Olimpíadas

Enfim, a Olimpíada Rio2016 terminou e foi um grande sucesso. Contra as expectativas de alguns que, dentro e fora do Brasil, previram diversos problemas e pregaram o caos — desde uma “explosão” do zika vírus até a ocorrência de atos terroristas, passando por dificuldades técnicas e organizacionais que nos cobririam de vergonha —, o evento correu dentro do programado e deu tudo certo. A ponto de o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) declarar que faria outra Olimpíada no Rio de Janeiro, tranquilamente. Isso tudo, depois de se derramar em elogios a todos os brasileiros envolvidos na realização dos jogos, autoridades ou não, e de agradecer encarecidamente pelo empenho geral. Para muitos, foi um alívio. Para outros, foi motivo de orgulho.

O fato é que o Brasil, com a organização da Copa do Mundo, em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016, provou que é capaz de sediar grandes eventos internacionais com a competência necessária. Ainda que tenhamos dado alguns tropeços eventuais, “a maior competição esportiva do planeta realizada pela primeira vez na América do Sul” não ficou devendo àquelas que a antecederam. A organização dos jogos olímpicos é sempre cercada de contratempos, onde quer que aconteça, dadas as características e a magnitude das competições, dado o número de atletas e de comissões técnicas participantes, e o volume de obras exigidas, além das despesas elevadas que precisam ser feitas na preparação dos acontecimentos.

Tendo em vista essas condições, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) vetou certa vez uma proposta de candidatura de São Paulo a sede dos jogos olímpicos de 1988. Apresentada pelo então governador do Estado, Paulo Maluf, essa pretensão foi recusada por unanimidade pelo Conselho Consultivo da instituição. Elaborada em apenas duas laudas e meia, a proposta foi considerada cheia de imprecisões e limitações, e custou ao governador a acusação de demagogo. Segundo os responsáveis pelo veto, o primeiro erro era o de que a candidatura deveria partir do prefeito, e não do governador, posto que, conforme determinação do Comitê Olímpico Internacional, o direito de sediar os jogos é dado a uma cidade, e não a um Estado da federação ou a um país.

Outras exigências do COI também foram completamente ignoradas pela petição do senhor Paulo Maluf. As mais importantes seriam a indicação precisa das fontes de recursos que assegurariam o empreendimento, e o pagamento de 500 mil francos suíços, exigidos como depósito de garantia de todos os pretendentes, conforme estipulado na Carta Olímpica. Na falta desses e de outros atributos considerados essenciais, o COB recusou terminantemente o prosseguimento da iniciativa. Ao ser entrevistado sobre o assunto, o presidente do COB, major Sílvio de Magalhães Padilha, ainda apontou para as graves dificuldades econômicas e financeiras do País:

“Temos pouco feijão, estão ocorrendo greves, pedidos por melhores vencimentos. Vocês sabem o custo de uma Olimpíada? No Canadá, há quatro anos, foram Cr$ 99 bilhões, bilhões mesmo.” (Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)

[Em valores atualizados, 99 bilhões de cruzeiros em 1976, seriam em agosto de 2016: R$ 167.337.063.826,93]

Embora recusasse a candidatura de São Paulo naqueles termos e naquelas condições, o COB, em sua nota oficial, reconhecia o elevado significado de uma Olimpíada para toda e qualquer nação, sobretudo, para as parcelas mais jovens da população — principais competidoras e espectadoras dos esportes disputados. E mais: deixava claro que os ganhos de um empreendimento desse porte nem sempre se resumem aos resultados financeiros. A imagem do país e de seu povo seria grandemente beneficiada por uma exposição positiva diante do mundo inteiro, propiciando uma oportunidade única de projeção internacional.

“2) Ninguém mais do que nós, do COB, tem interesse e desejo de realizar os Jogos Olímpicos em nosso país, pois eles são uma das maiores realizações para a juventude que um país pode desejar, e cujo retorno em melhoramentos e em propaganda é indiscutível.” (Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)

Quer dizer, por maiores que sejam os dispêndios exigidos pela preparação dos jogos, o retorno em forma de reconhecimento e de estímulo ao desempenho esportivo, ou mesmo administrativo e técnico, terá valido a pena. Os efeitos positivos de uma atuação bem sucedida tendem a perdurar muito tempo ainda depois do encerramento dos eventos esportivos, angariando para diversas categorias profissionais e esportivas um sem número de oportunidades incomensuráveis.

Todavia, diante das circunstâncias econômico-financeiras do Brasil naquele momento histórico, o COB desaconselhava por completo uma candidatura local a sede dos Jogos Olímpicos de 1988. Mesmo reconhecendo que há ganhos espetaculares que não se medem em números, a entidade olímpica brasileira buscou fundamentar suas precauções nos saldos efetivos que restaram dos últimos jogos disputados no mundo — dívidas consideráveis para os realizadores. E o Brasil não estaria em condições de aumentar o seu próprio endividamento.

“4) Todos os países que realizaram os últimos jogos olímpicos estão até hoje endividados em consequência direta dos gastos com os jogos, uns mais do que outros, embora seja lógico admitir que o encargo tenha resultado em melhoramentos substanciais, como a construção de estradas, hotéis, instalações esportivas e outros.” (Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)

Desde 1952, observava-se uma tendência para que os jogos olímpicos se tornassem cada vez mais deficitários para os seus organizadores. Somente Tóquio, em 1964, rompeu essa cadeia de progressivo endividamento resultante da preparação de uma Olimpíada. Exigências técnicas cada vez maiores, modalidades esportivas cada vez mais variadas, crescimento significativo do número de países e de atletas participantes, enfim, um volume cada vez mais robusto de despesas necessárias à montagem do espetáculo contribuíam para o encarecimento cada vez mais acentuado da festa do esporte. Seja como for, ainda que os custos se tornassem astronômicos, as candidaturas jamais deixaram de acontecer, e sempre foram bastante disputadas. Para o Brasil, não era um objetivo a ser alcançado logo, mas um sonho a ser acalentado por muito tempo ainda.

Embora os dados de Montréal (1976) e de Moscou (1980) até aquela data ainda não estivessem disponibilizados, o COB acreditava que a elevação dos gastos continuasse a crescer e desencorajava as pretensões dos brasileiros de conquistar uma sede olímpica.

U$ milhões

Local Ano Renda Despesa Saldo
Londres 1948 6.332 5.998 334
Helsinqui 1952 10.045 11.402 -1.357
Melbourne 1956 8.331 9.335 -1.004
Roma 1960 11.149 67.952 -56.803
Tóquio 1964 40.658 37.601 3.057
México 1968 98.714 225.778 -127.064
Munique 1972 424.690 714.593 -289.903

(Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1980, p.24)