“Farinha pouca, meu pirão primeiro”

Há um ditado muito antigo, aqui no Brasil, que diz assim: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Cabem a esse respeito inúmeras interpretações: há quem veja nisso mera manifestação de egoísmo, algo característico de todo ser humano, desde priscas eras; há quem prefira enxergar um traço cultural mais marcante da nossa formação histórica, no qual prevalece o mais absoluto e iniludível individualismo, mesmo diante das situações mais extremadas em que somos chamados a combater juntos. O momento presente por que passa o País é excepcional para uma avaliação crítica dessa tendência, e vou expor a seguir três situações cotidianas que me deixaram perplexa.

Ontem, peguei um táxi em que o motorista deu verdadeiro show como useiro e vezeiro dessa prática. Começamos a conversar e chegamos aos problemas do Rio de Janeiro, nossa mui heroica cidade de São Sebastião, tão combalida pelos desacertos da atual administração municipal: trânsito caótico, ruas imundas, transporte e mobilidade em condição crítica. Ele logo me apresentou o candidato a prefeito no qual pretende votar nas próximas eleições de outubro — um sujeito que já foi secretário de transportes do Estado e que defende os interesses dos taxistas. Minha nossa! Os interesses dos taxistas que, hoje, mais do que nunca, se concentram, principalmente, em combater o Uber, a nova modalidade de concorrência no setor de transporte urbano de passageiros que se espalhou pelo mundo inteiro. Tentei argumentar com ele que essa forma de luta seria inglória, se ficasse apenas na tentativa de eliminar o concorrente. Considero necessário encontrar uma forma de compatibilizar os dois prestadores de serviços — os taxistas e os motoristas do Uber — tendo em vista que muitos usuários já demonstraram uma visível preferência pelos segundos. Vai ser difícil simplesmente eliminá-los.

Ele me contou que, outro dia, ficou abismado quando foi buscar um passageiro numa das casas de show mais famosas do Rio. De um lado da rua, havia uma fila imensa de táxis vazios, à espera dos clientes; do outro lado da rua, uma fila enorme de usuários, todos com o celular na mão, aguardando os carros do Uber, que chegavam um atrás do outro para prestar o serviço. É claro que a situação o incomodou sobremaneira. Mas a solução que os taxistas, em geral, vêm apresentando para esse desafio não é a mais adequada. Acima de tudo, é preciso regulamentar a atividade, cobrar os impostos e as taxas pertinentes e garantir aos usuários a segurança obrigatória. De qualquer maneira, o taxista que me conduzia prefere mesmo eleger um candidato comprometido com as demandas do seu grupo profissional, ainda que os problemas de uma metrópole como o Rio de Janeiro sejam infinitamente mais complexos e dramáticos em diversos outros aspectos e sentidos. Para não falar do Brasil, cuja situação atual exibe uma carga de tragédia que poucas vezes se apresentou em sua história. Mas ele vai mesmo é votar no candidato que defende os taxistas!

Hoje, fui a uma consulta médica em que presenciei mais uma dessas manifestações desabridas de rancor pela carga tributária brasileira. Nessas horas em que vejo profissionais liberais (e outros) reclamarem dos “impostos excessivos” que pagam no Brasil, sempre penso que muitas pessoas possuem aquilo que se chama de uma falsa consciência. Parece que conhecem bem alguma coisa, mas apenas apresentam sobre ela as mais prosaicas pérolas do senso comum, em geral, carregadas de preconceito. É uma falsa consciência porque, ao invés de elaborarem uma reflexão cuidadosa e detalhada sobre algo, que leve ao entendimento da sua complexidade, ficam apenas na superfície e se satisfazem com frases de efeito e com respostas corriqueiras e rápidas, que dão somente a ilusão do conhecimento. A calamidade se completa quando, além de exibirem a sua falsa consciência sobre as coisas, sem nenhuma cerimônia, essas pessoas ainda se arrogam o direito de declarações peremptórias: pagamos impostos elevados, mas não temos nenhum retorno.

Esse mantra da classe média é uma das manifestações mais escandalosas dessa falsa consciência. Quando alegam que não temos saúde e educação públicas e, portanto, temos de pagar por elas, esquecem e negam que, para as pessoas que não podem pagar pelos serviços particulares caros, o que existe mesmo é a escola pública e o hospital público. Ou seja, os serviços existem sim, estão ali, mas não são de qualidade suficiente para as aspirações daqueles que podem pagar por “uma coisa melhor”. Então, não me venham com essa conversa mole de que não temos os serviços. O que não temos são os serviços que atendam aos desejos e às exigências de quem pode pagar por mais. Simplesmente, diminuir ou eliminar os impostos porque não cobrem as despesas elevadas das camadas mais abastadas da população é uma aberração. E temos mais: eletricidade nas tomadas, controle de tráfego aéreo, campanhas de vacinação, polícia rodoviária, universidades federais, corpo de bombeiros, Embrapa, Fiocruz, diplomacia, defesa civil, ministério público e tantas outras atividades que são prestadas como serviços públicos. Sem impostos, o que existe é a extorsão, a lei do mais forte, a pura e simples violência da arrecadação. Os impostos e as taxas fazem parte do contrato social, do compromisso civilizatório que assumimos quando da criação do Estado de Direito.

O ponto culminante dessa sequência de exibições do princípio de “farinha pouca, meu pirão primeiro” foi a revelação do conteúdo das gravações apresentadas por mais um corrupto investigado, que fechou acordo de delação premiada com o ministério público. Entre tantas outras declarações constrangedoras e vergonhosas, temos uma fala do senhor Renan Calheiros, presidente do Senado e do Congresso Nacional, na qual ele diz textualmente que os membros do Supremo Tribunal Federal simplesmente viraram as costas para a presidenta Dilma Rousseff, quando ela os procurou para discutir a crise do País, porque ela se recusou a discutir aumento salarial para a categoria! Segue o trecho:

RENAN — Não negociavam porque todos estão putos com ela. Ela me disse e é verdade mesmo, nessa crise toda — estavam dizendo que ela estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada — aí ela disse: ‘Renan, eu recebi aqui o Lewandowski, querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável’.

(no jornal Folha de São Paulo, 25 de maio de 2016)

Se isso for verdade, é mesmo o cúmulo do descaso com os destinos do Brasil e dos brasileiros, justamente da parte de uma corte de justiça que deveria ser responsável pela salvaguarda da Constituição Federal, aquela que protege os direitos dos cidadãos. E que preserva o sentido do Estado de Direito. Mas, ora, que se dane tudo isso, o que importa mesmo é que existia uma demanda por aumento de salários que, não sendo atendida pela presidenta afastada, abriu caminho para que se jogasse na lama todo o resto! Ferindo, inclusive, os princípios constitucionais! Como disse a própria presidenta: é uma coisa inacreditável.

Mais uma vez, prevaleceu a praxe de “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Antes de tudo, os interesses particulares e mesquinhos de pessoas, grupos ou categorias profissionais. Falhamos desgraçadamente na tarefa de construir uma unidade cultural, social e política que nos incutisse o sentido de responsabilidade coletiva pelo nosso próprio destino. Ficamos à mercê de eventualidades, incertezas, acontecimentos inesperados, sobre os quais não temos nenhum controle e cuja direção não somos capazes de determinar. Assim, perdemos o direito de lamentar o desastre ocorrido e de pleitear uma justa correção de rumos. Oxalá possamos nos resgatar…