“O Povo e o Presidente”

Durante o período de transmissão do programa ‘O Povo e o Presidente’ na TV Globo (1982-83), as condições socioeconômicas do Brasil se degradavam rapidamente. Os principais dados macroeconômicos eram bastante preocupantes. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a inflação de 1980 tinha atingido o incrível patamar de 110,2%, um índice assustador, embora representasse uma pequena queda em relação ao ano anterior (1979), quando havia chegado à cifra de 113%. (Jornal do Brasil, 08 de janeiro de 1981, 1ª página) O cômputo de 1982 indicava que a inflação continuaria seguindo uma trajetória de baixa relativa, mas mantendo uma taxa significativamente elevada: 99,7% naquele ano. (Jornal do Brasil, 31 de dezembro de 1982, 1ª página)

O mau desempenho da administração econômica repercutiu negativamente na imprensa. Diante da queda anunciada de 3,5% do PIB, alardeada como “a maior desde 1947”, as críticas começaram a subir o diapasão: “Folha de São Paulo acusa Delfim Neto, ministro do Planejamento, de ter feito revisão dos cálculos do PIB pela FGV.” (Jornal do Brasil, 20 de fevereiro de 1982, 1ª página) Isso porque, alegava-se, pelos cálculos preliminares realizados, a queda do PIB teria sido ainda mais dramática: 4,7%! Mas ninguém caiu por isso, só mesmo o ritmo da atividade econômica. Não houve CPI, nem pedido de impeachment. Foram dadas as explicações de praxe, e tudo continuou como antes. Sem maiores problemas.

O noticiário tendia a privilegiar a situação da classe média. Havia constantes referências ao progressivo empobrecimento dos setores médios da população — resultante tanto da inflação e da baixa dos salários quanto do desemprego. O Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, por exemplo, tomou a decisão ousada de escrever uma carta para as Câmaras de Vereadores de mais de quatro mil municípios brasileiros, por conta do alto índice de desemprego e de subemprego que afetava quase a metade dos 30 mil médicos do Estado do Rio. Conseguiu 220 ofertas de emprego, sendo a de melhor salário a do município de Carajás, no Norte do País. (Jornal do Brasil, 04 de março de 1982, p.1 e 4) E pensar que algumas décadas depois disso o programa Mais Médicos, do governo federal, seria tão duramente atacado pela mesma categoria.

A perda do poder aquisitivo da classe média provocava mudanças consequentes em seus hábitos de consumo. As restrições orçamentárias atingiam desde o acesso às escolas particulares até o uso dos coletivos apelidados de “frescões” — ônibus executivos com ar condicionado em que só se viaja sentado. O momento era de grande aperto. É claro que essa inquietação acabaria se refletindo nas escolhas políticas, e era isso que o governo tentava evitar: o Rio de Janeiro, por exemplo, elegeu Leonel Brizola (PDT), um trabalhista histórico, para governador, em 1982. Mesmo com toda a manipulação da mídia em benefício do regime militar em vigor.

Para os mais pobres, no entanto, as perdas foram ainda mais significativas. Uma pesquisa realizada pelo economista Ramonaval Augusto Costa, assessor do Ministério do Trabalho, apontava que a desigualdade de renda havia crescido no período de 20 anos, entre 1960 e 1980. Os 5% mais ricos da população (que representavam, segundo os seus cálculos, cerca de 2 milhões 150 mil pessoas) tinham experimentado um aumento tanto da sua renda mensal quanto da sua participação na renda total. Ou seja, estavam cada vez mais ricos! Por outro lado, a desigualdade social sofrera um crescimento acentuado em meio a um nível já elevado de pobreza absoluta. Tudo isso num quadro econômico em que a subida do PIB havia sido significativamente alta. (Jornal do Brasil, 11 de abril de 1982, p.24) Isto é, está mais do que comprovado que o crescimento econômico, per se, não é garantia de eliminação das desigualdades. Políticas públicas diretamente destinadas a vencer esse problema são essenciais.

