O escândalo da mandioca

Um dos casos mais rumorosos de corrupção da história brasileira se tornou conhecido como o “escândalo da mandioca”. Entre 1979 e 1981, na pequena cidade de Floresta, no Estado de Pernambuco, perpetrou-se um golpe contra o Banco do Brasil, por meio do qual se desviou a quantia de 1 bilhão e 500 milhões de cruzeiros (em valores atualizados, tal montante corresponde a R$ 133.048.458,18). Esse dinheiro, destinado a crédito agrícola e a cobertura de seguro para o plantio, foi parar nas contas de beneficiários que nada tinham a ver com o plantio da mandioca. Entre eles, estavam funcionários do próprio Banco do Brasil, incluindo o gerente, e também agricultores, comerciantes, políticos, e até um oficial da PM.

Os relatos sobre a farra com o dinheiro público destinado ao financiamento da agricultura começaram a se espalhar pelo sertão, em parte devido à aparência suntuosa de algumas construções que começaram a brotar naquelas paragens em que predominou sempre a mais degradante miséria. Algumas mansões luxuosas, que se assemelhavam a verdadeiros palácios reais e instigavam a imaginação popular, surgiram em meio a uma já tradicional paisagem marcada pela privação e pelo desconsolo. Além de toda a sua beleza e grandiosidade, essas edificações faustosas ainda por cima teimavam em exibir magníficas piscinas, numa região em que faltava água para matar a sede das gentes e dos bichos. Era impossível ignorar a singularidade daqueles monumentos, e as notícias se espalharam com velocidade, despertando curiosidade e desconfiança. Tanta riqueza logo passou a ser associada a “coisa de ladroagem”.

Vai daqui, vai dali, entre uma especulação e outra, os fatos começaram a aflorar e a se tornar cada vez mais públicos. Conta o noticiário da época que foi uma briga entre duas famílias rivais da cidade que acabou levando a fraude a se espalhar entre ouvidos e bocas. Um membro da família Ferraz, buscando atingir um ferrenho adversário da família Novaes, deu com a língua nos dentes e fez com que as notícias se alastrassem feito epidemia. Não demorou muito para que o escândalo ganhasse corpo e começasse a incomodar. Durante um bom tempo, tinha havido um grande esforço (bem-sucedido) para abafar o caso. Depois desse desentendimento entre as famílias rivais, tornou-se impossível manter o pacto de confiança que havia garantido o sigilo das informações por tanto tempo. A fraude ficou exposta.

Não é que outros interessados não soubessem dos fatos e não quisessem esclarecê-los. É que não tinham os meios de fazê-lo. O esquema tinha sido armado de modo muito bem planejado, para que as provas não se tornassem abundantes nem acessíveis. O quadro político geral, por outro lado, também dava a sua contribuição para que o silêncio fosse mais conveniente do que a denúncia ou a acusação. Por isso mesmo, tudo era falado à boca pequena, como se dizia antigamente. Os protagonistas da trama estavam protegidos pelo medo de uns e pela incapacidade de outros.

“Políticos de oposição que sabiam do ‘fenômeno’ não tinham muito entusiasmo para denunciar porque faltavam provas robustas e até porque se vivia ainda um clima muito difícil. O país era governado por militares, de forma mais atenuada, depois da anistia de 79, mas ainda tinha o rescaldo dos tempos de silêncio forçado. Quem denunciasse qualquer irregularidade do sistema era logo tachado de comunista e passava a ser visto como um terrorista em potencial.”

(Diário de Pernambuco, “Crimes que abalaram Pernambuco”, 06/08/2001, p.1)

Esse clima de intimidação que predominava ainda no Brasil certamente colaborava para que tal tipo de fraude e de golpe pudesse ser perpetrado sem punição aos culpados, sobretudo, se estes fossem membros das elites políticas e econômicas. Era o que se verificava na pequena cidade de Floresta, em Pernambuco. Tudo se encaminhava para um desfecho previsível, em que os beneficiários do esquema fraudulento acabariam sendo esquecidos pela população incrédula diante de tamanha riqueza acumulada.  Não fosse por um procurador federal que decidisse levar adiante a denúncia. Pedro Jorge de Melo e Silva, o jovem procurador, resolveu investigar o caso e apresentou denúncia contra pelo menos 25 pessoas envolvidas. Utilizando “laranjas” para ampliar os seus ganhos, fazendeiros locais tomavam o dinheiro do crédito agrícola junto ao Banco do Brasil e, na hora do acerto de contas com o banco, apelavam para um programa federal (Proagro) e para um seguro que cobria a perda das lavouras, “destruídas pela seca”. Nesse processo, iam molhando as mãos de funcionários do banco e outros envolvidos.

O prosseguimento das investigações provocou o desmantelamento do esquema, com prisões e arresto de bens. Um dos funcionários do Banco do Brasil acabou cometendo suicídio ao ser descoberto. Outro preferiu a colaboração com a polícia e forneceu dados detalhados sobre o esquema que lesou o banco, ajudando a desvendar todo o processo. O que restou das investigações foi a constatação simples de que houve de tudo nesse episódio lamentável, menos o plantio da mandioca!

No início de 1982, quando os procedimentos iniciais para elucidação do golpe ganhavam corpo e se intensificavam, uma bomba estourou no meio jurídico e político de Pernambuco. O jovem procurador foi assassinado a sangue frio, por um pistoleiro, quando saía da padaria onde havia ido para comprar leite e pão, na companhia de uma de suas filhas. Com esse fato trágico, os esforços que vinham sendo feitos no sentido de tentar abafar o caso mais uma vez e jogá-lo no esquecimento acabaram baldados.

Caso da fraude da mandioca mata procurador

“Cinco tiros disparados por desconhecidos, que fugiram, mataram numa rua de Recife ontem o Procurador da República Pedro Jorge de Melo e Silva, que apresentou denúncia contra 25 pessoas envolvidas no chamado escândalo da mandioca: políticos, empresários, agricultores, militares, funcionários e agentes do Banco do Brasil, que deram um desfalque de Cr$ 1 bilhão e 500 milhões no BB.”

(Jornal do Brasil, 04 de março de 1982, 1ª página)

Para os que acham que o regime militar foi um paraíso e que o PT inventou a corrupção, fica a dica.