize de fato. Conheço alguns exemplares. Mas isso não nos autoriza a tomar as partes pelo todo. Simplesmente deduzir que o conjunto desses grupos sociais está na mais completa alienação diante dos episódios gravíssimos que se abatem sobre nós é forçar a barra numa única direção. É possível que a maior dificuldade de todas seja justamente a de unificar todos esses sentimentos e todas essas perplexidades e lhes dar uma mesma orientação. A nossa maturidade democrática ainda não chegou a esse estágio, lamentavelmente. Hoje, pelo que observamos, só mesmo os setores mais organizados da sociedade conseguem se expressar e se movimentar a contento. Há uma massa (silenciosa, portanto) que não é abarcada por esses movimentos e fica à deriva nos momentos cruciais da história.

Essa dificuldade sempre esteve presente. Dadas a diversidade e a complexidade das organizações sociais modernas, não é trivial organizar movimentos e partidos políticos que consigam dar conta de grupos tão distintos e difusos. Parece que o momento atual é significativamente estimulante para que se faça uma reflexão mais profunda e integrada sobre esse desafio, que pertence a todos os projetos e a todas as perspectivas que visam à emancipação humana.