Enquanto isso, o General Figueiredo respondia as questões do distinto público na TV. E defendia, por exemplo, acabar com “a gratuidade indiscriminada nas universidades federais”, afirmando que “grátis deve ser o ensino para o estudante pobre, e só para este”. (Jornal do Brasil, 31 de maio de 1982, p.2) Entre diversas outras questões, também pregava a reformulação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), um dos principais instrumentos de proteção do trabalhador brasileiro, que, segundo ele, “necessita de urgentes correções para evitar abusos e distorções”, mas sem especificar exatamente quais. (Jornal do Brasil, 30 de agosto de 1982, p.2) Abro as notícias do dia e me deparo com propostas idênticas partindo de ministros e parlamentares, hoje. É incrível como essa agenda resiste à passagem do tempo.

Diante da subida descontrolada dos preços, o General Figueiredo fez um “apelo aos brasileiros” para que ajudassem o governo a “fiscalizar a especulação, o lucro exagerado, os atravessadores e o câmbio negro de alimentos”. No limite da indignação, declarou: “Temos de acabar com isso. Chamem a polícia, chamem os fiscais.” (Jornal do Brasil, 06 de setembro de 1982, p.3) As notícias econômicas iam sendo encaminhadas, paulatinamente, para as páginas policiais dos jornais. Vez por outra, ocorria um bafafá na porta de algum açougue ou mercearia. Não demorava a que se apontasse algum culpado — geralmente, um comerciante de pequeno porte, acusado de tentar tirar proveito da situação. Mas a inflação não se debelava! Nem com os gritos do povo, nem com as ordens do General! Tempos depois, a população seria chamada a integrar a equipe dos “fiscais do Sarney” (presidente do Brasil, 1985-1990), a fim de continuar a sua cruzada incansável contra o monstro inflacionário que assolava o País.

Mas não era só de inflação que a economia brasileira se ressentia, o desemprego era outra grande fonte de preocupação. Para isso, também, o General Figueiredo tinha as suas respostas: “Lembrou ainda o presidente que o desemprego, o custo de vida e a inflação não são problemas exclusivos do Brasil, pelo contrário, aumenta o desemprego em vários países industrializados.” (Jornal do Brasil, 06 de setembro de 1982, p.3) Então, está tudo certo. Todos os povos estavam com dificuldades. Era domingo à noite, o trabalhador brasileiro deveria ir para a cama despreocupado. Os males do mundo é que nunca descansavam.

Numa de suas últimas aparições no programa ‘O Povo e o Presidente’, o General Figueiredo advertiu que 1983 seria um ano “muito difícil”, em que todos precisariam ter muita paciência. Os problemas econômicos do País, cada vez mais graves, não seriam resolvidos assim de uma hora para outra. Mas frisou que a mídia em geral tinha um papel fundamental na criação de um ambiente social mais cordato, apesar do todos os problemas. Para tanto, bastaria enfatizar o que havia de bom, relegando o mal para uma posição secundária. A TV Globo lhe dera um espaço privilegiado nas noites de domingo, mas parece que surgiam brechas que a oposição ia conseguindo ocupar: “Figueiredo faz críticas ao comportamento da imprensa: (…) criticou a forma de atuação dos jornais e das emissoras de rádio e televisão, os quais, segundo ele, quando querem combater o Governo, eliminam do seu noticiário tudo o que o Governo faz de bom, de útil para a coletividade, e só apresentam as medidas difíceis.” (Jornal do Brasil, 07 de fevereiro de 1982, p.3)

Qualquer semelhança com fatos presentes não será mera coincidência. A manipulação da mídia brasileira é notória, e sempre soube servir bem aos governantes do seu time.

Infelizmente, o corolário de toda essa situação socioeconômica desajustada foi uma escalada de violência urbana sem precedentes na história do País.